Presidente da Funai acumula pedidos de investigação contra indígenas

***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 20.06.2022 - Manifestantes fazem ato em memória do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Philips, mortos por pescadores ilegais na região do Vale do Javari, no Amazonas. Com máscaras, simbolizando o presidente Jair Bolsonaro, e o presidente da Funai, Marcelo Xavier, os manifestantes criticam a política ambiental e indigenista do governo federal. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress) ORG XMIT: AGEN2206201922711880
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 20.06.2022 - Manifestantes fazem ato em memória do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Philips, mortos por pescadores ilegais na região do Vale do Javari, no Amazonas. Com máscaras, simbolizando o presidente Jair Bolsonaro, e o presidente da Funai, Marcelo Xavier, os manifestantes criticam a política ambiental e indigenista do governo federal. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress) ORG XMIT: AGEN2206201922711880

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O presidente da Funai (Fundação Nacional do Índio), Marcelo Augusto Xavier da Silva, coleciona à frente do órgão pedidos de investigação contra indígenas e defensores da pauta ambiental.

A Folha de S.Paulo teve acesso a três solicitações feitas por ele à Polícia Federal e uma direcionada à Abin (Agência Brasileira de Inteligência).

Xavier é delegado da PF e preside a Funai desde julho de 2019. Sua gestão é considerada alinhada às demandas de ruralistas e à proposta do presidente Jair Bolsonaro (PL) de barrar novas demarcações de terras indígenas.

Servidores da Funai anunciaram que entrarão em greve nesta quinta-feira (23). Uma das reivindicações é a saída de Xavier do cargo. Para a INA (Indigenistas Associados - Associação de Servidores da Funai), ele "vem promovendo uma gestão anti-indígena e anti-indigenista na instituição".

A Funai foi procurada pela reportagem, mas não houve resposta.

Xavier apresentou uma notícia-crime à PF em 2020 contra Almir Suruí, liderança do povo paiter suruí e coordenador-executivo do Parlaíndio (Parlamento Indígena do Brasil).

O pedido foi feito após a divulgação da "Campanha Paiter: Povos da Floresta contra Covid-19", com o objetivo de buscar contribuições para a distribuição de mantimentos para famílias do povo indígena paiter suruí durante a pandemia.

O ofício enviado pelo presidente da Funai diz que houve crimes de estelionato, a partir de suposta manipulação de informações com o fim de obter benefícios, e de difamação, por apresentar informações que em tese poderiam prejudicar a imagem da Funai.

Após um pedido de habeas corpus feito pela defesa de Suruí, o juiz federal Frederico Botelho de Barros Viana mandou trancar o inquérito. "Não há demonstração de existência de elementos probatórios e nem sequer indícios mínimos capazes de subsidiar qualquer tipo de ilícito", disse.

Segundo documento a que a Folha de S.Paulo teve acesso, Xavier também solicitou à Abin o monitoramento do povo paiter suruí. Para ele, foram divulgados dados inverídicos com relação ao enfrentamento da pandemia. A informação já tinha sido veiculada pela coluna do jornalista Rubens Valente, no UOL.

"Tendo em vista que a Atividade de Inteligência realizada por esta Agência Brasileira é fundamental e indispensável à segurança dos Estados, sociedade e instituições nacionais e atua no conhecimento antecipado de assuntos relacionados aos interesses nacionais, encaminho para monitoramento", disse no documento.

O presidente da Funai também apresentou uma notícia-crime à PF contra a Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) em 2020.

Ele narrou em seu ofício que a Apib, por meio da série de vídeos denominada "Agora é a Vez do Maracá", estaria culpando a administração Bolsonaro por genocídio. Alegou também disseminação de fake news e calúnia contra o governo federal e ainda crime de estelionato.

O ofício dizia também que a Apib havia difundido dados falsos para manipular a verdade acerca dos números de contágio e óbito relativos à Covid-19. Isso porque os dados divulgados divergiam dos apresentados pela Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena).

A coordenadora-executiva da Apib, Sonia Guajajara, chegou a ser convocada para prestar depoimento.

Após pedido de habeas corpus feito pela defesa da Apib, Viana também determinou o trancamento do inquérito em maio de 2021, argumentando que não há qualquer tipo de conduta que justificasse a abertura.

"A liberdade de manifestação do pensamento é direito fundamental que não apenas protege a esfera de direitos básicos do indivíduo em sua dimensão pessoal, mas que também viabiliza e compõem toda a estrutura democrática e republicana idealizada na Constituição Federal de 1988", disse.

A Folha de S.Paulo já tinha mostrado que o presidente da Funai provocou a abertura de um inquérito pela PF para investigar um procurador federal que atua na própria Funai e que elaborou um parecer jurídico a favor dos indígenas.

Xavier apresentou notícia-crime à PF em Brasília contra o procurador Ciro de Lopes e Barbuda, em razão do parecer elaborado pelo servidor vinculado à AGU (Advocacia-Geral da União) e com atuação na Funai.

O presidente da Funai acusou o procurador de apologia do crime, e essa iniciativa resultou na abertura de inquérito pela PF.

O Ministério Público Federal, porém, discordou da tramitação do procedimento, apontou crime de constrangimento ilegal na iniciativa do presidente da Funai e disse ser necessária imediata correção pelo Judiciário. O MPF pediu à Justiça Federal o arquivamento do caso.

Formado em direito, pós-graduado em ciências criminais, direito administrativo, direito constitucional e antropologia, Xavier foi indicado ao cargo por membros da bancada ruralista no Congresso.

Na Câmara, atuou como consultor da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) Funai e Incra, que teve início em 2016, momento em que foi bastante criticado por lideranças indígenas e organizações socioambientais.

Antes de ocupar a Presidência da Funai, Xavier foi ouvidor do órgão entre 2017 e 2018 . Em 2017, afirmou em uma reunião gravada entre diretores e servidores que ONGs são "canalhas", que a fundação fazia mal para os indígenas e que os servidores do órgão tinham "comprometimento ideológico". Na mesma reunião, ele sugeriu "expropriar" bens de servidores e ONGs.

A nomeação de Xavier foi considerada por entidades que representam os indígenas como uma intenção do governo Bolsonaro de enfraquecer a fundação.

Líderes indígenas dizem ter dificuldade de interlocução com Xavier.

"A gente tentou falar com ele em junho do ano passado no acampamento Levante pela Terra. Fomos em marcha porque ele disse que receberia algumas lideranças. Ele não nos recebeu e ficou combinado de falar no dia seguinte. Na ocasião, ele saiu da sala e deixou o pessoal conversando com os assistentes", afirma Guajajara.

Antes de viajar pela última vez à terra indígena Vale do Javari, no Amazonas, o indigenista Bruno Pereira concedeu uma entrevista à Folha de S.Paulo. Ele chegou a falar de forma indignada do presidente da Funai.

"O presidente [Jair Bolsonaro] não demarcou um centímetro como ele prometeu. O presidente da Funai, o [Marcelo] Xavier, está lá para isso. É a administração do caos. Não sei não [suspiro]. Difícil, cansativo, perigoso. Vamos simbora."

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