Prefeitura troca bueiros e 'blinda' luminárias e cabos para tentar reduzir furtos e vandalismo

O recorrente furto das tampas de ferro fundido dos bueiros e das grelhas de ralos nas ruas do Rio representa não só perigo iminente para motoristas e pedestres. É prejuízo aos cofres públicos, a ponto de ser o principal motivo para a Secretaria municipal de Conservação mudar a estratégia na hora de repô-las — o que já tinha virado uma verdadeira operação de enxugar gelo em algumas áreas. Desde o ano passado, 2.571 tampas foram substituídas pelas de concreto, sem valor de mercado no esquema de receptação de ferros-velhos. E essa não é a única medida do município e de concessionárias de serviços para conter a ação de bandidos e vândalos. Entretanto, essa “blindagem” para proteger os equipamentos urbanos acaba interferindo na paisagem carioca, e, para urbanistas, muitas vezes contribui para tornar a cidade mais hostil.

A CET-Rio, por exemplo, testa no Grande Méier um acessório em sinais de trânsito para evitar o furto de cabos e controladores. O intuito é impedir o acesso ao material, com a instalação nos postes de espécies de coroas de barras de ferro pontiagudas (não muito diferente da lógica de arames farpados, cercas elétricas ou cacos de vidro nos muros de residências pela cidade inteira). A justificativa é que, em 2021 e 2022, cerca de 150 controladores foram furtados, com prejuízo de quase R$ 5 milhões no ano passado.

Já no Túnel Alaor Prata, o Túnel Velho, entre Botafogo e Copacabana, na Zona Sul, no mês passado a Rioluz e a concessionária Smartluz começaram a pôr caixas gradeadas em volta das novas luminárias de LED. É que o túnel não passa ileso aos furtos de cabos e luminárias, que só no mês passado geraram um prejuízo de R$ 504 mil, o dobro do registrado em maio. Arquitetura da violência é o termo que a arquiteta e urbanista Luciana Mayrink, vice-presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio (CAU-RJ), usa para designar essas interferências, segundo ela, com repercussão na relação das pessoas com a cidade.

— Ao se propor a mudança de um projeto, se muda a ambiência e a percepção do usuário da paisagem, que fora projetada com um conceito e que se perde ao ter sua identidade transformada pelo que se chama arquitetura da violência — ressalta ela.

Troca já dá resultado

No caso da troca das tampas de bueiros e grelhas, estão em jogo outros elementos, como durabilidade e resistência do novo material. Secretária municipal de Conservação, Anna Laura Valente Secco diz que, por esse motivo, as de concreto só podem ser colocadas em vias sem trânsito intenso de veículos pesados. Mas ela garante que essa é a melhor solução, já sendo observada uma redução dos índices de furto nas regiões em que ocorreram as substituições, como em trechos da Avenida Mem de Sá, na Lapa.

— O ferro fundido é mais durável. Mas se gasta muito dinheiro com essas tampas. Ao substituir uma delas nas ruas, a nova pode permanecer ali a vida inteira ou, devido aos furtos, cinco minutos. E um bueiro aberto é muito perigoso. Um carro pode cair. Com as grelhas é a mesma coisa, um risco para o pedestre. Além disso, sem a grelha, o lixo se acumula nos ralos que, entupidos, contribuem para enchentes — afirma Anna Laura, lembrando que a maior parte dos bueiros e grelhas sob a responsabilidade da secretaria são os das galerias de águas pluviais.

O custo das novas tampas é cerca de 50% inferior ao valor das de ferro fundido, e estão sendo produzidas pela própria prefeitura. Anna Laura ressalta que, antes de começarem a ser instaladas, as tampas de concreto passaram por testes de peso.

— É nas vias secundárias, com menos movimento, onde estão os maiores índices de roubo. Até acontece, mas é menos comum haver um furto de tampa de bueiro na pista central da Avenida Brasil, por exemplo — diz ela.

