Premiado pela APCA, romance de Javier Arancibia Contreras fala de suicídio sem eufemismos

Ruan de Sousa Gabriel

Quando começou a esboçar seu quarto romance, Javier Arancibia Contreras, escritor chileno-baiano radicado em Santos, pensava em um livro político, preocupado com o flerte da sociedade brasileira com o obscurantismo. Nada podia ser mais urgente do que a política, mas um tema martelava em usa cabeça. Até que surgiu uma frase: “Hoje, meu filho Pedro pulou da janela do seu apartamento”. É assim que começa “Crocodilo”, romance publicado em outubro passado e vencedor do prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), a ser entregue na próxima segunda-feira (17).

– O tema do suicídio atingiu minha mente como um torpedo – diz Contreras ao GLOBO, por telefone – Não sei explicar por quê. Já ouvi muitas histórias de suicídio e tive colegas de redação, do meu tempo de repórter, que se mataram, mas nunca ninguém realmente próximo. Não tinha nenhuma familiaridade com o assunto. O processo de escrita foi bem estranho. Nunca tinha escrito um livro tão rápido, em menos de três meses. Esse me pegou na veia.

“Crocodilo” é narrado pelo pai de Pedro, Ruy um jornalista bem-sucedido de 73 anos, pragmático e obcecado com os fatos. Como um repórter enlutado, Ruy começa a entrevistar pessoas próximas a seu filho – a namorada, um amigo, o psicólogo – em busca de pistas que indiquem por que um rapaz de 28 anos, documentarista premiado em Cannes e Berlim,preferiu se atirar da janela. “Tem que haver algum motivo, entende?”, argumenta ele.

Ruy vai juntando o pouco que descobre nas entrevistas e revirando os pertences de Pedro com lembranças do passado, de quando o menino gostava de entrevistar os pais para seus primeiros filmes ou, no zoológico, quando não tirava os olhos de um gigantesco e silencioso crocodilo. Ruy nota que todos evitam a palavra “suicídio”. Preferem falar em “tragédia”. Até seus colegas da imprensa fogem da “palavra dura e incômoda”: “Nenhum veículo quis contar a verdade”.

– A imprensa não divulga suicídio. Quando faz, é cheia de dedos: “Fulano foi encontrado morto”. Suicídio é ainda é tabu, mas precisamos encarar esse pesadelo, discutir – afirma Contreras. – Precisamos discutir para prevenir, porque o suicídio tem crescido assustadoramente entre os adolescentes. Temos que falar disso nas escolas, com a ajuda de livros e profissionais de saúde mental.

“Crocodilo” traz dados sobre o suicídio e suicidas famosos: a cada ano, em média, 777.600 pessoas se matam em todo o mundo. No entanto, o número pode ser bem maior, porque os registros não são confiáveis.

Da Bahia a Bagdá

Contreras nasceu em Salvador, em 1976. Filho de chilenos exilados da ditadura de Augusto Pinochet, ele cresceu entre Bahia, Paraná e Iraque. Sim, Iraque. Dos 9 aos 12 anos, ele viveu numa vila de brasileiros no Iraque, para onde seu pai, funcionário de uma empreiteira, fora transferido. Lá, sem cinema e sem TV, Contreras descobriu os livros, romances policiais, de aventura e a “Série Vaga-Lumes”. De volta ao Brasil, ele viveu no Rio e em São Paulo.

Os deslocamentos geográficos e as dúvidas existenciais atormentam personagens de Contreras – ele é leitor do existencialista francês Albert Camus, de quem costuma emprestar epígrafes. “Imóbile”, sua estreia na ficção, de 2008, se passa numa fictícia e calorenta cidade latino-americana, onde a dúvida e a culpa torturam um homem. “O dia em que eu deveria ter morrido”, de 2011, é narrado pelo herdeiro de um jornal paulista que sobrevive a um atentado terrorista na Turquia. “Soy loco por ti, América”, de 2017, retrata a instabilidade política latino-americana por meio do vai-e-vem de personagens como um playboy tecnológico, um obituarista, um grafiteiro e um jornalista oportunista por Chile, Argentina, Brasil e México.

– Acho que em “Crocodilo” eu finalmente assumi raízes, já a história se passa numa única cidade nunca nomeada – brinca.

Os personagens podem ter parado de perambular, mas a profissão deles não mudou. Os romances de Contreras são povoados por jornalistas. Ele próprio foi repórter policial e atribui ao ofício o gosto pelo texto claro e fluido. Contreras abandonou a redação para terminar seu primeiro livro e passar mais tempo com as filhas pequenas. Hoje, além de escrever, ele também vende livros. Ao lado da mulher, toca a Livraria Saber, em Santos.

Político e nebuloso

Contreras avisa que já retomou o romance político interrompido pelo torpedo de “Crocodilo”, ma s não dá detalhes por não saber ainda o que o livro vai ser:

– Ainda está tudo meio nebuloso, mas com certeza será um livro interessado em debater os problemas políticos e sociais do Brasil contemporâneo.

A política, aliás, não foi de todo excluída de “Crocodilo”. Ruy se preocupa com a cambaleante democracia brasileira e Pedro era um documentarista engajado. Um de seus filmes, “Obsoletos”, retrata a difícil reinserção profissional de quem perdeu o emprego para a tecnologia. O outro, “Todos os homens do mundo”, narra as histórias de vida de moradores de rua.

– Sou daqueles que acha que toda arte, independente do tema, é política.

Serviço

"Crocodilo" Autor: Javier Arancibia Contreras Editora: Companhia das Letras Páginas: 184 Preço: R$ 64,90