Prefeitura de SP planeja criar camping para moradores de rua, diz secretária Soninha Francine

***ARQUIVO*** SÃO PAULO, SP, 19.01.2017: EVENTO-SP - Soninha Francine. (Foto: Marcus Leoni/Folhapress)
***ARQUIVO*** SÃO PAULO, SP, 19.01.2017: EVENTO-SP - Soninha Francine. (Foto: Marcus Leoni/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Há menos de uma semana como secretária de Direitos Humanos e Cidadania, a ex-vereadora Soninha Francine trabalha para tirar do papel um projeto antigo de criar um camping para abrigar moradores de rua em São Paulo.

O modelo prevê destinar um terreno onde os moradores de rua possam montar suas barracas e ter acesso a uma estrutura de banheiros, chuveiros e onde lavar as roupas.

Um dos motivos que a faz acreditar na possibilidade da ideia se concretizar dessa vez é o agravamento da situação social da cidade. Segundo censo, houve aumento de 31% da população em situação de rua em 2021 comparado ao levantamento feito em 2019. "O prefeito disse que, sabendo da agudeza da situação da cidade, dinheiro não seria um entrave", disse em entrevista à Folha nesta quinta-feira (5).

A ideia foi apresentada pela primeira vez há cinco anos, quando ela integrou o secretariado do ex-prefeito João Doria (PSDB). "Quando eu dei uma entrevista falando sobre isso, pediram a minha cabeça", diz ela, demitida nos primeiros meses da gestão.

O convite do prefeito Ricardo Nunes (MDB) para assumir a pasta veio via ligação de celular no fim da tarde da última sexta-feira (30), quando estava saindo da Câmara Municipal onde trabalhava no gabinete do vereador Xexéu Tripoli (PSDB). "Eu levei um susto e achei que era engano", lembra. A conversa durou menos de um minuto e o convite foi aceito em seguida. "Eu ia ser candidata, mas queria mesmo ser secretária", diz.

"A situação social atual da cidade fica mais configurada como emergência porque são 31 mil pessoas nas ruas, muitas famílias e gente recém-chegada que o principal motivo para estar na rua foi não ter conseguido pagar aluguel nem gás."

Ela conta que a ideia quase chegou a sair do papel no começo da pandemia quando era vereadora. "Foi produzido um modelo de camping que ia custar R$ 100 mil por mês", diz. "O padre Júlio Lancellotti foi contra porque pessoas já tinham as suas barracas e gerou uma oposição tão grande que desmobilizou geral", diz a secretária.

Soninha vê sua atuação na secretaria de Direitos Humanos uma chance de criar alternativas para a população de rua na cidade por ter uma dinâmica menos engessada do que a Smads (Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social). "Aqui tenho mais possibilidade de ser disruptiva, O Sistema Único de Assistência Social foi feito muito espelhado no SUS, então o atendimento é hierarquizado, muito engessado", diz.

A ideia do camping é uma forma flexível de abrigo, segundo a secretária. "A pessoa tem que cumprir uma série de requisitos para fazer jus a uma vaga. Tem serviço para mulheres com filhos até 14 anos. O que você faz com uma família com quatro filhos e um tem 16 anos?"

A pasta também vai atuar no projeto municipal que prevê a construção de casas de até 18 metros quadrados para abrigar os moradores de rua. A iniciativa foi anunciada pelo secretário de Smads, Carlos Bezerra Júnior, como forma de enfrentar o aumento da população de rua.

Previsto para ser implantado até o fim deste ano, o projeto ainda patina em fases iniciais de implantação como a elaboração do termo de referência, segundo Soninha. "A prefeitura nunca fez isso antes", diz.

Outra atribuição da secretaria será coordenar as políticas de segurança alimentar. Está em estudo um projeto de mercados populares com preços subsidiados pela prefeitura no mesmo molde criado pela Prefeitura de Curitiba, no Paraná.

Cracolândia Para Soninha, a presença da assistência social na cracolândia é insuficiente. "Chega uma hora que vai todo mundo embora, temos que ter mais gente presente 24 horas", diz.

Ela pretende executar um projeto em que pequenos grupos de usuários de drogas sejam acompanhados por assistentes sociais. "A pessoa sai de uma internação tinindo, cheio de orgulho de si mesmo e não tem para onde ir. Não tem sequer um fluxo estabelecido com um centro de acolhida. Ou tem família que o receba ou, como é o caso de muitos, tem que ligar para o 156 do orelhão e pedir uma vaga em albergue. Isso é inacreditável", diz.

Para evitar a volta para os pontos de aglomeração de dependentes químicos, a pessoa será acompanhada de perto por um acompanhante terapêutico. "Não podemos apostar todas as fichas que a pessoa vai voltar para a casa da mãe ou para a ex-esposa. A família não tem técnica para saber lidar com isso", diz.

Soninha usa uma situação pessoal para exemplificar seu ponto de vista. Ela se separou durante a pandemia e seu ex-marido, que vivia em situação de rua quando se conheceram, não se adaptou a voltar a morar com a mãe. "Ele está morando com um amigo nosso", diz.

Ela conta que a crise entre o casal foi causada pela dependência de álcool, apesar de ele ter feito uma série de tratamentos, entre eles, com ayhuasca, "o que surtiu efeito mais duradouro", segundo ela. "Passei vergonha no trabalho, eu dava ordem na portaria da Smads para não deixar ele subir se chegasse embriagado. A gente com problema com marido alcoólatra não pode ter vergonha de falar", diz. "Eu nunca sofri agressão física, mas cheguei a fazer boletim de ocorrência quando ele esmurrou a porta da minha casa às 3 horas da manhã."

Para evitar que o ex-marido volte a morar nas ruas, Soninha estabeleceu um acordo informal de pensão alimentícia. "Eu ajudo com o aluguel e o resto do corre é com ele."

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