Presidente argentino envia emissário ao Brasil para costurar encontro com Bolsonaro

RICARDO DELLA COLETTA E TALITA FERNANDES
***ARQUIVO***BUENOS AIRES, AR - 11.12.2019: O presidente da Argentina, Alberto Fernandez, e a vice-presidente Cristina Fernandez de Kirchner acenam para apoiadores do lado de fora do palácio presidencial de Buenos Aires. (Foto: Mario De Fina/Fotoarena/Folhapress) ORG XMIT: 1845720 ORG XMIT: AGEN1912111848048235

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Dois dias depois de assumir o governo, o novo presidente da Argentina, Alberto Fernández, enviou um emissário de alto nível a Brasília para tentar costurar um encontro com o presidente Jair Bolsonaro e iniciar uma aproximação entre os dois governos.

O futuro embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Scioli, manteve uma agenda de encontros nesta quinta (12), em Brasília, com autoridades do governo Bolsonaro. 

O principal deles foi com o vice-presidente Hamilton Mourão. O argentino também conversou com o ministro Osmar Terra (Cidadania). 

Na reunião com Mourão, Scioli destacou que diferenças ideológicas não podem separar Brasil e Argentina e que os dois países precisam atuar juntos em diversas instâncias internacionais. 

Também destacou que qualquer amargura que tenha ficado entre os dois mandatários devido à troca de provocações nos últimos meses será resolvida quando se encontrarem e conversarem olho no olho. 

E, numa frase que foi vista como forte gesto de aproximação, o emissário argentino afirmou que o governo Bolsonaro deu passos importantes para superar a crise econômica brasileira.

Segundo auxiliares ouvidos pela Folha de S.Paulo, quando Scioli mencionou o desejo de promover uma reunião entre Fernández e Bolsonaro, Mourão disse que talvez haja uma janela de oportunidade em janeiro. 

O vice-presidente contou a Scioli que no próximo mês está pré-agendada a participação de Bolsonaro na inauguração das novas instalações da estação Comandante Ferraz, na Antártida, parcialmente destruída por um incêndio em 2012. 

Mourão disse que, caso esse roteiro se confirme, o presidente brasileiro terá que decolar de Punta Arenas (Chile) ou de Ushuaia (Argentina). Se a escala for na cidade austral argentina, um encontro poderia ser promovido.

A campanha presidencial argentina e o período de transição de governo foram marcados por trocas de farpas e provocações entre Bolsonaro e Fernández. O brasileiro decidiu apenas de última hora enviar um representante -justamente Mourão- para a posse do argentino.

Na viagem a Buenos Aires, o vice-presidente teve uma primeira conversa com Scioli. 

Nos últimos meses, Bolsonaro não escondeu que preferia ter visto o agora ex-presidente Mauricio Macri reeleito e afirmou por mais de uma vez que a volta do peronismo ao poder na Argentina poderia gerar uma "nova Venezuela" no continente sul-americano.

Fernández, por sua vez, defendeu durante a campanha a liberdade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e, no dia de sua vitória eleitoral, posou para fotos fazendo um "L" com as mãos, símbolo do petista. 

Após a campanha, porém, ambos os governos deram sinais de que pretendem trabalhar para melhorar a relação para um nível que ao menos não prejudique a extensa relação comercial entre os dois vizinhos. 

Bolsonaro disse nesta quarta (11), por exemplo, estar à disposição caso Fernández queira vir ao Brasil. 

Diplomatas brasileiros consideram que Scioli, ex-governador de Buenos Aires e ex-vice-presidente, é peça-chave nesse esforço de reaproximação. 

Não apenas pela longa trajetória política marcada pelo pragmatismo -ele iniciou a carreira aliado ao liberal Carlos Menem--, mas porque recusou um convite para ser embaixador em Roma, posto considerado figurativo.

Na avaliação de integrantes do governo brasileiro, o fato de Scioli ter pedido a Fernández para liderar a missão diplomática em Brasília mostra que está empenhado em um projeto de normalização das relações bilaterais. 

Scioli não foi o único representante diplomático que Mourão encontrou nesta quinta. 

Depois do argentino, o vice-presidente se reuniu com o encarregado de negócios da embaixada de Cuba, Rolando Gómez González.

Praticamente sem interlocução desde o início da atual administração, Brasil e Cuba se afastaram ainda mais depois que o governo Bolsonaro votou, na ONU (Organização das Nações Unidas), a favor do embargo dos Estados Unidos contra a ilha -um posicionamento que rompeu tradição de quase três décadas do Itamaraty.

"As relações oficiais estão numa postura, vamos dizer, ideologizada. Nós respeitamos sempre as diferenças com os demais governos dos 187 países que votaram contra o bloqueio. Nem todos têm afinidade com Cuba, como vocês podem imaginar", declarou Gómez ao final da reunião com Mourão. 

"Foi uma decisão que representa uma parcela da população. Não reflete em nada o sentimento de amizade e carinho de profundas relações que há tradicionalmente entre os povos brasileiro e cubano por seus vínculos culturais, históricos e comerciais."