Premiê do Iraque anuncia saída após 400 mortes em protestos

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Depois de semanas de protestos contra o governo iraquiano, o primeiro-ministro Adel Abdul Mahdi anunciou nesta sexta-feira (29) que apresentará sua renúncia ao Parlamento do país.

A decisão ocorre após o principal líder xiita do Iraque, o aiatolá Ali al-Sistani, pedir aos legisladores que reconsiderassem o apoio a um governo abalado por manifestações violentas.

"Em resposta a esse pedido e para facilitá-lo o quanto antes, vou apresentar ao Parlamento minha renúncia", afirmou Mahdi em um comunicado.

A declaração não especifica quando ele apresentará a demissão -o Parlamento deve se reunir no domingo (1º).

O anúncio é uma reação aos distúrbios antigovernamentais que colocaram o Iraque em uma escalada de violência.

No sul do país, os episódios de choque se repetiram, deixando 21 mortos apenas nesta sexta. Na praça Tahrir, em Bagdá, manifestantes comemoraram o anúncio de Mahdi -e uma pessoa morreu.

Na quinta (28), forças de segurança mataram 46 pessoas em Nassiriya, 18 em Najaf e 4 em Bagdá. Desde 1º de outubro, o total de mortos chega ao menos a 417, a maioria de manifestantes jovens, desempregados e desarmados.

Pelo menos uma dúzia de agentes da polícia também morreram nos confrontos.

A praça Tahrir é o epicentro dos protestos que exigem uma reforma do sistema e a renovação da classe política, além de empregos e serviços públicos de qualidade em um país rico em petróleo, mas no qual falta eletricidade e água potável.

O incêndio do consulado iraniano na cidade sagrada de Najaf na quarta-feira (27) foi outro episódio que provocou uma resposta brutal das forças de segurança.

A agitação é a maior crise do Iraque há anos e coloca xiitas de Bagdá e do sul do país contra uma elite dominante xiita, vista como peões controlados pelo Irã.

Além dos xiitas, a atual classe política do Iraque é formada principalmente por clérigos e líderes paramilitares, incluindo os que viveram no exílio antes da invasão liderada pelos EUA para derrubar Saddam Hussein, em 2003.

O aiatolá al-Sistani alertou contra uma explosão dos conflitos civis. Ele instou as forças do governo a parar de matar ativistas e pediu aos manifestantes que, de sua parte, também rejeitassem a violência.

"Os inimigos do Iraque estão tentando semear o caos e [estimular] as lutas internas para que o país volte à era da ditadura... Todos devem trabalhar juntos para impedir essa possibilidade", disse al-Sistani.

Nas regiões de maioria sunita, arrasadas pela luta contra o Estado Islâmico, os iraquianos têm evitado participar de protestos com medo de que militantes do grupo terrorista explorem os atos para alimentar uma insurgência contra o governo de Bagdá.