Premier League quer redução de 30% nos salários dos jogadores

Por Frédéric HAPPE
O estádio de Anfield em Liverpool, no noroeste da Inglaterra

Na Alemanha, Espanha ou Itália, os sacrifícios salariais dos futebolistas se multiplicam como resposta à crise provocada pelo coronavírus, mas na Inglaterra houve uma pressão do governo para que a Premier League anunciasse nesta sexta-feira que espera obter uma redução de 30% do salário dos jogadores.

"Os clubes da Premier League decidiram, por unanimidade, consultar os jogadores sobre um conjunto de medidas que combinam uma redução e um adiamento condicional dos salários em um total que representa 30% do valor anual", declarou a entidade que organiza o campeonato da Inglaterra.

Uma reação que ocorreu quase 24 horas depois do governo britânico de maioria conservadora ditar o tom.

"Moralmente inaceitável", disse o deputado conservador Julian Knight, presidente da comissão parlamentar encarregada dos esportes da Câmara dos Comuns, sem medir palavras para expressar um sentimento crescente na Inglaterra.

À noite, o ministro da Saúde, Matt Hancock, lembrou aos jogadores que "a primeira coisa que eles poderiam fazer para contribuir com o esforço nacional era aceitar uma queda em seus salários".

Na manhã desta sexta-feira, um porta-voz do primeiro-ministro Boris Johnson confirmou que as declarações de Hancock, pedindo aos jogadores para participarem do esforço nacional, eram "o ponto de vista do governo".

- Howe e Potter: exemplos -

Desde o início da pandemia da COVID-19, os clubes ingleses multiplicaram as operações de apoio, através de doações a bancos de alimentos e com a participação de seus jogadores e treinadores em eventos de caridade.

Mas eles fizeram isso de maneira dispersa, até um pouco anedótica, considerando a dimensão da Premier League, a liga mais rica do mundo, com seu faturamento anual de 4,8 bilhões de libras (5,5 bilhões de euros).

Na Bundesliga, 16 dos 18 clubes já concordaram com os cortes. Na Espanha, os jogadores do Barça e do Atlético de Madrid perderam 70% de sua renda enquanto durar o estado de alerta; na Itália, os jogadores da Juventus e sua comissão técnica concordaram em reduzir seus ganhos anuais em 30%.

Apesar do fato de que reduzir o salário dos jogadores ser muito complicado na Inglaterra devido ao poder que eles têm, há vozes discordantes, como a do meia alemão do Manchester City, Ilkay Gündogan. "Claro, é evidente", disse o jogador à televisão alemã.

Mas, no momento, apenas dois treinadores, Eddie Howe (Bournemouth) e Graham Potter (Brighton) passaram de palavras para ações.

A escolha do Tottenham na terça-feira de colocar 550 trabalhadores sob a proteção do programa de desemprego parcial do governo - 80% de seus salários, até 2.500 libras mensais, serão pagos pelo contribuinte - causou espanto, mesmo com o presidente do Spurs, Daniel Levy, tendo seus salário reduzido em 20%.

- 'Alvo fácil' -

Um anúncio feito no dia em que o clube de Londres registrou um lucro bruto de 87,4 milhões de libras (quase 100 milhões de euros) em 2018/2019, mais do que o Liverpool e as duas equipes de Manchester juntas.

"Os clubes, enquanto empresas, que têm meios para pagar seus jogadores e funcionários, devem fazê-lo. Qualquer uso de auxílio estatal sem necessidade econômica real será feito em detrimento da sociedade como um todo", argumentou na quinta-feira a Professional Footballers Association (PFA).

O sindicato dos jogadores, que não apenas defende os interesses dos 6 clubes mais ricos, está buscando um acordo global, mas acredita que focar nos salários dos jogadores "serviria apenas aos interesses dos acionistas".

Mas acima dos salários astronômicos - o salário médio anual na Premier é de 3,4 milhões de euros - se escondem realidades opostas, e recorrer a jogadores muito bem pagos é um clichê populista, segundo alguns observadores.

"Acho que o futebol é um para-raios para os políticos", diz Kieran Maguire, professor de contabilidade especializado em esportes na Universidade de Liverpool, entrevistado pela AFP.

"As mesmas críticas (vindas dos políticos) nunca é dirigida a banqueiros de fundos especulativos. O futebol é um alvo fácil quando se trata de apontar culpados", acrescenta.