Premiê do Iraque anuncia renúncia após pressão de líder xiita e manifestações

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Após semanas de protestos contra o governo iraquiano, o primeiro-ministro Adel Abdul Mahdi anunciou nesta sexta-feira (29) que apresentará sua renúncia ao Parlamento do país.

A decisão ocorre depois de o principal líder xiita do Iraque, o aiatolá Ali al-Sistani, pedir aos legisladores que reconsiderassem o apoio a um governo abalado por manifestações violentas.

"Em resposta a este pedido e para facilitá-lo o quanto antes, vou apresentar ao Parlamento minha renúncia da liderança do atual governo", afirmou Mahdi em um comunicado.

A declaração não especifica quando ele apresentará a demissão —o Parlamento deve se reunir no domingo (1º).

Na praça Tahrir, em Bagdá, epicentro dos protestos que exigem uma reforma do sistema e a renovação da classe política, além de empregos e serviços públicos de qualidade em um país rico em petróleo, mas no qual faltam eletricidade e água potável, uma multidão explodiu em celebração.

O anúncio é uma reação aos distúrbios antigovernamentais que colocaram o país em direção a uma grave escalada de violência.

As forças iraquianas já mataram mais de 400 pessoas desde que protestos em massa contra o governo estouraram em 1º de outubro. Mais de uma dúzia de membros dos grupos policias também morreram em confrontos.

O incêndio do consulado iraniano na cidade sagrada de Najaf na quarta-feira (27) provocou uma resposta brutal das forças de segurança, que mataram mais de 60 pessoas em todo o país apenas na quinta-feira.

A agitação é a maior crise do Iraque há anos e coloca xiitas de Bagdá e do sul do país contra uma elite dominante xiita corrupta, vista como peões controlados pelo Irã.

Além de poderosos políticos xiitas, a atual classe política do Iraque é formada principalmente por clérigos e líderes paramilitares, incluindo muitos que viveram no exílio antes da invasão liderada pelos EUA para derrubar o ditador sunita Saddam Hussein, em 2003.

O aiatolá al-Sistani, que exerce enorme influência sobre a opinião pública, alertou na sexta-feira contra uma explosão dos conflitos civis. Ele instou as forças do governo a pararem de matar ativistas e pediu aos manifestantes que rejeitem toda a violência.

Na quinta-feira (28), as forças de segurança mataram 46 pessoas em outra cidade do sul, Nassiriya, 18 em Najaf e quatro em Bagdá, elevando o número de mortos a ao menos 417, a maioria das quais de manifestantes desarmados, segundo um relatório da Reuters a partir de fontes médicas e policiais.

"Os inimigos do Iraque estão tentando semear o caos e [estimular] as lutas internas para que o país retorne à era da ditadura... Todos devem trabalhar juntos para impedir essa possibilidade", disse al-Sistani, sem dar mais detalhes.