Presidente do Bahia, sobre SAF: 'Não queremos dominar o futebol brasileiro, mas vamos incomodar mais'

Confirmado o retorno à primeira divisão, o Bahia está agora definitivamente livre para voar pelas asas do Grupo City. Um voo não tão estratosférico quanto pode sugerir a representatividade da empresa dos Emirados Árabes, dona do Manchester City e com participação em outros dez times pelo mundo. Mas um salto em relação ao que o tricolor de aço já foi capaz de alcançar.

Perto de submeter o negócio à votação dos sócios - a assembleia deve acontecer até a primeira quinzena de dezembro-, o presidente Guilherme Bellintani acredita que o Bahia está estabelecendo novos parâmetros para o futebol brasileiro no que diz respeito a criação e venda de Sociedades Anônimas de Futebol, depois da primeira leva de negócios feita por Cruzeiro, Botafogo e Vasco.

- Aprendi muito com o que fizeram e outros vão observar a partir de agora o que o Bahia está fazendo - afirmou.

Como foi tocar o Bahia em um ano de Série B e ao mesmo tempo buscar investidores para a SAF?

Foi um ano que precisei estabelecer essas duas frentes. Voltar para a Série A e trazer uma proposta consistente para o clube. Foi preciso mostrar que éramos um time de Série A na Série B e por isso preferimos não fazer qualquer empréstimo com o Grupo City, para fazermos a melhor negociação possível. Se eu tivesse adiantado alguma coisa, as conversas poderiam ficar menos vantajosas. Preferimos tocar o Bahia por nós mesmos.

Essa é uma diferença em relação às SAFs de Cruzeiro, Botafogo e Vasco. Elas serviram de referência? O que mais quis fazer diferente?

Serviram muito. Estudamos muito os modelos de Cruzeiro, Vasco e Botafogo, trouxemos coisas que achamos importantes. Bebemos da fonte, mas também vimos coisas que não queríamos aqui. A questão da dívida, o pagamento integral da dívida, no curto prazo, é um ponto. Os outros clubes optaram por rolar a dívida, parcelá-la. Na nossa estratégia para a SAF, pagar isso de uma vez era fundamental. Estamos falando de 50 milhões, 60 milhões de dólares. O investidor que não estivesse disposto a fazer isso logo de partida, era um sinal de que não valeria a pena estar conosco. Entendemos que esse era o mínimo de sinal econômico que o investidor precisava dar.

Mas isso só foi possível porque a dívida do Bahia é consideravelmente menor do que a dos três, não?

Com certeza, isso tudo depende do tamanho da dívida, da circunstância de cada clube. Cada clube tem a sua realidade. Estudamos o caso dos três e outros clubes daqui para frente vão estudar como estamos fazendo a SAF do Bahia.

E a diligência entre o Grupo City e o Bahia já acabou?

Sim, essa foi outra coisa que fizemos diferente dos outros. Antes de anunciar, concluímos toda a diligência. É comum que haja surpresas e com isso tenhamos de voltar a negociação. Se o Bahia afirma ter uma dívida e ao fim da diligência se descobre que o passivo é maior, o Grupo City sentaria novamente conosco e pediria um desconto imenso no contrato.

Quando imagina que esse processo todo vá terminar?

Caso a assembleia aconteça até o dia 15 de dezembro, no dia seguinte, os aportes já começarão, toda a parte estratégica entrará em vigor. O Grupo City já terá o comando pleno do futebol do Bahia. É um processo rápido.

Acredita que o Bahia já entrará na próxima janela de transferências na realidade de SAF?

Sem dúvidas. Depois da assembleia, levamos de 15 a 20 dias para transferir tudo para a SAF.

Um ponto importante do contrato é a definição de que a SAF deverá ter no mínimo R$ 120 milhões de folha salarial por ano ou 60% da receita bruta, descontado o arrecadado com transferências, destinada para o salário do elenco. É suficiente para o Bahia ser competitivo?

