Anúncio de CEO da Apple põe direitos dos homossexuais em foco

(Arquivo) O presidente da Apple, Tim Cook

Quando o presidente da Apple, Tim Cook, assumiu publicamente sua homossexualidade nesta quinta-feira, não só se tornou o CEO mais renomado do mundo a anunciar sua orientação sexual, mas também pôs em evidência a participação dos gays nas salas de reuniões.

"Tenho orgulho de ser homossexual e considero que isso foi um dos maiores presentes que Deus me deu", escreveu Cook, que trabalha para a Apple há 16 anos.

"Muitos colegas na empresa sabem que sou gay, e isso não parece mudar a forma com que me tratam", disse, salientando, no entanto, que "nem todo mundo conta com essa possibilidade".

O anúncio, publicado em uma coluna da revista Bloomberg Businessweek, é um marco na luta pelos direitos dos homossexuais: é a primeira vez que o presidente executivo (CEO) de uma importante corporação americana faz uma declaração desse tipo.

"Acredito que, como resultado, aconteça a conversão da cultura gay em algo mais 'mainstream'", ou seja, mais próximo da cultura dominante, disse Roger Kay, assessor e analista do setor tecnológico da empresa Endpoint Technologies Associates.

"Isso, com certeza, vai encorajar outras pessoas que ocupam altos cargos a se libertarem e saírem de seus armários", acrescentou.

Segundo investidores da Escola de Negócios da Universidade da Pensilvânia, em julho de 2014 não havia nenhum CEO abertamente homossexual entre as 500 companhias mais importantes do país.

O mais alto executivo da petrolífera britânica BP, John Browne, tornou pública sua homossexualidade assim que se viu forçado a abandonar o posto em 2007, depois de um escândalo por supostamente ter contratado um acompanhante do sexo masculino.

Com o tempo, ganharam aceitação homens e mulheres homossexuais americanos que têm papéis proeminentes no mundo do entretenimento, do esporte e da política. No entanto, no mundo corporativo, ainda são poucos os que manifestaram sua orientação sexual abertamente.

Chad Griffin, presidente do Human Rights Campaign, que faz lobby em Washington pelos direitos da comunidade LGBT, disse que a notícia de Cook marca um grande avanço.

"O anúncio de hoje salvou incontáveis vidas", disse em um comunicado.

O presidente da Apple, de 53 anos, "sempre foi um modelo a seguir", explicou. "Mas hoje milhões de pessoas no mundo se sentiram inspiradas por esse novo aspecto de sua vida".

"Tim Cook é uma prova de que os jovens LGBT podem ter sonhos tão grandes quanto sua imaginação permitir, e querem ser médicos, senadores e CEO da maior empresa do mundo", disse Griffin.

O ex-presidente americano Bill Clinton felicitou Cook por seu anúncio. "De um sulista e fanático por esportes para outro: tiro o meu chapéu para você", escreveu no Twitter.

O CEO de sua arquirrival Microsoft, Satya Nadella, também tuitou que tinha ficado comovido com o anúncio,e o fundador do Virgin Group, o multimilionário Ricahrd Branson, escreveu: "Me pergunto como todos aqueles que discriminam as pessoas por serem gays tratarão o CEO da Apple agora".


Sacrificando a vida privada


Um relatório da empresa Deloitte de dezembro de 2013 sobre inclusão corporativa constatou que 83% dos empregados gays escondem sua orientação sexual no ambiente de trabalho por medo de sofrerem discriminação.

O que Cook anunciou nesta quinta-feira não era um segredo em sua empresa nem em seu círculo social, mas, como disse, reconhecer sua homossexualidade em um comunicado público sobre a igualdade de gênero "era mais importante" do que sua privacidade.

"Embora eu nunca tenha escondido minha sexualidade, não a havia reconhecido publicamente até agora", disse o executivo, que espera que sua confissão ajude outras pessoas com a mesma orientação sexual.

"Não me considero um ativista, mas me dou conta do quanto me aproveitei do sacrifício dos outros. Se o conhecimento de que o presidente executivo da Apple é homossexual puder ajudar alguém que está lutando para se aceitar, ou que se sinta sozinho, ou até servir de inspiração às pessoas para lutarem pela igualdade, então valeu a pena sacrificar minha vida privada", acrescentou.

Cook considera que ser gay lhe proporcionou "uma compreensão mais profunda do que significa ser parte de uma minoria, além de uma visão sobre as dificuldades que pessoas de outros grupos minoritários enfrentam todos os dias".

"Tenho a sorte de trabalhar em uma empresa que ama a criatividade e a inovação, e sabe que isso só pode florescer quando as diferenças das pessoas são aceitas. Nem todo mundo tem esta sorte", acrescentou.

Cook se tornou diretor geral da Apple em agosto de 2011, sucedendo o falecido fundador, Steve Jobs, de quem era o braço direito.