Presidenciável uruguaio culpa neoliberalismo por violência na América Latina

Por Mauricio RABUFFETTI
Daniel Martínez

O candidato governista à Presidência do Uruguai, Daniel Martínez, acredita que Lula é "um preso político", critica Jair Bolsonaro e Donald Trump, e acredita que a América Latina é uma região violenta por causa da "aplicação selvagem" de políticas neoliberais.

O engenheiro socialista e político de 62 anos admite que a Venezuela é uma ditadura que viola os direitos humanos, mas não está disposto a condenar o regime de Nicolás Maduro e, caso seja eleito presidente nas eleições de 27 de outubro, continuará com a política de tolerância ao governo de Caracas promovida pelo Uruguai.

Em entrevista exclusiva à AFP, o candidato que lidera as pesquisas com 33% das intenções de votos disse que não há soluções mágicas na luta contra o narcotráfico que tem seu país como um novo centro de distribuição para a Europa.

- Drogas, violência e neoliberalismo -

Toneladas de cocaína embarcadas em Montevidéu e confiscadas na Europa colocam o Uruguai sob a lupa das agências de segurança, uma controvérsia que faz parte da campanha eleitoral.

"Tecnologia, criatividade e empreendedorismo não são apenas para o bem. Mas como explicar que os Estados Unidos, a nação tecnologicamente mais poderosa do mundo", à qual "não lhe falta pessoal vinculado à repressão e às armas (...) é uma peneira, não?", questiona o ex-prefeito de Montevidéu.

"Não há mágica", diz Martínez, que proclama o uso de "troca de tecnologia, Inteligência e informação com países vizinhos" para combater o tráfico de drogas.

Questionado sobre a crescente insegurança no Uruguai, que atingiu um nível recorde de homicídios em 2018 sob a administração da esquerdista Frente Ampla, o candidato considerou que "obviamente a situação piorou, mas o problema vem crescendo sistematicamente há 40 anos".

"Em que região do mundo as políticas neoliberais foram aplicadas de maneira mais violenta? América Latina", afirma, acrescentando que "é onde a insegurança e a violência cresceram mais no mundo".

- Trump, Bolsonaro e Lula -

Martínez é crítico em relação aos atuais presidentes americano e brasileiro.

"Há valores que Bolsonaro expressa e coisas que fazem com que, obviamente não vou mentir, eu seria hipócrita se dissesse que gosto", afirmou.

"Também não gosto de Trump. Isso não significa que vamos ter um problema", acrescentou. "Meu dever é procurar melhorar as relações entre os povos", resumiu.

Questionado se considera um preso político o ex-presidente brasileiro Luis Inácio Lula da Silva, condenado por corrupção, Martínez respondeu afirmativamente. "Eu o considero um prisioneiro político", afirmou.

- Continuidade sobre Venezuela -

A posição conciliatória do Uruguai em relação à Venezuela é fonte de discrepâncias entre governo e oposição no país.

O Executivo da Frente Ampla proclama uma saída negociada da crise e rejeita qualquer condenação do regime Maduro em fóruns internacionais, alinhando-se com a Nicarágua ou Bolívia e distanciando de seus sócios do Mercosul (Brasil, Argentina e Paraguai).

"Ainda não entendo por que é preciso ser um 'fã' e se colocar a favor de um lado ou de outro", disse Martinez, um defensor de "construir pontes e criar condições para uma convocação de eleições".

Ele afirma que continuará com a política atual do executivo uruguaio, mas admite que os direitos humanos são violados na Venezuela e que "o relatório de Michele Bachelet (alta comissária da ONU para os Direitos Humanos) é muito claro a esse respeito".

Mas ressalta: "Se fosse por isso, teríamos que condenar alguns países no mundo sobre os quais pessoas nunca falam nada, não sei por quê".

- Mercosul e abertura comercial -

Martínez, que foi senador e ministro das Indústrias, saúda o acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul.

Ele é a favor de "acordos tarifários", embora com "salvaguardas" que permitam a cada país ter seu próprio desenvolvimento tecnológico e evitar limitações nas compras públicas "que são uma ferramenta de desenvolvimento".

Ele se considera um "empreendedor" e diz que o principal objetivo de sua administração seria tentar "igualar o ponto de partida dos uruguaios", se eleito no primeiro turno de outubro ou no provável segundo turno, como mostram as pesquisas, em 24 de novembro.