O faturamento de 2019 foi de R$ 190 milhões. Se descontarmos os R$ 30 milhões com a venda de jogadores, a receita corrente foi de R$ 160 milhões. Se você atualizar esse valor, vai passar um pouco dos R$ 200 milhões. Esse valor é uma referência mínima para nós. Podemos imaginar, com as melhorias que serão proporcionadas pela SAF, que o resultado do futebol do Bahia será consideravelmente melhor do que esse. Daria uma folha 30%, 40% maior do que a que tínhamos antes da SAF. Queremos envolver o torcedor no processo. Ele sabe que cada gasto que tiver com o Bahia, na compra de uma camisa, de um ingresso, parte dele será convertido para o financiamento do elenco.

Ainda assim, é um valor que estará distante da folha de um Flamengo, por exemplo, que gasta cerca de R$ 450 milhões por ano. É isso mesmo que vocês têm em mente?

Nosso primeiro movimento com a SAF é termos um clube razoavelmente mais forte do que tínhamos. É ilusão pensar que qualquer SAF no Brasil vai dominar o futebol brasileiro rapidamente e de forma plena. Se mesmo para o Flamengo, esse domínio é compartilhado com Palmeiras, Atlético-MG, imagina para o Bahia. Não temos a pretensão de dominarmos o futebol brasileiro, de disputar com clubes que têm dez, 15 vezes mais torcida. Mas é certo que teremos um clube mais forte do que é hoje.

O torcedor do Bahia está ciente dessa projeção de expectativa?

Nosso torcedor está sendo bem informado. Ele sabe que nossa SAF não tem a pretensão de dominar o futebol brasileiro e ganhar títulos o tempo todo. Mas vamos ser um clube mais forte do que somos, vamos incomodar muito mais.

Por que não ter metas esportivas no contrato?

Não foi estabelecido porque é algo difícil de mensurar. Seria mais uma resposta pública do que algo consistente. Garantimos o mínimo de investimento financeiro e um parceiro de qualidade, com tecnologia, que possa melhorar nosso rendimento.

Pode-se dizer que o Bahia espera se tornar um Athletico, em termos de resultado?

O Athletico é uma referência muito positiva. Como se traça meta esportiva sem saber como vai ser o futebol brasileiro daqui a cinco anos, dez anos? Quantas SAFs teremos? Sei tivermos dez SAFs fortes, só temos uma Copa do Brasil, um Brasileiro. Meta esportiva é algo tecnicamente difícil de se sustentar.

Como encara o fato de o Bahia eventualmente passar a ser visto como um entreposto de jogadores para o Manchester City?

Não concordo com isso. Você acha razoável pensar que o Grupo City vai investir no mínimo R$ 1 bilhão apenas para ter jogadores do Bahia? Era mais fácil contratar os jogadores, não precisava comprar o clube. O Bahia será a segunda operação do grupo no mundo, atrás apenas do City.

Hoje isso já acontece, de jogadores escolherem um determinado clube por ele fazer parte do Grupo City, às vezes na perspectiva de posteriormente chegar ao Manchester. Você não acha que o Bahia pode se beneficiar disso?

O olhar de que o Bahia vai ser apenas um ponto de passagem dos jogadores para o City não é nem factível. Mas é logico que a sinergia das plataformas, ela vai ser é muito positiva para o Bahia. O jogador sabe que estando no Bahia, ele vai poder jogar em Nova York, na Europa. Seremos beneficiados por isso. Ter acesso a um jogador de destaque do City Torque. Ou então um jogador sul-americano, argentino, por exemplo, que queria ficar mais perto da família, que ele venha para o Bahia.

Imagino que ter acesso a expertise do Grupo City também seja muito importante para o Bahia...

No contrato, está tudo estabelecido. Tem que o nível de gestão, de tecnologia, de metodologia, tem de ser num nível técnico parecido com o que existe no Manchester City. Não estou falando apenas no nível do jogador, mas em termos de processo, de informação. Queremos participar, ter essa sinergia. E está tudo no papel, não foi um acordo.

De uma forma mais geral, como vê esse processo das SAFs no Brasil?

Se você olhar o mundo, o Brasil está fazendo agora o que o mundo já fez há muito tempo. O que é assustador é o futebol brasileiro, com a riqueza que tem, ser administrado como foi até hoje. Eu não estou defendendo o capitalismo selvagem dentro do futebol. Mas é que o modelo administrativo do clube é o do presidente sem know-how. Você não faz ideia do quanto aprendi nesse um ano vendo a SAF. Se eu já soubesse tudo que aprendi nesse período quando assumi o Bahia, teria feito muita coisa diferente.