Prefeituras arrecadam até R$ 40 milhões com patrocínio de Carnaval

JOÃO PEDRO PITOMBO, JOÃO VALADARES E DIEGO GARCIA
*ARQUIVO* RIO DE JANEIRO, RJ, 02.03.2019: A cantora Maria Rita, com a atriz Paola Oliveira, durante o Bloco Bola Preta pelas ruas do centro do Rio de Janeiro. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)

SALVADOR, BA, RECIFE, PE, e SÃO PAULo, SP (FOLHAPRESS) - Em meio a mudanças estruturais com o crescimento do Carnaval de rua, as principais capitais brasileiras impulsionaram a busca por recursos privados para financiar os custos da festa. 

Nas capitais com as maiores festas do país -Salvador, Rio de Janeiro, Recife e São Paulo-, o volume de recursos captado pelas prefeituras chega a R$ 96,9 milhões. O valor arrecadado, contudo, ainda não é suficiente para arcar com todos os custos da operação do Carnaval.

Em Salvador e Recife, as prefeituras adotaram um modelo de exclusividade de cervejarias nos circuitos carnavalescos. A estratégia é questionada por restringir a concorrência, mas fez com que os municípios ampliassem o valor de patrocínio captado com a empresa parceira.

Na capital baiana, a festa terá um custo de R$ 60 milhões, dos quais R$ 40 milhões virão da iniciativa privada, sendo R$ 30 milhões de uma cervejaria.

Os recursos são utilizados para bancar parte da estrutura da festa e também os desfiles dos trios elétricos sem as cordas que separam os foliões, os chamados trios para o "folião pipoca". A prefeitura estima gastar cerca de 15% do orçamento do Carnaval com a contratação de artistas.

Os trios sem corda ganharam espaço frente ao esgotamento do modelo de blocos de trio -apenas os artistas mais consagrados conseguiram manter os seus desfiles cobrando pelos abadás.

O novo cenário se consolidou a tal ponto que, pela primeira vez, apenas trios abertos ao público desfilarão na quinta-feira (20) no circuito Barra-Ondina. Estão previstas atrações como Carlinhos Brown, Claudia Leitte, Margareth Menezes e Daniela Mercury.

"Baixar as cordas foi uma vontade do povo, um desejo do folião. Costumo dizer que o nosso Carnaval é muito mais democrático porque aqui você tem os maiores artistas desfilando de graça", afirma o prefeito ACM Neto (DEM).

Ele afirma que, mesmo com o poder público bancando parte do Carnaval com recursos próprios, o investimento dá retorno: a festa movimenta R$ 1,8 bilhão na economia da cidade e gera empregos durante todo o ano.

O modelo, contudo, revela contradições em relação a outras capitais do país nas quais os megablocos com artistas famosos são, em sua maioria, bancados com recursos privados, cabendo às prefeituras a parte dos serviços públicos. 

Em São Paulo e no Rio de Janeiro, por exemplo, o desfile do Bloco das Poderosas, comandado pela cantora Anitta, é custeado com recursos de patrocinadores. Em Salvador, contudo, o governo da Bahia pagou o cachê para a cantora desfilar no mesmo bloco nos últimos três anos. A parceria se manterá em 2020. 

No Rio de Janeiro e em São Paulo, onde na última década houve um avanço do Carnaval de rua, as prefeituras conseguiram viabilizar patrocínios específicos para garantir a estrutura de apoio nos principais pontos da festa.

A prefeitura de São Paulo levantou R$ 21,9 milhões com uma cervejaria em troca de publicidade nos principais circuitos. Os recursos são destinados a infraestrutura e serviços, cabendo aos blocos arcarem com seus próprios gastos.

Já o Rio de Janeiro terceirizou a organização do carnaval de rua para uma empresa de entretenimento, que vai desembolsar R$ 28 milhões para cuidar da operação da festa na rua. Para 2020, a cidade tem 543 blocos cadastrados.

O modelo, contudo, é criticado. Com patrocinadores oficiais do carnaval de rua, os blocos pequenos e médios passaram a enfrentar dificuldades para conquistar seus próprios patrocinadores. Para enfrentar o problema, os blocos pleiteiam um fundo de financiamento ou um edital de apoio via lei de incentivo.

Ao todo, o Carnaval deste ano no Rio vai custar cerca de R$ 70 milhões, sendo que R$ 42 milhões sairão dos cofres da prefeitura. O custo será R$ 30 milhões menor que em 2019, graças ao corte feito pelo prefeito Marcelo Crivella (PRB) nos repasses às escolas de samba que desfilarão na Marquês de Sapucaí.

Na Sapucaí, a prefeitura fará um investimento de R$ 16 milhões em serviços como postos médicos, trânsito, guarda municipal, limpeza, dentre outros.

A prefeitura ainda arca com os custos de Intendente Magalhães, grande centro do samba carioca, em Madureira, e bailes populares, como o que ocorre na Cinelândia, um dos mais tradicionais da cidade.

No Recife, a prefeitura estima gastar em torno de R$ 25 milhões com o Carnaval, dos quais R$ 7 milhões virão de uma cervejaria, que possui a exclusividade na venda de bebidas nos polos de folia. Estão previstas 2.700 apresentações. distribuídas em 46 polos de folia espalhados pela cidade.

A empresa patrocinadora não faz contratação direta de artistas. "O patrocinador deposita esse dinheiro e decidimos onde vai ser gasto", informa a secretária de Turismo do Recife, Ana Paula Vilaça, que também destaca o retorno econômico da festa -a estimativa é de uma ocupação hoteleira de 95%.

Dos R$ 25 milhões investidos no Carnaval, metade é destinada aos artistas, contratados a partir de um edital público. Deste total voltado para a contratação de artistas e bandas, 10% é destinado a convidados.

Neste ano, os maiores cachês pagos, que variam entre R$ 120 mil e R$ 180 mil, são para atrações como Jota Quest, Skank, Alceu Valença, Elba Ramalho, Nação Zumbi e Lenine.