Prefere passar as festas de fim de ano sem companhia? Especialistas entendem

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SÃO PAULO — O Natal é tradicionalmente uma data para ser comemorada com pessoas queridas, de preferência com a família. No ano passado, quando a pandemia de Covid-19 estava com força total, muitos optaram por restringir a comemoração a reuniões virtuais. Agora, com mais de 75% da população vacinada com ao menos uma dose, 66% totalmente imunizada e 21,6 milhões com o reforço, há mais segurança para reuniões presenciais. Mas a verdade é que algumas pessoas adoraram a experiência de 2020 e vão querer bis.

Para Hélio Roberto Deliberador, professor do departamento de psicologia social da PUC-SP, sempre houve quem preferisse passar o fim de ano sozinho, no entanto, muitas vezes, essas pessoas escondiam a vontade para não serem estigmatizadas. Com a pandemia, viram uma oportunidade de fazer exatamente aquilo que mais desejavam.

Há um estigma, isso é inegável. Ele é reforçado em filmes e histórias que geralmente retratam essas pessoas como rabugentas e depressivas. Em geral, as comédias e especiais de fim de ano mostram a família toda reunida e feliz em volta da ceia de véspera ou no almoço de Natal. Qualquer pessoa que não faça parte disso é solitária. Será?

Quem não se lembra do famoso Grinch, monstro verde que odeia o Natal e quer arruinar a comemoração a qualquer custo? Ou do avarento Ebenezer Scrooge, personagem principal da obra “Um conto de Natal", de Charles Dickens, que abomina a época natalícia? Em ambas as histórias os personagens se rendem e passam a amar a festa.

No conto de Dickens, após a visita dos três espíritos na véspera de Natal, Scrooge amanhece como outro homem. Passa a ser generoso. Na história de Dr. Seuss, a criatura verde que queria arruinar a data na vila dos Quem tem seu coração amolecido por uma garotinha e desiste do plano, entendendo o verdadeiro espírito da comemoração.

Caso a caso

Por mais banal que pareça, o Natal tem significado e importância diferentes para cada pessoa. Para muitos, não faz sentido ou não chega a mobilizar. Os motivos para passar a época festiva sozinho são variados.

— Algumas preferem fazer isso para evitar conflitos de ordem política ou patrimonial. Há também pessoas que ficam mais introspectivas nessa data, refletindo sobre como foi o ano e preferem se recolher. E há ainda aquelas que preferem ficar sozinhas pois esse é um dia como qualquer outro em sua vida — diz Deliberador.

Mesmo assim, a maioria acha difícil entender esse tipo de decisão. O psicólogo Leonardo Luiz, professor de psicologia da pós-graduação da Universidade Presbiteriana Mackenzie Alphaville, em São Paulo, relembra que querer estar sozinho não é solidão e que a introversão em um dia do ano não necessariamente implica em problema e isolamento social, mesmo que os outros vejam dessa maneira.

— Ficar perto daqueles que somos obrigados a amar não é uma tarefa simples. As pessoas podem se sentir incomodadas e invadidas nessas situações, ou ainda serem obrigadas a fazer parte de um rito com o qual não se identificam. Quando o sujeito não quer fazer parte disso, por esses e outros tanto motivos, não configura necessariamente depressão e melancolia, embora seja uma época melancólica — diz o especialista.

A verdade é que até para quem considera esta a época mais feliz do ano e gosta das grandes festas, o estresse e a ansiedade podem aparecer devido à pressão de comprar — e acertar — os presentes, preparar a ceia ou o almoço de Natal ou planejar uma viagem. É comum ainda, neste período, que é visto por muitos como o fim de um ciclo, o aparecimento de ondas avassaladoras de tristeza. Junte-se a isso a ansiedade social gerada por estar em uma aglomeração após tanto tempo de isolamento e distanciamento social e está formado o cenário perfeito para um esgotamento. Para evitar que isso aconteça e para que a época possa ser mais agradável, algumas dicas podem ajudar.

Seja cristalino

Para quem realmente não quer se reunir com a família ou amigos, Deliberador, professor da PUC-SP, recomenda ter firmeza e segurança nas suas escolhas e não ceder a pressões externas. Para quem ouviu o “não” de uma pessoa querida, é preciso ter em mente que isso é uma escolha de cada um sobre como conduzir a vida e não significa que aquela pessoa está brigando ou rompendo a relação.

Por outro lado, para aqueles que gostariam de passar sozinhos, mas por algum motivo não têm essa opção, há algumas formas de reduzir o estresse e a ansiedade. Se você planeja limitar seu tempo durante uma reunião de família, informe-os assim que começarem a fazer planos.

Para não gerar conflitos com os outros, o ideal é evitar sair escondido ou inventar desculpas. Para o psicanalista Leonardo Luiz, ter em mente que essa situação é algo momentâneo e encontrar uma distração podem ajudar a torná-la mais agradável ou ao menos fazer com que o tempo passe mais rápido. Quem sabe você não acaba se divertindo um tanto?

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