Presidente chileno enfrenta manifestações impulsionadas por estudantes pela 2ª vez

SYLVIA COLOMBO
***ARQUIVO***NOVA YORK, EUA, 25.09.2019: Presidente do Chile, Sebastián Piñera, durante encontro do Conselho das Américas, na cidade de Nova York, nos Estados Unidos. (Foto: Vanessa Carvalho/Brazil Photo Press/Folhapress)

LA PAZ, BOLÍVIA (FOLHAPRESS) - Os estudantes chilenos têm uma longa trajetória de manifestações -não apenas para reivindicar melhorias educacionais, mas também por demandas de outras áreas, como transporte e desigualdade social.

Nos últimos tempos, houve especial ênfase em questões de gênero -eles foram fundamentais, por exemplo, para que fosse aprovada uma lei de aborto- e na pressão à Justiça para que dê andamento a julgamentos relacionados à repressão durante o regime militar (1973-1990).

Na visita de Jair Bolsonaro ao país, neste ano, foram os estudantes que organizaram as manifestações de repúdio devido às referências positivas que o presidente brasileiro fez ao período ditatorial no país.

Durante todo o tempo em que Bolsonaro esteve reunido com seu par chileno, Sebastián Piñera, houve manifestações do lado de fora do Palácio de La Moneda, sede do governo chileno.

Mas as manifestações lideradas pelos estudantes chilenos com mais impacto -e que fizeram com que parte da sociedade se juntasse a eles- foram as de 2006 e 2011.

Em 2006, o ponto principal era confrontar as bases do sistema educacional chileno, que ainda eram as mesmas do regime militar.

Em 1981, Augusto Pinochet reformou o sistema universitário, eliminando a educação superior gratuita. A partir de então, os estudantes que não tivessem recursos tinham de pedir créditos ao Estado ou a bancos.

Depois, o ditador promulgou uma lei que reduziu o papel do Estado na educação, transformando-o num simples regulador. A maior parte do sistema foi então privatizada, a altos custos para os estudantes.

Os que foram às ruas em 2006 eram chamados de "pinguins", devido à cor do uniforme, e conseguiram que milhares de cidadãos os acompanhassem.

As pressões, apesar de sensibilizar a então presidente, Michelle Bachelet, não foram suficientes para provocar mudanças substanciais, porque para isso era necessário uma votação no Congresso, que se opôs.

Em 2011, no primeiro mandato de Piñera, conheceram-se as manifestações mais volumosas e que duraram meses. A pressão nas ruas, inicialmente por questões estudantis, logo passou a reunir outras bandeiras, como desigualdade social, preços nos transportes e questões de gênero.

Tampouco essas mobilizações conseguiram mudar o sistema, mas o saldo mais importante foi criar um novo grupo político. Foi esse o contexto em que lideranças como Camila Vallejo, Giorgio Jackson e Gabriel Boric se destacaram.

Pouco depois, eles viraram parlamentares e se uniram a uma nova coalizão de esquerda, a Frente Ampla.

Nas últimas eleições presidenciais, em 2017, sua candidata, Beatriz Sánchez, ficou em terceiro lugar. Ela declarou nesta semana que é a favor dos protestos, assim como Boric, que chegou a enfrentar fisicamente militares no sul, há poucos dias.

Apesar de tentar capitalizar politicamente os protestos, a Frente Ampla declarou ser contra os atos de vandalismo. Será interessante acompanhar se sairá fortalecida ou não depois dessa onda de protestos.