Presidente do Peru pede trégua em protestos

A presidente do Peru, Dina Boluarte, pediu nesta terça-feira (24) "uma trégua nacional" e "a criação de mesas de diálogo" para apaziguar os protestos que pedem a sua renúncia, que já deixaram 46 mortos em cinco semanas.

"Convoco a minha querida pátria para uma trégua nacional para poder estabelecer mesas de diálogo, para poder fixar a agenda por cada região e desenvolver nossos povos. Não me cansarei de convocar o diálogo, a paz e a unidade", disse Dina em uma entrevista coletiva para a imprensa estrangeira no Palácio de Governo, em Lima.

Dina reiterou, várias vezes, seu "lamento pelos mortos" nos protestos, que são pelo menos 46 diretamente relacionados com as manifestações, que foram retomadas em 4 de janeiro no sul do Peru e mantêm bloqueios nas principais estradas do país. Além disso, voltou a descartar uma renúncia.

"Sairei quando tivermos convocado as eleições gerais [...] Não tenho a intenção de permanecer no poder", disse Dina de maneira taxativa, acrescentando que o Congresso, "sem sombra de dúvida", confirmará em fevereiro a antecipação das eleições, previstas para abril de 2024.

"Minha renúncia resolveria a crise e a violência? Quem assumiria a Presidência da República?", questionou a presidente, diante das perguntas dos jornalistas sobre sua permanência no cargo.

Um novo dia de protestos, ainda mais desafiadores do que os dos últimos dias, com a chegada anunciada de novos contingentes, foi convocado em Lima.

As manifestações começaram depois da destituição e prisão do ex-presidente de esquerda Pedro Castillo, em 7 de dezembro, após uma tentativa fracassada de dissolver o Parlamento - controlado pela direita - que estava prestes a removê-lo do poder por suspeita de corrupção.

A crise social também é um reflexo da enorme lacuna entre a capital e as províncias andinas mais pobres do sul, que apoiaram Castillo - que tem ascendência indígena - nas eleições de 2021.

- