Preocupação com os rumos da folia e com quem vive dela marca debate promovido pelo O Globo e Extra

Geraldo Ribeiro
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RIO - A preocupação com os rumos da folia e com os profissionais que vivem dela, além da interdição da Cidade do Samba, marcou o debate promovido pelo EXTRA e O Globo, nesta quarta-feira, em suas redes. Em pouco mais de uma hora, a pesquisadora Rachel Valença e os carnavalescos Tarcísio Zanon (Viradouro) e Gabriel Haddad (Grande Rio) discutiram os impactos da pandemia no carnaval de 2021 e as perspectivas para o próximo desfile, num bate-papo virtual mediado pelo jornalista Leonardo Bruno.

— A gente está vivendo um momento extremamente difícil para as escolas de samba, porque não ter carnaval significa não ter a quadra cheia, não ter escolha de samba enredo presencial rendendo algum lucro, não ter subvenção de nenhum tipo. Então, a escola que de muitos anos para cá vive ou de recursos de subvenções ou de sua própria renda, nesse momento não tem uma coisa nem outra — apontou Rachel Valença.

Tarcísio Zanon disse que embora acredite que o próximo desfile seja uma boa oportunidade econômica para a cidade, assim como foi o de 1919, após a pandemia da Gripe Espanhola, que será tema da Viradouro, vê com apreensão a situação dos profissionais da folia, que estão sem trabalho; dos fornecedores de matéria-prima para o carnaval, impedidos de importar material usado pelas escolas, e, principalmente a interdição da Cidade do Samba.

—Se até abril a Cidade do Samba não abrir a gente vai ter um problema de cronograma e com isso vai ser muito difícil construir um carnaval. A gente não precisa mais viver o carnaval do jeitinho. Nós somos o maior espetáculo da terra e isso pode crescer ainda mais, mesmo com a pandemia.

Gabriel Haddad destacou que cada barracão emprega de 300 a 400 pessoas, que dá uma média de 3 mil famílias que vivem do samba e estão sem renda. Ele defendeu um maior investimento do poder público associado a uma política de busca de patrocínio para manter a engrenagem girando.

— As pessoas têm que entender que o carnaval não é só uma festa.É um trabalho muito importante para a cidade do Rio de Janeiro, além da questão cultural.

O ritmo lento da vacinação também é outro entrave que preocupa, quando se fala no próximo desfile. Para Gabriel Haddad esse é um dos problemas que dificultam uma expetativa positiva para 2022.

— A gente tem perspectiva do carnaval ser em 22, mas com qual concretude, se a gente não está avançado como imaginava na questão da vacinação e o país, como Tarcísio (Zanon) falou, não está importando material de carnaval, as lojas estão vazias, tem também a interdição da Cidade do Samba — disse Haddad, que defende ainda o uso da Cidade do Samba para atividades que possam gerar receita para as escolas.

Tarcísio Zanon lembrou que além de problemas gerados pela pandemia e a interdição da Cidade do Samba, a Viradouro enfrentou ainda um incêndio em seu barracão, logo depois do último carnaval. Mas, apesar de todas essas dificuldades, o enredo do próximo desfile “Não há tristeza que possa suportar tanta alegria” traz uma mensagem de esperança.

O carnavalesco e comentarista Milton Cunha, que também foi convidado, mas por problemas pessoais só pode participar do final da transmissão, destacou a superação, como principal característica do carnaval carioca.

— Quando tudo isso passar, as escolas de samba vão voltar a brilhar e dar o exemplo de talento popular. Viva o artista popular, a bordadeira, o compositor, o cantor, o passista. Viva a negritude que estabeleu essa brilhante forma de narrativa artística!