Presidente do BNDES: banco não precisa fazer novos esclarecimentos sobre operações do passado

Rennan Setti
Gustavo Montezano, presidente do BNDES.

RIO - O presidente do BNDES, Gustavo Montezano, afirmou, nesta quarta-feira, que não há mais esclarecimentos necessários a se fazer sobre operações realizadas pelo banco no passado. Nos últimos meses, dentro de seu objetivo de "explicar a caixa-preta do BNDES" - expressão usada por críticos para apontar suposta falta de transparência -, Montezano se pronunciou sobre operações como o investimento na JBS e o apoio à exportação de serviços de engenharia por empreiteiras.

Na apresentação de um plano trienal para o BNDES, o executivo deu a entender que considera a "explicação da caixa-preta" algo, por ora, superado. - Hoje, entendemos que não há nada, nenhum evento mais, que requeira esclarecimento. A sociedade está com informação de qualidade, substancial. Mas, se for necessário, vamos expor novamente - afirmou. - Esse processo de abertura do BNDES não tem um marco temporal, é permanente.

No evento, Montezano se comprometeu a conceder empréstimos que gerem e mantenham 1,2 milhões de empregos por ano até 2022. A promessa está no plano trienal, que prevê também a estruturação, nesse prazo, de projetos que ampliem o acesso ao saneamento básico para mais 20 milhões de pessoas no futuro e a venda de 30empresas públicas.Apresentar um plano trienal era uma das cinco metas da gestão de Gustavo Montezano este ano, que incluíam também elevar a transparência do banco ("explicar a caixa-preta), acelerar a venda de ações de empresas maduras, pagar a dívida com o Tesouro e a melhorar a prestação de serviços a governos. Na opinião do presidente do banco, essas cinco metas foram concluídas. Na apresentação a jornalistas e diretores do banco, Montezano argumentou que é falsa a percepção de que a carteira de ações do BNDES, que soma mais de R$ 110 bilhões, foi lucrativa no longo prazo. Ele usou números para mostrar que, ao longo dos anos, esse investimento rendeu menos que o CDI, taxa que segue de perto os juros básicos do país e não oferece risco.

Segundo ele, se nos últimos dois anos a carteira vem sendo favorecida pela recuperação na Bolsa, em prazos mais longos, ela perde para o CDI. Em 10 anos, as ações subiram apenas 4,4% ao ano, enquanto o CDI registrou avanço de 9,9%. Em 18 anos, foram 12,2% em média para a carteira e 12,4% para o CDI.

- Chama atenção como nós, como sociedade, nunca discutimos essa carteira da BNDESPar. Ela trouxe risco para o BNDES e deixou dinheiro na mesa. Fazendo uma conta de padeiro, ficaram R$ 100 bilhões na mesa - afirmou Montezano. - O acionista (governo federal) que estava aqui há alguns anos esperava do banco a geração de dividendos e tributos para que eles contassem como receita primária. Então, quanto maior fosse a carteira, melhor seria. Agora não é mais assim.

Montezano frisou que a redução da carteira de ações não compromete a rentabilidade do banco, pelo contrário:- A lucratividade, sem considerar a renda variável, é equivalente a 5 vezes a nossa despesa. O BNDES é o banco mais sólido do mundo nesse quesito. Por isso mesurpreenderam as dúvidas que havia aqui no banco e lá fora sobre o seu futuro se vendêssemos as ações. Embora Montezano considere que tenha conseguido acelerar a carteira de ações do banco, apenas esta semana o BNDES conseguiu realizar uma venda substancial: se desfez na terça-feira de R$ 2,1 bilhões que tinha em papéis do frigorífico Marfrig. Era inicialmente esperada para este mês a venda de R$ 8 bilhões em ações da JBS, mas a transação acabou ficando para o ano que vem.

O banco tenta agora vender sua participação na Petrobras, que ultrapassa os R$ 50 bilhões. A expectativa é que o BNDES contrate até semana que vem o consórcio de bancos para abrir mão das ações ordinárias (ON, com voto). O Conselho de Administração do BNDES também já liberou os executivos para vender na Bolsa em até seis meses todas as ações preferenciais (PN, sem voto). - Esperamos a precificação da oferta de ações da Saudi Aramco acontecer. Não iríamos lançar uma operação enquanto houvesse aquele elefante na estrada. Ficamos educadamente esperando - justificou Montezano. - Mas não temos nenhuma pressa. Tudo vai depender da demanda do mercado. Temos três anos para fazer esse desinvestimento.

Decisão sobre PDV fica para 2020

Enquanto reduz o tamanho da carteira de ações, o BNDES quer elevar o investimento em fundos. O banco está investindo R$ 400 milhões em um fundo da Pátria Investimentos focado em infraestrutura que terá patrimônio de R$ 10 bilhões.

O banco também anunciou esta semana o lançamento de um fundo que aplicará em projetos de Internet das Coisas (IoT, na sigla em inglês, que é o ecossistema de sensores e máquinas conectadas à rede). O banco e a empresa americana de tecnologia Qualcomm aportarão R$ 40 milhões cada um.

- Também queremos estruturar até 2022 pelo menos cinco fundos voltados para pequenas e médias empresas - disse Leonardo Cabral, diretor responsável pela área de mercado de capitais, que não quis estimar o tamanho da carteira de fundos que o banco terá no futuro.Quando tomou posse, em setembro, Montezano afirmou que iria analisar se seria necessário fazer um Plano de Demissão Voluntária (PDV) no BNDES. Perguntado sobre isso nesta quarta-feira, o presidente disse que a decisão foi postergada para o próximno trimestre.

Ele falou que será crucial levar em conta na decisão o andamento da cessão de funcionários do BNDES a outros órgãos. Já há cerca de 50 técnicos do BNDES na fila para empréstimo à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e há pedidos vindo de outros seis órgãos, como IBGE e Susep, regulador do setor de seguros.