Presa, Flordelis não acompanhará julgamento dos filhos, mas advogados da pastora estarão presentes no tribunal

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RIO — Acusada de ser mandante do assassinato do marido, o pastor Anderson do Carmo, a pastora Flordelis dos Santos de Souza ainda aguarda julgamento na penitenciária Talavera Bruce, no Complexo de Gericinó, na Zona Oeste do Rio. A ex-deputada federal foi indiciada pelo crime em agosto do ano passado, na segunda fase das investigações feitas pela Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNSGI), o que deu origem a um segundo processo. Ela ainda recorre da decisão que determinou sua ida a júri popular pelo assassinato. Por isso, ela não irá a julgamento junto dos filhos Flávio dos Santos e Lucas Cezar dos Santos, que começa terça-feira. Os dois foram indiciados por envolvimento no assassinato no primeiro inquérito do caso.

Flordelis não estará presente no julgamento dos filhos. Seus advogados, porém, poderão acompanhar a sessão, marcada para começar as 13h.

— A princípio, o impacto no julgamento da Flordelis é muito pequeno. Sao processos distintos. Aliás, caso a acusação tente produzir provas para o processo da Flordelis, ficará provado a absoluta má-fé e violação de preceitos constitucionais — afirma o advogado Rodrigo Faucz.

Apesar da análise do advogado de que o julgamento dos filhos pouco impactam no de Flordelis, há grande expectativa sobre o depoimento de Flávio no tribunal. Ele voltou atrás em sua confissão, passando a negar o crime, quando assumiu a sua defesa o advogado Anderson Rollemberg, contratado por Flordelis. Desde o mês passado, Rollemberg não atua mais na defesa de Flávio, que passou a ser assistido pela Defensoria Pública. Flordelis é acusada de ser mandante da morte de Anderson, mas o filho nunca vinculou a mãe ou outro irmão, além de Lucas, ao crime. Flávio prestará um novo depoimento ao término das oitivas.

Os advogados de Flordelis também defendem uma filha da pastora, Marzy, e a neta Rayane, ambas acusadas de envolvimento na morte de Anderson. Os seis defensores das rés pediram à juíza Nearis dos Santos Carvalho Arce para acompanharem o julgamento, mas a magistrada permitiu só um por acusada. Assim, três advogados comparecerão.
Marzy e Rayane são rés no segundo processo, junto com Flordelis. Além delas, outros três filhos da pastora - André, Carlos e Simone - foram acusados de envolvimento na morte de Anderson após a segunda fase das investigações. Outro filho, Adriano, também é réu, mas por participar da elaboração de um plano para atrapalhar as investigações do caso.

Flordelis foi presa na noite do dia 13 de agosto, dois dias após ter perdido seu cargo de deputada federal. Ela teve o mandato cassado após os deputados terem entendido que a pastora cometeu quebra de decoro parlamentar. A prisão preventiva — sem prazo para terminar — foi decretada pela juíza Nearis dos Santos Carvalho Arce.

As primeiras horas após o crime indicavam que o pastor teria sido seguido até em casa, história também contada por Flordelis a PMs naquele dia. Mas, logo após, uma desavença em família passou a ser a principal linha de investigação utilizada pela Polícia Civil.

— Mais uma violência, mais uma tentativa de assalto frustrada. Eu só fui dar um passeio que acabou dessa forma, com ele perdendo a vida para tentar proteger a casa, a família. Tentou evitar, mas, infelizmente, abriu o portão da garagem. Ele tentou evitar que eles entrassem. Ele sacrificou a vida dele para proteger a família — lamentou a viúva, casada durante 26 anos com a vítima, horas após o assassinato.

