Presidente da Funai é chamado de miliciano por indigenista e deixa evento na Espanha

*Arquivo* Atalaia do Norte, AM, 18.06.2021 - Base da Funai na entrada da terra indígena do Vale do Javari. (Foto: Lalo de Almeida/Folhapress)
*Arquivo* Atalaia do Norte, AM, 18.06.2021 - Base da Funai na entrada da terra indígena do Vale do Javari. (Foto: Lalo de Almeida/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O presidente da Funai (Fundação Nacional do Índio), Marcelo Xavier, abandonou um evento da Secretaria-Geral Ibero-Americana, em Madri, diante de um protesto feito contra ele nesta quinta-feira (21) por um indigenista.

Um vídeo mostra o ex-servidor Ricardo Rao, que hoje vive na Europa, levantando da plateia e fazendo acusações contra Xavier, que então deixa o local.

"Esse homem é um miliciano, não representa a Fundação Nacional do Índio. É um assassino, um miliciano, é amigo de um governo golpista que está ameaçando a democracia no Brasil", diz Rao.

"Ele é responsável pela morte de Bruno [Pereira] e Dom Phillips", declarou o indigenista. Marcelo Xavier, então, levanta-se e deixa o local após essa fala.

O episódio aconteceu durante assembleia da Filac (Fundo para o Desenvolvimento dos Povos Indígenas da América Latina e Caribe).

Após o caso, a Funai emitiu uma nota na qual "lamenta o ocorrido e destaca que tais atitudes são irresponsáveis, violentas e antidemocráticas, inviabilizando, assim, qualquer tipo de diálogo sadio e producente".

A entidade afirma que processará Rao e que as manifestações foram uma afronta ao Estado democrático de Direto. "Por motivos de segurança, o presidente da Funai optou por sair voluntariamente do local do evento, dada a atitude hostil e agressiva do manifestante."

Depois do evento, a ONG Survival International também organizou protestos contra Marcelo Xavier em Madri.

Ricardo Rao é um ex-servidor da Funai que, no fim de 2019, deixou o Brasil após receber ameaças, ser alvo de processos administrativos e também depois do assassinato do colega Maxiel Pereira —morto a tiros em Tabatinga (AM), no Vale do Javari.

A saída do país aconteceu logo após ele entregar um documento intitulado "Atuação miliciana conectada ao crime organizado madeireiro, ao narcotráfico e a homicídios cometidos contra os povos indígenas do Maranhão – Um breve dossiê" para a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.

Em entrevista ao portal Sul 21, o ex-servidor diz que foi abordado por agentes da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) enquanto vivia no Brasil.

"Outro evento da maior gravidade que me convenceu de que a situação estava especialmente perigosa [para mim] foi o envio de um destacamento da Abin [me abordar] na Funai, em 2019. [...] Um dia depois da Abin ter ido na Fundação Nacional do Índio, na rua Simplício Moreira, no centro de Imperatriz [Maranhão, onde ele atuava], a Funai abriu um processo administrativo-disciplinar contra mim", disse ao portal.

O caso de Rao é citado no dossiê publicado recentemente por servidores que denuncia uma política anti-indigenista dentro da fundação.

Segundo o documento, Xavier tem implementado, sob o governo Bolsonaro uma política marcada pela não demarcação de territórios, pela perseguição a servidores e lideranças indígenas e pela militarização de cargos estratégicos e a esvaziamento de quadros da entidade.

A mais recente greve dos servidores dos servidores da Funai pedia, dentre outras coisas, a saída do atual presidente. Também senadores e deputados já protocolaram documentos pedindo que ele deixe o cargo.

Xavier ainda coleciona à frente do órgão pedidos de investigação contra indígenas e defensores da pauta ambiental. A reportagem teve acesso a três solicitações feitas por ele à Polícia Federal e uma direcionada à Abin (Agência Brasileira de Inteligência).

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