Atentado contra Cristina Kirchner acende alerta em campanhas de Lula e Bolsonaro

Homem aponta arma para vice-presidente argentina, Cristina Kirchner

Por Lisandra Paraguassu e Ricardo Brito

BRASÍLIA (Reuters) - Os principais candidatos à Presidência da República repudiaram nesta sexta-feira a tentativa de assassinato da vice-presidente da Argentina, Cristina Kirchner, num momento em que a polarização política imprime tensão a uma campanha eleitoral brasileira já marcada por episódios de violência.

Nas campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que lidera a corrida ao Planalto, e do presidente e candidato à reeleição Jair Bolsonaro (PL), o atentado frustrado provocou conversas internas de suas equipes, que já vinham lidando com reforço das medidas de segurança nos últimos meses.

“Causou preocupação, sim, foi conversado na campanha. O ex-presidente tem um esquema muito organizado de segurança, tanto da PF (Polícia Federal) e também o sistema dele, que vão analisar a situação", disse à Reuters o deputado Paulo Teixeira (PT-SP), um dos subcordenadores da campanha petista.

No QG de Bolsonaro, segundo uma fonte, a tentativa de assassinato da vice-presidente argentina também foi pauta. No comitê, a avaliação é que o assunto entrará nas preocupações da campanha e vai gerar um debate no reforço da segurança do presidente, conduzida principalmente pelo Gabinete de Segurança Institucional (GSI).

Outro ponto de atenção, segundo a fonte da campanha bolsonarista, é pelo episódio violento envolver um brasileiro --o suspeito detido pelo atentado nasceu em São Paulo.

Em entrevista coletiva no Maranhão, onde cumpriu agenda de campanha nesta sexta, Lula disse que o "bom senso" recomenda que o atentado na Argentina seja visto como um alerta no Brasil.

"Eu acho que todos nós que somos políticos temos que estar atentos à violência provocada por aqueles que não sabem viver democraticamente", afirmou.

"Acho que o bom senso indica que precisamos ficar alertas com o que pode acontecer no Brasil, porque nós temos visto... todo dia na imprensa tem uma insinuação, e quem faz insinuação pode cumprir aquilo que está prometendo", acrescentou.

Lula, um aliado político regional de Cristina Kirchner, fez uma publicação no Twitter em solidariedade ainda na noite de quinta-feira. "Que o autor sofra todas as consequências legais. Esta violência e ódio político que vêm sendo estimulados por alguns é uma ameaça à democracia na nossa região", afirmou.

Já Bolsonaro, um crítico frequente de Cristina Kirchner, só comentou o atentado quando questionado por jornalistas no Rio Grande do Sul no fim da manha desta sexta. Disse lamentar o ocorrido, mas reclamou do que considerou falta de solidariedade da esquerda quando sofreu uma facada na campanha de 2018 -- apesar de, na verdade, seus adversários políticos terem condenado o ataque à época.

"Eu lamento, é um risco que todo mundo corre, eu quase morri em 2018 e não vi a esquerda se preocupando comigo, mas tudo bem", disse Bolsonaro em Esteio, na Grande Porto Alegre. "Apesar de não ter nenhuma simpatia por ela, não desejo isso para ela."

Ciro Gomes (PDT), em terceiro nas pesquisas, e Simone Tebet (MDB), em quarto, usaram a condenação ao episódio para repudiar a violência política também no Brasil.

"Para nós, fica a lição de onde pode chegar o radicalismo cego, e como polarizações odientas podem armar braços de loucos radicais ou de radicais loucos. Ainda há tempo de salvar o Brasil de uma grande tragédia gerada pelo ódio. Paz!", escreveu Ciro em sua rede social.

VIOLÊNCIA POLÍTICA

Neste ano, o assassinato a tiros em julho de um petista por um apoiador de Bolsonaro inflamou os temores de mais violência política no Brasil. Mesmo antes da morte do correligionário do PT, Lula já vinha aumentando as precauções com sua segurança, com uso de colete à prova de balas em alguns eventos.

Em sua conversa com jornalistas nesta sexta, Bolsonaro se queixou dizendo que "já teve gente querendo botar na minha conta este problema", em alusão ao atentado contra Cristina.

O presidente é apontado pelos críticos como um estimulador de discurso de ódio e de intolerância política e religiosa, ao dizer, por exemplo, que sua campanha é uma luta "do bem contra o mal".

O tema da violência política, especialmente no ambiente digital --mas não só--, tem povoado a campanha eleitoral brasileira. Em julho, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes ordenou, a pedido da PF, a prisão temporária em Belo Horizonte de um homem que defendeu em redes sociais que Lula e o deputado Marcelo Freixo (PSB), candidato ao governo do Rio, além de ministros do próprio Supremo, fossem "caçados".

Há ainda também outros termômetros da tensão. Só no primeiro semestre de 2022, as denúncias de crimes que envolvem discurso de ódio na internet cresceram 67,5% na comparação com o mesmo período do ano passado, segundo dados da Safernet, ONG de proteção dos direitos humanos no ambiente digital.

A atenção ao tema se intensifica quando se aproximam as comemorações do 7 de Setembro, na semana que vem, para as quais Bolsonaro convocou apoiadores a marchar "pela última vez" em defesa de suas propostas, mesclando um movimento de demonstração de força e mobilização de sua campanha com a celebração do Bicentenário da Independência.

Para além da ameaça de violência política, a campanha eleitoral brasileira também registra outros pontos de preocupação com segurança. Nesta sexta, a assessoria de imprensa do governo do Estado de São Paulo citou em nota ameaças que o governador e candidato à reeleição, Rodrigo Garcia (PSDB), vem sofrendo e disse que a Casa Militar do governo paulista cuida da segurança do governador, e afirmando que não dará mais detalhes sobre os procedimentos.

De acordo com informações veiculadas na imprensa, ameaças a Garcia vindas da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) foram detectadas em interceptações telefônicas e, desde então, ele passou a usar colete à prova de bala e a andar com escolta policial. As ameaças seriam uma reação ao discurso mais duro em relação à criminalidade adotado pelo tucano na campanha eleitoral, segundo a imprensa.

(Reportagem adicional de Eduardo Simões, em São Paulo, e Maria Carolina Marcello, em Brasília)