Horas antes do sepultamento de Anderson, a então deputada negou o envolvimento de um dos filhos no assassinato, o que já era uma suspeita da polícia, e reiterou que o pastor foi morto ao defender a família durante uma tentativa de assalto. Ela também descartou a possibilidade de existir uma arma em casa, que depois foi encontrada pela polícia.
Nas redes sociais, Flordelis chegou a afirmar que não acreditava na participação de Flávio e Lucas no crime, mesmo após os dois terem confessado participação no crime num primeiro momento: "Tem gente que estranha eu não acreditar que dois filhos meus são os autores, porque eles confessaram. Eu não quero acreditar e o meu coração de mãe me dá direito à esperança. Confissões não são suficientes para condenar", afirmou Flordelis na publicação postada no perfil da pastora.

Durante entrevista coletiva, Flordelis descartou traição como motivação do assassinato do marido e disse que não sabia onde estava o celular de Anderson. No entanto, em depoimento de um dos filhos adotivos, foi dito que Flordelis quebrou o celular de pastor e jogou da Ponte Rio-Niterói. "Para os que acham que eu matei meu marido, peço que me deem um motivo para fazer isso. Eu não ganhei nada com a morte dele. Só perdi".

Em 24 de agosto de 2020, as investigações concluíram que Flordelis foi a mandante do assassinato por conta de questões financeiras. Ela não pôde ser presa na operação por ter imunidade e chorou na chegada da polícia à sua casa. "André, pelo amor de Deus, vamos pôr um fim nisso. Me ajuda. Cara, estou te pedindo, te implorando. Até quando vamos ter que suportar esse traste no nosso meio? Falta pouco", disse Flordelis, num diálogo dela com o filho André Luiz de Oliveira, oito meses antes do assassinato de Anderson do Carmo, interceptado pelos investigadores com autorização da Justiça e revelado pela TV Globo. Policiais e promotores acreditam que a cantora gospel referia-se ao marido.

Após essa conclusão, Flordelis foi suspensa do partido, afastada da bancada evangélica, passou a utilizar uma tornozeleira eletrônica e se defendeu dizendo que estava sendo condenada sem direito a julgamento. Em dezembro, admitiu, durante audiência, que sabia da existência de um plano dentro de sua casa para matar seu marido. Durante uma das sessões que sobre a cassação do seu mandato, Flordelis alegou inocência e disse que sairia de "cabeça erguida" após o resultado.

— Caso saia daqui, saio de cabeça erguida. Sei que sou inocente. Minha inocência será provada. Minha família está sendo injustiçada e sofrendo também. A Flordelis aqui está destruída, sem condições de estar aqui, mas precisei vir. O Tribunal de Júri vai me absolver e vocês, quando colocarem suas cabeças no travesseiro, vão se arrepender — disse.

No dia 12 de agosto, a cassação de Flordelis foi publicada no Diário da Câmara dos Deputados. A pastora perdeu a imunidade parlamentar e pôde ser presa por participação no crime, o que ocorreu dois dias depois.

Quem é a pastora e missionária Flordelis?

Deputada que ficou viúva após a morte de Anderson do Carmo, Flordelis, de 60 anos, tornou-se conhecida na década de 1990 por ter mais de 30 filhos entre biológicos e adotados. Lançou-se como cantora em 1998 e, em seguida, candidatou-se a cargos políticos. Na última eleição para a Câmara, obteve 196.959 votos. O casal se conheceu no início dos anos 90, quando a deputada era missionária e realizava cultos na Favela do Jacarezinho, onde morava. Com os filhos, os dois fundaram oficialmente a Comunidade Evangélica Ministério Flordelis, em 1999, no Rocha.

Em 2009, a história da deputada foi lançada como filme. Com o título "Flordelis - Basta uma palavra para mudar", o longa-metragem teve produção executiva do marido e contou com a participação de estrelas como Letícia Sabatella, Cauã Reymond, Bruna Marquezine, Alinne Moraes e Deborah Secco. Os artistas participaram gratuitamente da obra, em prol da causa da missionária de montar uma casa para menores. Flordelis, na adolescência, ficou conhecida como "Missionária do tráfico" por resgatar da marginalidade crianças e jovens.

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