Saque na ciclovia

A secretaria não tem uma estimativa de quanto os furtos geraram em prejuízos ou quantas tampas foram subtraídas das ruas recentemente. Números do 1746 da prefeitura, porém, dão pistas da dimensão das perdas. Este ano, só até o começo deste mês, foram 3.075 chamados à central para a reposição de tampões ou grelhas. Os casos estão por toda a cidade, mas regiões próximas a áreas de consumo de drogas como o crack tendem a ser as mais críticas. Anna Laura chama a atenção para a importância da ajuda da população:

— Os cidadãos são nossos olhos nas ruas.

Nesse sentido, um caso emblemático no Rio acabou de ter uma solução no mês passado. A prefeitura concluiu a troca das grades de proteção da ciclovia Tim Maia, no trecho entre São Conrado e a Barra da Tijuca, após sucessivos furtos e atos de vandalismo que fizeram desaparecer trechos inteiros do guarda-corpo, com flagrante risco aos ciclistas. Ao longo de 5,6 quilômetros, foram substituídas as grades de alumínio pelas barras de polímero reforçado com fibra de vidro. O custo dessa troca: R$ 4 milhões.

Já na Linha Vermelha são os cabos de iluminação de cobre que estão sendo trocados pelos de alumínio, em outra tentativa da PPP da iluminação pública da cidade para coibir os roubos na via — só no primeiro semestre deste ano, as equipes de manutenção foram acionadas 290 vezes para reparos de furtos na via. Ao todo, neste mês de julho, serão oito mil quilômetros de cabos substituídos.

— Estamos utilizando material com menor valor comercial, por exemplo. O metro do cabo de cobre pode custar até quatro vezes mais do que o de alumínio no mercado — afirma Paulo Cezar dos Santos, presidente da Rioluz, que, junto com a concessionária Smartluz, começou no início do ano a concretar as caixas de passagem de fios em pontos da via expressa, quando os bandidos passaram a mirar, então, as fiações aéreas, com prejuízo de R$ 112 mil.

Entre as concessionárias de serviços públicos da cidade, só a Light registrou de janeiro a abril deste ano o furto de um total 5,2 quilômetros de cabos da rede elétrica, uma extensão equivalente à distância entre o Posto 9, em Ipanema, e o Leme. Além de um prejuízo financeiro de R$ 600 mil no período, a empresa afirma que os furtos afetaram mais de 18 mil pessoas. Elas ficaram, em média, 15 horas sem energia neste ano. E até transformadores, que pesam em média 515 quilos e ficam nos postes a cerca de 6,5 metros de altura, têm sido furtados: foram seis casos este ano.

— Além de interromper o fornecimento de energia, o furto de cabos pode causar sérios acidentes, colocando em risco não só a vida de quem pratica o crime, como de toda a população — afirma Daniel Negreiros, Diretor de Geração, Transmissão e Manutenção da Light.

5km de cabos novos

Ao todo, nos primeiros quatro meses deste ano, a companhia registrou 141 ocorrências de furto de cabos, 182% a mais que no mesmo período do ano passado, quando 50 ocorrências haviam sido registradas. Por conta dos furtos, a distribuidora destaca que, de janeiro a junho deste ano, substituiu mais de cinco quilômetros de cabos de aço por cabos feitos de outros materiais, de menor valor de mercado, em sua rede elétrica subterrânea.

A Light destaca ainda que uma modalidade de furto que vem se tornando mais corriqueira é a dos cabos de derivação que fazem a ligação entre a rede subterrânea de energia e a rede aérea. Foram 55 casos somente este ano, principalmente na Grande Tijuca, em locais como a Praça Maracanã.

— Apenas profissionais da Light, ou de empresas prestadoras de serviço, devidamente treinados e equipados, estão autorizados a fazer intervenções junto à rede elétrica. Neste sentido, a Light pede para que o cliente, ao perceber qualquer movimentação diferente próxima à rede da companhia, nos informe por meio do Disque-Light (0800-0210-196) — conclui Negreiros.

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