Presidente da Palmares cria selo “não-racista” e recebe críticas do movimento negro

Presidente da Palmares cria selo “não-racista” e recebe críticas do movimento negro

Texto / Pedro Borges I Imagem / Reprodução Twitter

O presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Camargo, publicou nas redes sociais que o órgão desenvolverá o selo “não-racista”, para pessoas que foram “vítimas” de acusações “injusta” e criminosa por parte da “esquerda”.

Segundo o presidente, o selo está em desenvolvimento e o primeiro agraciado receberá o título ainda nesta semana.

O ex-presidente do órgão, Elói Ferreira, em entrevista ao Alma Preta, afirma que Sérgio Camargo é “um tosco besta-fera, que está cumprindo uma tarefa como se fosse um capitão do mato, de combater às resistências aos escravocratas”.

O antigo dirigente da instituição também acredita que Sérgio Camargo caminha no sentido oposto ao da história e que as políticas propostas pelo movimento negro serão vitoriosas. “Ele jamais será vitorioso, porque a roda da história não muda o sentido. Ela vai sempre em frente. Ele pode sim, nos atrasar na luta por reparação e por Igualdade de oportunidades, mas nossa vitória haverá de acontecer”.

A posição é compartilhada por outras organizações antirracistas entrevistadas pelo Alma Preta. Luka França, do Movimento Negro Unificado (MNU), acredita que a publicação não é uma novidade e se trata de mais uma tentativa de desvio de foco do parte de Sérgio Camargo.

“O que ele quer fazer mais uma vez é passar pano para o fato de que o governo do qual ele faz parte tem como projeto o nosso extermínio, além de apresentar de forma institucional uma ferramenta para diminuir as demandas e denúncias apresentadas pelo conjunto do movimento negro brasileiro”.

Juninho Junior, Círculo Palmarino, recorda que a Fundação Cultural Palmares foi criada para combater o mito da democracia racial. Para ele, Sérgio Camargo caminha no sentido contrário da função da pasta e por isso perderá a disputa política com o movimento negro.

“É o povo negro, a base do país, quem mudará a realidade. Enfrentar o racismo é enfrentar a estrutura de privilégios. Nesse momento nós precisamos evocar Solando Trindade. ‘Negros que escravizam negros na África não são meus irmãos; Negros nas Américas, a serviço do capital, não são meus irmãos’”.

O Alma Preta tem produzido uma série de reportagens especiais sobre a Fundação Cultural Palmares. O órgão demitiu funcionários durante a pandemia da Covid-19, e as reuniões do órgão têm sido descritas por funcionários como encontros da KKK, grupo supremacista branco dos EUA. Existem ações por parte da sociedade civil na justiça brasileira para a retirada de Sérgio Camargo do órgão, com o principal argumento de improbidade administrativa.