Premiado em Cannes, jovem diretor cobra preservação da Serra da Cantareira

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*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 11.05.2016: TURISMO-SP - Núcleo do Engordador no Parque da Serra da Cantareira na zona norte de São Paulo. (Foto: Raquel Cunha/Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 11.05.2016: TURISMO-SP - Núcleo do Engordador no Parque da Serra da Cantareira na zona norte de São Paulo. (Foto: Raquel Cunha/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Nos 12 anos que morou na Serra da Cantareira, em Mairiporã, na Grande São Paulo, Rodrigo Ribeyro, 25, observou bem os detalhes.

Viu o que tinha de mágico naquela natureza em meio ao caos da cidade, analisou os pontos negativos para o ecossistema e para as pessoas com os impactos econômicos, ambientais e sociais.

Um exemplo é a estrada da Roseira, uma importante via da região, onde parte da natureza deu lugar ao aumento dos comércios. "Tem até um shopping lá, enorme, cheio de pedras, em um lugar que antes era mato", conta Ribeyro.

"Tem esses processos de novas formas de estar nesse lugar que trazem muitas questões, você vê o impacto."

Essas contradições entre a natureza e o crescimento econômico estão entre os ingredientes que Rodrigo usou para criar o curta-metragem ficcional "Cantareira", selecionado para o famoso Festival de Cinema de Cannes, na França.

O curta foi exibido na Mostra Cinéfondation, categoria focada em novos diretores ainda estudantes, e faturou o terceiro lugar, dividindo o prêmio com o curta romeno "Love Stories on the Move" de Carina-Gabriela Dasoveanu.

O filme foi produzido como trabalho de conclusão de curso da Academia Internacional de Cinema de São Paulo e a estreia em Cannes foi em 15 de julho. Rodrigo assina roteiro, direção, montagem e desenho de som do curta.

Baseado na vivência do diretor, o curta mostra a história de Bento (Emiliano) e Sylvio (Almir Guilhermino), neto e avô respectivamente. Ambos possuem raízes profundas na Serra da Cantareira, mas em momentos diferentes de vida. O avô se preocupa com o estado atual da Serra e o neto vive em São Paulo, solitário, envolto pela cacofonia da cidade grande.

Rodrigo se mudou para a região aos 4 anos de idade e ficou até os 16, quando foi morar sozinho no centro de São Paulo. Foi esse distanciamento que fez o diretor olhar para a Cantareira com outros olhos todas as vezes que voltava ali para visitar os pais, que até hoje moram na Serra.

"Quando voltei, percebi essas mudanças econômicas e processos que a Serra passa, já que o crescimento econômico gera impacto social ambiental", explica.

O filme ganhou o mundo justamente no momento em que o Sistema Cantareira, maior fonte de abastecimento da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) destinados à captação e ao tratamento de água para a Grande São Paulo, volta a ter níveis baixos de água: 43,2% da capacidade.

A queda aponta para o risco de uma nova crise de abastecimento, como a vivida em 2014.

Uma das locações do curta é a Pedreira do DIB, parte da Serra da Cantareira localizada no município de Mairiporã e um local que está sendo aterrado.

Um abaixo-assinado online criado por moradores pede a preservação do espaço, que se tornou local para a prática de esportes radicais.

"Essa água está sendo despejada, não está sendo aproveitada. Além do aterramento que em si só já é um problema, tem a questão da água que por um lado temos uma crise hídrica e do outro tem desperdício. É um processo ambiental problemático", alerta Rodrigo.

Essa avaliação vem em contraponto a uma região que também vem crescendo. Localizada na região norte da Grande São Paulo, a cidade de Mairiporã tem cerca de 100 mil moradores -nos últimos dez anos a população dali cresceu 26%- bem acima da média nacional de 8%.

Para Rodrigo, quem mora na parte que faz parte da Serra da Cantareira precisa ter consciência de que lá é um lugar de preservação. "Você tem que ter noção do lugar que você está ocupando e que a prioridade lá não é uma necessidade humana, consumista e imediatista, mas esse lado de viver em harmonia com a natureza."

Outra particularidade local que aparece no curta são as caronas. Rodrigo explica que grande parte das pessoas que moram na Serra da Cantareira não possui carros e o transporte público é escasso. Por isso existe uma cultura de caronas para quem circula entre a zona norte de São Paulo e a Serra da Cantareira.

Em uma dessas caronas, Rodrigo ouviu reclamações da ausência de postos de gasolina. "Você está em um local que é um refúgio e quer tudo o que tem na cidade. É contraditório", desabafa.

A falta de oferta de emprego na região também tem destaque no curta. "A Serra da Cantareira podia ter mais atenção do poder público. O curta já chamou a atenção da Prefeitura de Mairiporã, por exemplo, que se posicionou contra o aterramento do DIB. Mas espero que o curta sirva para que se pense melhor sobre o município."

Após a premiação, ele quer ir além. Cita a necessidade de novos aparelhos culturais em Mairiporã e espera que o filme contribua para a formação cultural e artística para a população local.

"Quero fazer oficinas por lá, fazer esse fazer cinematográfico para que as pessoas consigam fazer cinema. Precisamos de mais escolas, hospitais, praças para a galera se juntar e confraternizar."

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