Premiê do Sudão está 'à mercê' dos militares

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O general Abdel Fattah al-Burhan e o primeiro-ministro Abdallah Hamdok mostram os documentos assinados no domingo, 21 de novembro de 2021 (AFP/-)

O primeiro-ministro sudanês Abdullah Hamdok, que voltou ao cargo no domingo (21) após um acordo alcançado com o general Abdel Fattah al Burhan, comandante do exército e autor do golpe que o depôs, está "à mercê" dos militares, de acordo com analistas.

No palácio presidencial, em frente ao qual as forças de segurança lançaram granadas de gás lacrimogêneo para dispersar os manifestantes que gritavam "não ao poder militar", Hamdok e o general Burhan, autor do levante militar de 25 de outubro, assinaram um acordo para dividir o poder e prometeram retomar o processo de transição.

"O próximo gabinete estará sob constante ameaça de um novo golpe. Estão à mercê dos militares", comentou à AFP Magdi al-Gizouli, especialista em Sudão do Rift Valley Institute.

O Sudão, um país com uma longa tradição de golpes militares, passava por uma transição civil depois dos protestos que derrubaram Omar al-Bashir.

No domingo, o general golpista e Hamdok prometeram realizar eleições em 2023, um anúncio que foi saudado pela comunidade internacional e pelas Nações Unidas.

Enquanto isso, nas ruas, a mobilização continuou.

Um adolescente de 16 anos morreu baleado em Omdurman, subúrbio separado de Cartum por uma ponte sobre o rio Nilo, segundo médicos que mencionaram "muitos feridos a bala".

Desde o golpe militar, os protestos deixaram 41 mortos e centenas de feridos, segundo os médicos.

E apesar desta repressão, milhares de manifestantes protestaram em Cartum e seus subúrbios, em Kasala e Porto Sudão (leste), e em Atbara (norte).

Para alguns manifestantes, o acordo representa uma traição de Hamdok, um ex-economista da ONU que era visto como a salvaguarda da revolução popular.

As organizações que impulsionaram a revolta que pôs fim a 30 anos de ditadura de Bashir, em 2019, anunciaram que rejeitavam "o acordo de traidores que só compromete seus signatários", segundo a Associação de Profissionais Sudaneses, ponta de lança dos protestos de dois anos atrás. Para elas, o pacto é o "suicídio político" de Hamdok.

As autoridades sudanesas libertaram vários políticos detidos após o golpe de Estado militar de 25 de outubro, como parte do acordo assinado no domingo entre os generais e Hamdok.

"Me libertaram à tarde (de domingo), depois de ficar detido e isolado desde 25 de outubro", declarou Omar al Daguir, líder do Partido do Congresso.

Al Daguir disse que outras personalidades políticas importantes também foram liberadas, incluindo dirigentes do partido Al Oumma, o mais importante do país.

Para Kholood Khair, do grupo de estudos Insight Strategy Partners, de Cartum, o acordo de domingo representa "uma lavagem completa do golpe".

No Twitter, Khair considerou que Hamdok "perderá rapidamente sua credibilidade e se verá mais isolado" agora que seu maior apoiador, a CTF, foi removido do processo político.

O Sudão caminha para uma maior "instabilidade" porque "a principal reivindicação dos manifestantes não era a reintegração de Hamdok, mas a saída dos militares da política", explica a especialista.

Semanas atrás, o general Burhan parecia determinado a manter o poder, apesar da rejeição da comunidade internacional e dos manifestantes.

Nesse sentido, ele nomeou um novo conselho de governo no qual manteve sua posição de hierarca, junto com um poderoso comandante paramilitar, três altos oficiais militares, três ex-líderes rebeldes e um civil.

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