Presidente do Afeganistão que fugiu do Taleban está exilado em Abu Dhabi

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Autoexilado do Afeganistão desde que a ofensiva militar do Taleban tomou a capital Cabul no domingo (15), o presidente Ashraf Ghani teve seu paradeiro revelado: ele está em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, com a família, confirmou em um comunicado nesta quarta-feira (18) o país do Golfo Pérsico, que justificou a acolhida em razão de "motivos humanitários".

Ashraf Ghani, 72, comandava o Afeganistão desde 2014 e fugiu do país logo depois de o grupo fundamentalista islâmico cercar a capital. Com fortes ligações com os EUA, o economista com passagem pelo Banco Mundial, doutor pela Universidade Columbia e ex-professor das universidades da Califórnia em Berkeley e Johns Hopkins, Ghani era visto como um fantoche das forças ocidentais que ocuparam o país com tropas militares por 20 anos e impuseram o sistema político que o levou ao poder.

O histórico dos rebeldes não é favorável a Ghani. Da primeira vez que tomou o poder, em 1996, após vencer uma guerra civil, o Taleban sequestrou o ex-presidente Mohammad Najibullah (ligado aos soviéticos que ocuparam o país nos anos 1980), decepou seus membros e arrastou seu cadáver amarrado a um caminhão pelas ruas da capital. O corpo de Najibullah ficou pendurado em um sinal de trânsito na frente do palácio presidencial, para ser visto pelos moradores da cidade.

Em um vídeo de nove minutos de duração publicado em sua página no Facebook nesta quarta, Ghani justificou a saída do país dizendo que queria evitar um derramamento de sangue em Cabul —expressão similar à que já havia usado no domingo, na mesma rede social.

Também negou ter carregado dinheiro, após acusação feita pelo governo russo, de que ele teria fugido do país com quatro carros e um helicóptero cheio de dinheiro. Em redes sociais, apoiadores do Taleban e um porta-voz do grupo compartilharam notícias de que o presidente teria fugido do país com US$ 169 milhões em espécie.

Ghani disse também que considera positiva a conversa entre seu antecessor, o ex-presidente Hamid Karzai, que comandou o país de 2001 a 2014, com uma das lideranças do Taleban, Anas Haqqani, líder de uma milícia considerada terrorista pelos Estados Unidos.

O presidente deposto disse ainda estar em negociação com contatos no país para poder retornar ao Afeganistão. Nos comentários do vídeo no Facebook, a maior parte dos afegãos reforçou seu apoio ao presidente, mas também houve quem o criticasse por deixar o país.

Essas críticas já haviam sido feitas pelo presidente dos EUA, Joe Biden, como forma de diminuir sua própria responsabilidade pela tomada de Cabul.

"O avanço do Taleban se desdobrou mais rapidamente do que prevíamos. E o que aconteceu? Líderes políticos afegãos desistiram e fugiram do país", disse o democrata na segunda (16). "Conversei com Ashraf Ghani [presidente afegão]. Tivemos conversas francas. Avisei que o Afeganistão deveria estar pronto para lutar uma guerra civil, combater a corrupção e fazer negociações internas. Eles falharam."

Desta vez, no entanto, o Taleban tenta passar uma imagem de moderação e afirma que não cometerá as atrocidades do passado, o que é visto com suspeição por parte da população afegã, que tenta a todo custo deixar o país. Abarrotado desde domingo, com direito a cenas de afegãos pendurados em aeronaves em movimento, o Aeroporto Internacional de Cabul tem registrado caos .

Tanto militares ocidentais, que tomaram o controle do aeroporto para conseguir evacuar os estrangeiros do país, quanto soldados do Taleban disseram nesta quarta-feira terem disparado para o alto a fim de dispersar a multidão, de acordo com a agência de notícias Reuters.

Os Emirados Árabes Unidos foram um dos únicos três Estados que reconheceram o primeiro governo do Taleban no Afeganistão, entre 1996 e 2001, ao lado da Arábia Saudita e do Paquistão.

O país, que fica no Golfo Pérsico, já sinalizou que deve ter uma relação amistosa com o grupo. Anwar Gargash, ex-ministro das Relações Exteriores e voz ativa local, foi ao Twitter dizer que considerou a proposta de anistia a grupos rivais feita pelo Taleban "encorajadora" e que espera que o país "agora vire a página do sofrimento em favor da paz e da prosperidade".

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