Presidente da Fundação Palmares decide tirar ‘machado de Xangô’ de logotipo: "Será trocado por símbolo não religioso"

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O presidente Jair Bolsonaro se encontrou com o presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, no gabinete da Presidência, em Brasília
O presidente Jair Bolsonaro se encontrou com o presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, no gabinete da Presidência, em Brasília (Foto: Reprodução)
  • O presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, anunciou que irá trocar o logotipo da entidade por um "símbolo não religioso", pois o Brasil é um estado laico

  • Segundo ele, a imagem atual é uma referência ao “machado de Xangô”, um dos orixás do Candomblé, que representa a Justiça

  • Sem dar detalhes, o presidente da fundação disse que a "esquerda" aplicou o símbolo do candomblé no logotipo

O presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, anunciou que irá trocar o logotipo da entidade por um "símbolo não religioso", pois o Brasil é um estado laico. Segundo ele, a imagem atual é uma referência ao “machado de Xangô”, um dos orixás do Candomblé, que representa a Justiça. 

Por este motivo, o presidente da fundação federal responsável pela promoção da cultura afro no país, decidiu realizar um concurso, com premiação em dinheiro, para escolher a nova marca da instituição.

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“A Fundação Cultural Palmares realizará, por meio de edital, concurso público para a mudança de seu logotipo. O ganhador receberá prêmio em dinheiro. O símbolo atual é o machado de Xangô (Candomblé), estilizado. O Estado brasileiro é laico. O nome Palmares permanecerá”, escreveu ele no Twitter.

Camargo disse também que não sabia o real significado do símbolo, pensando que era uma "palmeira estilizada".

“Muita gente, inclusive eu, achava que era uma palmeira estilizada. Mas é o machado de Xangô, informação que consta do documento que oficializou o símbolo”, disse ele.

O Diretor de Fomento e Promoção da Cultura Afro-brasileira na Fundação Cultural Palmares, Marcos Petrucelli, afirmou, também nas redes sociais, que o machado de Xangô é um "belo símbolo de importância cultural". No entanto, ele concordou com o presidente da fundação sobre a remoção da imagem.

"O logo é a representação do Machado de Xangô, referênca direta ao Candomblé — principal religião de matriz africana. Sem dúvida, um belo símbolo de importância cultural. No entanto, vivemos constitucionalmente sob um Estado Brasileiro laico", escreveu.

Escultura em bronze de Zumbi dos Palmares, herói da resistência negra contra a escravidão brasileira, instalada na Praça de Sé, em Salvador-BA (Imagem: Gorivero/Wikimedia Commos)
Escultura em bronze de Zumbi dos Palmares, herói da resistência negra contra a escravidão brasileira, instalada na Praça de Sé, em Salvador-BA (Imagem: Gorivero/Wikimedia Commos)

"A esquerda aplicou um símbolo do candomblé"

Além disso, Camargo fez ainda uma provocação ao que ele chamou de "esquerda". Sem dar detalhes, o presidente da fundação, aliado ao presidente da República Jair Bolsonaro (sem partido), disse que a "esquerda" aplicou o símbolo do candomblé no logotipo. 

"A esquerda insiste em lembrar que o Estado é laico sempre que o PR, no seu direito, faz alguma manifestação pessoal de caráter religioso. No entanto, aplicou um símbolo do Candomblé na logotipo da Palmares (machado de Xangô estilizado). Será trocado por simbólico não-religioso".

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A notícia da mudança do logotipo causou revolta em internautas que seguem a religião históricamente atacada no Brasil. nas redes sociais. Uma usuária do instagram escreveu que "confia na Justiça do orixá". 

"Confio na justiça ela vem exatamente dele Xangô. Uma hora chega", disse. "Tem de mudar o nome pra 'Afundação Palmares', essas pessoas estão levando tudo o que foi construído pro buraco", escreveu outro usuário.

Presidente da fundação já criticou Zumbi e pediu fim do movimento negro

Não é a primeira vez que Camargo se envolve em alguma polêmica como presidente da fundação. Em diversas oportunidades, o dirigente já criticou a figura de Zumbi dos Palmares — líder quilombola e o último dos líderes do Quilombo dos Palmares, o maior dos quilombos do período colonial, localizado em Alagoas — e pediu o fim do movimento negro.

Em 13 de maio do ano passado, dia em que a abolição da escravidão no Brasil completou 132 anos, ele tentou desqualificar a figura do líder negro que dá nome à instituição ao publicar artigos no site oficial da Fundação Palmares.

