Presidente do Cremerj afastado após denúncia de assédio foi chamado duas vezes para depor e não compareceu

Indiciado pela polícia por assédio sexual no ano passado, o presidente do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (Cremerj), o cirurgião ortopédico Clovis Bersot Munhoz, de 72 anos, decidiu pedir afastamento da entidade para responder a uma sindicância. O comunicado foi feito por meio de nota do Cremerj, após reuniões que duraram mais de três horas com o médico, e cerca de oito horas depois de o site do GLOBO ter revelado o caso. Munhoz foi intimado para depor duas vezes em 2021, mas não compareceu à delegacia, informou o delegado titular da 9ª DP, Rafael Barcia. Um dos pedidos do Ministério Público é para que seja feita uma nova tentativa de ouvir o cirurgião. Outras diligências, solicitadas pelo MP, são sigilosas.

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No início da noite de quinta-feira (21) o Conselho Federal de Medicina (CFM) aguardava ser informado oficialmente do caso pela entidade estadual, que está ciente da denúncia desde agosto de 2021. Munhoz, que era conselheiro na época, tomou posse na presidência do Cremerj em fevereiro. O anúncio do afastamento do cirurgião também foi posterior à manifestação do CFM, informando que a conduta será apurada por um dos outros 26 conselhos regionais da categoria no país, “com o objetivo de evitar eventuais conflitos de interesse, preservando a credibilidade do trabalho realizado pela instância de investigação”.

Uma técnica de enfermagem, de 26 anos, acusa o médico de fazer comentários de cunho sexual no centro cirúrgico e alega que a falta de providências por parte do hospital a levou a pedir demissão. Moradora de Caxias, a jovem registrou a ocorrência na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam) do município. O caso foi transferido para a 9ª DP (Catete), próximo ao local onde o fato teria ocorrido, e por não se tratar de violência doméstica. Além do inquérito policial em curso, na Justiça do Trabalho também tramita processo movido pela vítima. “Você é muito quente” foram algumas das palavras do médico dirigidas à auxiliar, segundo a denúncia.

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Titular da 9ª DP, o delegado Rafael Barcia informou que dará prioridade ao inquérito, que espera concluir em até um mês, após algumas diligências finais.

— O inquérito chegou a ser relatado pelo delegado Sérgio Freire, com indiciamento do médico pelo crime de assédio sexual, no ano passado. Só que o Ministério Público nos devolveu a investigação, pedindo algumas diligências, que vamos cumprir o mais rapidamente possível. Portanto, ele já foi indiciado, mas não denunciado — explica Barcia, que assumiu a distrital em maio último. — Tem uma testemunha que confirma a versão da vítima. Não ouviu todo, mas parte do diálogo entre a vítima e o médico. A testemunha disse ainda que o cirurgião tem essa fama de desrespeitar mulheres dentro do hospital.

Procurado por dois dias pelo GLOBO, o médico não deu entrevista. Em nota publicada no seu site, o Cremerj afirmou que, em agosto de 2021, foi informado pelo estabelecimento Hospitais Integrados da Gávea S/A (Glória D’Or) sobre a investigação da 9ª DP. “Na época, foi instaurado procedimento administrativo no conselho e foram solicitados esclarecimentos a respeito do caso”, acrescenta. Ainda de acordo com a entidade, o médico “prestou todas as informações, frisando não ter proferido nenhuma das palavras ali mencionadas”.

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A nota prossegue dizendo que o ortopedista informou ao conselho que, no dia do fato narrado pela técnica, “havia feito outras cirurgias, e que estavam presentes na sala outras pessoas, como médicos, enfermeiras e instrumentadores”. Após apuração interna, o conselho garante que “não foi encontrado nada em nome de Clovis Bersot Munhoz”. O Cremerj não informou por que, na ocasião, não encaminhou o caso para o CFM, já que se tratava de um conselheiro.

O Cremerj, presidido por Munhoz, é a entidade que vai votar pela abertura de um processo ético-profissional para apurar a conduta do anestesista Giovanni Quintella Bezerra, filmado pela equipe de enfermagem enquanto abusava de uma parturiente durante procedimento no Hospital da Mulher Heloneida Studart, em São João de Meriti. O processo pode culminar na cassação de Bezerra, que está preso.

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Conforme o processo trabalhista, ao qual O GLOBO teve acesso, a técnica de enfermagem foi admitida no Glória D’Or em 1º de abril de 2020. Segundo o documento, em 6 de junho de 2021, ela foi designada para auxiliar Munhoz em uma cirurgia. Ao entrar no centro cirúrgico, de acordo com o relato da profissional, o médico, após cumprimentar a equipe, se dirigiu até ela, colocou a mão em seu pescoço e disse: “Você é muito quente”. Em seguida, teria indagado se a técnica era casada, e ela teria respondido que sim.

O cirurgião, também na versão da denunciante, prosseguiu dizendo: “Se você quer trair o seu marido, pode ligar para mim”. Depois, segundo o processo, ele segurou a técnica pelo braço e afirmou: “Você não pode sair de perto de mim. Como você é quente. Se eu beijar o seu pescoço, você vai gozar rápido”.

No processo trabalhista, é relatado que a jovem saiu da sala de cirurgia para pegar uma medicação pedida pela anestesista, aproveitando para contar o que ocorrera à enfermeira de plantão. No retorno à sala, ouviu o médico contar à equipe sobre o lado pessoal da vida sexual dele. O cirurgião teria perguntado à técnica se ela “já tinha tido múltiplos orgasmos”, mas ela não respondeu.

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Ao terminar a cirurgia, a denunciante foi para a sala da enfermeira de plantão. E, conforme o processo, ouviu o acusado dizer que, se mudasse de ideia e quisesse trair o seu marido, ela teria “todos os dias pela manhã”, pois trabalha à tarde.

De acordo com o documento, a técnica contou o caso a seu marido, que pesquisou sobre o médico e soube que se tratava de um renomado ortopedista, que trabalhou no Vasco da Gama. De fato, Munhoz foi chefe do departamento médico do clube em dois períodos: de 1985 a 2004 e de 2008 a 2013.

“Diante da sua fama, (a técnica de enfermagem) resolveu, em um primeiro momento, não o denunciar, pois ficou com muito medo de represálias, mas se negaria a entrar para realizar qualquer procedimento com o referido médico”, destaca um trecho do processo.

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No dia 7 de julho de 2021, segundo a denúncia, foi agendada outra cirurgia com o médico, em que a técnica deveria auxiliá-lo. Ela teria informado à enfermeira de plantão que não participaria do procedimento. E, em seguida, procurado a enfermeira chefe do centro cirúrgico, sendo orientada a fazer um comunicado por escrito no site da Rede D’Or, o que foi feito no dia 8 de julho. No dia seguinte, ela foi à Deam de Caxias fazer o registro da ocorrência.

No processo trabalhista, é alegado que o fato gerou trauma na mulher, que iniciou um tratamento psicoterápico “para amenizar a agonia que sentia e a falta de segurança em seu próprio local de trabalho”. Ela pediu demissão em 13 de dezembro de 2021. Sua advogada, que pede para não ser identificada, cobra indenização do hospital de R$ 45.972,94, por rescisão contratual — argumenta que ela foi obrigada a pedir demissão da unidade hospitalar — e por danos morais:

— A minha cliente não vai se manifestar, porque se tratou de um caso doloroso que deixou marcas. Todas as providências que deveríamos tomar já foram feitas.

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A presidente do Sindicato dos Auxiliares e Técnicos de Enfermagem, Míriam Barbosa, saiu em defesa da profissional. Ela abriu um canal virtual para denúncias do gênero:

— Recebi essa notícia com muita tristeza. Os auxiliares fazem plantões exaustivos e estão sujeitos a situações como essa. Isso tem que acabar. Os médicos têm que deixar de se sentir deuses, achando que podem tudo.

Na sua nota, o Cremerj diz que Munhoz “tem se posicionado firmemente contra casos de abuso sexual em unidades de saúde” e que o conselho “reafirma o repúdio por qualquer tipo de assédio”.

Também por meio de nota, a Rede D’Or ressalta que “desde o primeiro momento, quando tomou ciência da acusação, o hospital levou o fato ao conhecimento do Cremerj e vem colaborando com as autoridades que estão investigando a denúncia”. O texto acrescenta ainda que “o hospital repudia veementemente qualquer tipo de comportamento abusivo ou antiético, e afirma que sempre colabora com as apurações em casos de denúncia”.

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