Presidente da Câmara de SP quer vereadora negra para relatar caso de fala racista

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Presidente da Câmara Municipal de São Paulo, Milton Leite (União Brasil) articula para que a vereadora Elaine do Quilombo Periférico, do PSOL, seja a relatora na Corregedoria do caso da fala racista proferida pelo colega Camilo Cristófaro (PSB) nesta terça-feira (3).

Durante sessão da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) dos Aplicativos, foi possível ouvir conversa em que Cristófaro diz "não lavaram a calçada. É coisa de preto, né?". Ele participava virtualmente do encontro.

Mais tarde, na reunião de líderes, o vereador afirmou que estava conversando com um amigo quando fez uso da expressão preconceituosa. Ele argumentou que a intimidade que tem com essa pessoa, de apelido Chuchu, permite que ele faça comentários do tipo.

Antes da reunião, Cristófaro disse à reportagem que a denúncia não procedia. "Me mostre uma prova. Não existe", escreveu o vereador. "Não existe absolutamente nada, 70% dos que me acompanham são afros. E me orgulho deles", completou.

A escolha da relatora será conduzida pelo corregedor da Câmara, o vereador Gilberto Nascimento Junior (PSC).

A participação de Leite indica que Cristófaro não deverá passar incólume do novo episódio problemático. Membro da Corregedoria, Elaine é uma liderança influente do movimento negro.

O relatório indicará uma pena ao vereador, que pode chegar à cassação do mandato. Caso aprovado na Corregedoria, o relatório será encaminhado a plenário para votação.

Em discurso nesta terça-feira (3), Leite disse que, como homem negro, considera inaceitável ter tido que ouvir a fala de Cristófaro.

"As pessoas têm que tratar o racismo da forma que tem que ser tratado. Faço uma ofensa moral, peço desculpas e amanhã está resolvido? Não é disso que estamos falando. As pessoas têm que tirar isso do coração", disse Leite.

OUTROS CASOS

Essa não é a primeira vez que Crisófaro se envolve em confusão. Em 2019, ele chamou o vereador Fernando Holiday (Novo) de "macaco de auditório", no plenário da Câmara.

"Gostaria de falar que lamentavelmente o senhor Fernando Holiday usa das redes sociais, que ele é o grande macaco de auditório das redes sociais, que ele usa dando risada dessa Casa, explodindo as redes sociais, porque a população adora ver sangue, maldade, mentira, fake, onde ele acusa os seus colegas de vagabundos", disse Cristófaro, na ocasião.

De acordo com a assessoria do vereador Gilberto Nascimento (PSC), que preside a Corregedoria, o caso referente ao parlamentar Holiday deverá ser votado nas próximas semanas.

Em 2017, a então vereadora e atual deputada estadual Isa Penna (PSOL) disse que foi empurrada e agredida por Cristófaro em um dos elevadores do prédio da Câmara Municipal.

De acordo com Isa, o vereador a xingou de "vagabunda", "terrorista", "cocô de galinha" e insinuou ameaças dizendo que ela não deveria ficar surpresa se "tomar uns tapas na rua".

Em seguida, já fora do elevador, Cristófaro se aproximou da colega de plenário e lhe deu "um empurrão de leve", de acordo com Isa. O vereador negou na época e diz que não ofendeu ninguém.

Há também acusações de agressões contra o vereador feitas por um funcionário da Subprefeitura do Ipiranga, que teria levado um soco em julho de 2020, e outra realizada por um assessor do vereador Eduardo Suplicy (PT).

No primeiro caso, Cristófaro diz que foi um empurra-empurra e que apenas se defendeu diante do funcionário da subprefeitura. Em relação à queixa do assessor de Suplicy, o vereador afirmou, na ocasião, que a acusação era mentirosa e o funcionário "queria aparecer, queria mídia".

No dia 13 de março, a gestora pública Lucia de Souza Gomes, 47, registrou um boletim de ocorrência no 26º Distrito Policial, no Sacomã, em São Paulo. Ela acusa o vereador Cristófaro de tê-la ofendido verbalmente.

No boletim de ocorrência, ela narra que, ao tentar se aproximar do prefeito Ricardo Nunes (MDB) durante a inauguração de uma obra, o vereador Camilo Cristófaro disse que, se ela queria aparecer, "que fique pelada na revista Playboy" [sic].

A gestora pública, então, teria respondido que "o prefeito era para toda a cidade e não para algumas pessoas". Depois, ainda segundo o relato, ouviu o vereador chama-la de "vagabunda".

Cristófaro nega a versão da mulher e diz que não há provas contra ele.

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