Presidenta interina governa Bolívia após renúncia de Evo Morales

Por Raúl BURGOA, Francisco JARA
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Senadora Jeanine Añez acena da sacada do Palácio Quemado depois de se proclamar presidente interina da Bolívia, em 12 de novembro de 2019 em La Paz

A presidente interina da Bolívia, a conservadora Jeanine Añez, estreou no cargo nesta quarta-feira (13) após assumir o cargo para preencher o vácuo de poder deixado pela renúncia de Evo Morales, asilado no México.

Añez, segunda vice-presidente do Senado, se proclamou presidente interina um dia após à renúncia do vice-presidente e dos legisladores que a precediam na linha de sucessão.

Sua posse foi endossada pelo Tribunal Constitucional da Bolívia.

Nesta quarta-feira, Añez nomeou uma nova cúpula militar e negou ter chegado ao poder através de um "golpe de Estado", como afirma Evo Morales.

"Não há golpe de estado na Bolívia, há sim uma reposição constitucional", afirmou Añez em entrevista coletiva no Palácio Quemado.

"O único golpista deste país foi Evo Morales", disse Añez, em referência à decisão do ex-presidente de ignorar o resultado do referendo que negou sua reeleição indefinida, em 2016, e da suposta fraude na apuração das eleições de 20 de outubro.

Añez reafirmou que convocará eleições "o mais breve possível".

"Não aceitarei qualquer outra saída que não sejam eleições democráticas", afirmou Añez, uma senadora de direita até então pouco conhecida nacionalmente.

A convocação para novas eleições deve ser feita dentro de um período não superior a 90 dias. Ao assumir, ela prometeu que a Bolívia terá um novo governo em 22 de janeiro de 2020.

Na tarde desta quarta-feira, a tensão voltou a subir em La Paz, onde partidários de Morales enfrentaram a polícia e militares, que utilizaram ao menos um blindado na repressão.

Os confrontos ocorreram a três quadras da Praça Murillo, onde Áñez nomeou o general do Exército Sergio Carlos Orellana como comandante das Forças Armadas, no lugar do general Williams Kaliman, que passou à reserva.

No povoado de Yapacaní, na região da cidade de Santa Cruz, um jovem de 20 anos morreu com um tiro na cabeça em um confronto com a polícia, durante uma manifestação pró-Morales.

Desde o início da crise na Bolívia, há 23 dias, oito pessoas já morreram nos protestos pró e contra Morales.

Nesta quarta-feira, Morales disse no México que "se meu povo pedir, estamos dispostos a voltar para apaziguar, mas é importante o diálogo nacional (...). Sem diálogo nacional, estou vendo que vai ser difícil deter este confronto".

- Apoio de líderes -

Añez, originalmente do departamento de Beni, localizado no nordeste da Bolívia e na fronteira com o Brasil, recebeu apoio dos líderes dos protestos contra Morales.

O ex-presidente Carlos Mesa, segundo lugar nas questionadas eleições de 20 de outubro, a parabenizou pelo Twitter e o líder cívico Luis Fernando Camacho, que se tornou o principal rosto da oposição no contexto dos protestos, prometeu "apoio total".

Camacho também pediu para suspender as greves iniciadas no dia seguinte às eleições.

A Bolívia mergulhou no vácuo de poder desde domingo, quando Morales renunciou em meio a fortes pressões das Forças Armadas, da Polícia, de sindicatos e de manifestantes, que desde 20 de outubro participavam de violentas manifestações.

Logo após as eleições, a oposição denunciou uma fraude eleitoral devido à interrupção abrupta da publicação dos resultados da votação no momento em que começaram a apontar para um segundo turno com Mesa.

O presidente aimara, que ocupava a presidência desde 2006, sendo reeleito após sucessivas reformas constitucionais e apesar de um plebiscito adverso, renunciou poucas horas depois de ter convocado novas eleições diante das "graves" irregularidades denunciadas pelos observadores da Organização de Estados Americanos (OEA).

Em duas declarações diferentes, cerca de vinte países da OEA pediram na terça-feira o fim da violência e a rápida realização de eleições para superar a crise na Bolívia, na primeira reunião do bloco continental após a renúncia de Morales.

Nesta quarta-feira, a chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini, defendeu a proclamação de Añez como presidente interina como uma maneira de se "evitar o vácuo de poder", e pediu a "convocação de eleições".

"A União Europeia (UE) apoia uma solução institucional que permita que haja um governo interino que prepare novas eleições e evite um vácuo de poder que pode ter consequências para todo o país".

Mogherini defendeu também "novas eleições" para se "preservar os progressos" registrados sob a presidência de Morales, como a redução da pobreza, a integração da população indígena e a melhoria dos serviços.