Preparadora de atores Ivana Chubbuck vem ao Brasil e conta como é trabalhar com Stallone, Halle Berry e Beyoncé

Há 20 anos, Halle Berry subiu ao palco do Kodak Theater, em Los Angeles, para agradecer pelo Oscar de melhor atriz — o primeiro dado a uma mulher negra — e dedicou algumas palavras a Ivana Chubbuck. “Não teria descoberto quem era essa personagem sem você”, disse Halle para a mulher que a ajudou a achar o tom da interpretação de Leticia, protagonista de “A última ceia”.

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Há quatro décadas, a preparadora de atores americana, de 69 anos, tem ouvido continuamente esse tipo de agradecimento. Vem de gente como Charlize Theron (aluna na época de “Monster”, que lhe rendeu um Oscar em 2004), Beyoncé (em 2006, para “Dreamgirls”) e Sylvester Stallone (por “Creed”, de 2015). E de artistas menos famosos ou até aspirantes, que frequentam suas aulas pelo mundo, como as que acontecerão amanhã e sexta-feira, no Teatro Cesgranrio, no Rio Comprido, no Rio, organizadas pela atriz e produtora Mel Rócha, I Want Produções e Gamma Filmes, em parceria com a mentora oficial da Ivana Chubbuck no Brasil, Marina Rigueira.

Ivana diz que a chamada Técnica Chubbuck consiste em trabalhar traumas, medos e paixões do ator, quase num processo de cura, para ajudar o personagem a atravessar dificuldades. Dá o exemplo de Stallone, que a procurou para “Creed”, filme que marcou a volta de Rocky, o lutador.

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Três anos antes das filmagens, Sly havia perdido seu filho mais velho. Ivana resolveu mexer nesse vespeiro — mas não para que o sofrimento do ator tornasse seu ex-boxeador mais castigado. Ao encararem o trauma, Stallone saiu fortalecido e mais preparado para enfrentar a doença do seu personagem (no filme, Rocky tem câncer).

— Conseguimos uma ótima performance. E, mais importante, o ajudamos a superar algo realmente traumático — diz Ivana, que já deu aulas para brasileiros como Reynaldo Gianecchini e Agatha Moreira.

Stallone confirmou que o processo o ajudou: “Eu consigo falar sobre o assunto agora” , disse ele ao New York Times em 2016.

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A americana frisa, no entanto, que nem tudo é um vale de lágrimas:

— As pessoas se divertem. Não pensem que ficarão sentadas sofrendo. Mas sim que terão capacidade de mudar e superar o que quiserem.

Soa como autoajuda, e ela não nega. Seu livro, “O poder do ator” (Civilização Brasileira), que reúne os 12 passos da “Técnica Chubbuck”, tem sido usado para este fim:

— Muita gente que não é ator fala que meu livro ajuda na vida pessoal.

Sem remorsos

Americana nascida em Detroit e dona de um estúdio em Los Angeles, Ivana começou a trabalhar com preparação quando se deu conta de que preferia dar aulas a atuar.

— No set, como atriz, sempre olhava para o relógio e pensava: “Isso está demorando demais.” Ao voltar para casa e trabalhar com um amigo, num espaço compartilhado, o tempo corria mais rápido — lembra. — Pude explorar os diferentes tipos de pessoas, não apenas aquelas que eu ia interpretar, mas várias outras. Achei mais agradável e desisti de atuar. Falei para os meus agentes: “Vou me comprometer a dar aulas.” Nunca me arrependi.

Foi montando, aos poucos, a Técnica Chubbuck, que efetivamente virou livro em 2006 e expandiu o nome da preparadora para além de Hollywood. A obra, aliás, foi o primeiro passo do trabalho com Beyoncé no filme “Dreamgirls”. Depois, estiveram juntas em “Cadillac records”, em que Bey interpretou a cantora Etta James. A coach destaca o comprometimento da pop-star. Já consagrada na época, ela leu as 400 páginas de “Técnica Chubbuck” em 36 horas, mesmo sem Ivana pedir:

— Beyoncé não pensa que é talentosa ou bonita. Ela trabalha muito.

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Um dos aspectos que a preparadora destaca como valor comum dos grandes nomes com quem trabalhou são os pés no chão:

— Halle Berry me telefonou, não tem alguém que faça a ligação por ela. Stallone também me ligou pessoalmente. Os atores menos conhecidos sempre pedem para um assessor me contatar. Os grandes artistas, os de verdade, ligam eles mesmos.

Não é a glória

Ao rodar o mundo, é comum encontrar muita gente que confunde o desejo de atuar com o de ficar famoso. E ela já percebeu o que acontece:

— Todas as pessoas que miraram a fama e pelo dinheiro nunca conseguiram. É preciso escolher: você quer ser excelente ou o objetivo é ser famoso? O dinheiro e a glória são bônus.

Ela cita Travis Fimmel (estrela da série “Vikings”), australiano que usava o dinheiro que ganhava para pagar as aulas e passou muitas noites dormindo em sofá de estúdio:

—O problema é que as redes sociais fazem todo mundo querer ser famoso. Para isso, é melhor ficar por lá mesmo.

Transformar influenciadores em atores, ela diz, costuma ser a missão mais difícil que aparece em sua porta. A egolatria da narrativa cotidiana das redes sociais costuma entrar em conflito com o desapego do trabalho do ator. Mas a transição “apesar de mais difícil”, não é impossível, diz Ivana:

— Quem realmente quer ter sucesso, não importa qual emprego teve antes, precisa ter uma forte ética de trabalho e estar aberto para fazer escolhas arriscadas.

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