Segundo ele, os textos mostrariam "a verdade" sobre Zumbi dos Palmares, cuja morte motiva a celebração da Consciência Negra.

Racismo 'Nutella'

No dia 15 de setembro, Camargo publicou que no Brasil existe um racismo "nutella", ao contrário dos Estados Unidos, onde existiria um racismo "real". "A negrada daqui reclama porque é imbecil e desinformada pela esquerda", disse. Em 27 de agosto, havia escrito que a escravidão foi "terrível, mas benéfica para os descendentes" porque negros viveriam em condições melhores no Brasil do que na África.

Fim do movimento negro

No dia 16 do mesmo mês, afirmou que o movimento negro precisa ser "extinto" porque "não há salvação". Em outra ocasião, escreveu que "merece estátua, medalha e retrato em cédula o primeiro branco que meter um preto militante na cadeia por crime de racismo". Também já disse sentir "vergonha e asco da negrada militante".

Ofensas a personalidades negras

A lista de personalidades negras atacada por Camargo é grande. Ele disse ser favorável a que "alguns pretos sejam levados à força para a África", e cita Lázaro Ramos e Taís Araújo (classificada de "rainha do vitimismo") como exemplo. "Sugiro o Congo como destino. E que fiquem por lá!", disse. O sambista Martinho da Vila é outro que deveria "ser mandado para o Congo", por ser um "vagabundo". Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro assassinada a tiros, "não era negra" e era um "exemplo do que os negros não devem ser".

Angela Davis, uma das principais expoentes do feminismo negro, foi chamada de "baranga" e "mocreia". A cantora Preta Gil e a atriz Camila Pitanga foram chamadas de "ladras racistas" por, segundo ele, se dizerem negras "para faturar politicamente e fazer discurso vitimista". Os músicos Gilberto Gil, Leci Brandão, Mano Brown, Emicida e os deputados federais Talíria Petrone e David Miranda (ambos do PSOL-RJ) foram todos chamados de "parasitas da raça negra no Brasil".

Críticas ao funk

Além disso, o jornalista chamou a "macumba" — termo pejorativo utilizado para se referir a religiões de matriz africana — e o "funk carioca" de "desgraças do mundo" e disse que o hip-hop faz "apologia da maconha e do crime". Para ele, uma mulher negra que seja "feminista, lulista e afromimizenta não pode reclamar da 'solidão da mulher negra'", porque "ninguém é louco de encarar".

Perfil bloqueado

No último dia 9, Camargo indicou já saber da nomeação, ao escrever que estava "comemorando uma grande notícia" que seria "do interesse da direita conservadora e bolsonarista". "Algo que farei para dar minha contribuição ao Brasil", disse. A confirmação veio nesta quarta, mas no perfil de Maya Felix, que está marcada no Facebook como "em um relacionamento sério" com Camargo. Ela disse que o perfil de Camargo foi bloqueado e, por isso, publicou uma mensagem dele.

"Fui nomeado nesta quarta-feira presidente da Fundação Cultural Palmares, a convite do secretário especial da Cultura, Roberto Alvim. Assumir o cargo será uma grande honra e ao mesmo tempo um desafio! Grandes e necessárias mudanças serão implementadas na Fundação Palmares. Sou grato a Deus por essa oportunidade. Minha atuação à frente da Fundação será norteada pelos valores e princípios que elegeram e conduzem o governo Bolsonaro", diz o texto.

Piada com o AI-5

Camargo também já fez piada com o Ato Institucional nº 5 (AI-5), medida tomada durante a ditadura militar. No dia 1º de novembro, após o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) causar polêmica por levantar a possibilidade de um "novo AI-5", publicou uma foto de Bolsonaro com os seus quatro filhos, acompanhada da legenda "Aí, cinco". Em agosto, sugeriu que membros do PT sejam usados como cobaias em testes, no lugar de animais.

Camargo, conforme registro em sua rede social, é formado em jornalismo pela PUC de São Paulo, mas faz constantes ataques à imprensa. Em uma postagem do dia 31 de outubro, ele afirmou ter trabalhado no jornal "O Estado de S. Paulo". "Acabo de bloquear um dos últimos ex-colegas da redação do Estadão que me seguia. É um esquerdista. Não dá". No dia seguinte, escreveu: "É dever moral de todo direitista desacreditar artistas e jornalistas. São parasitas e inimigos do povo e querem a nossa desgraça."

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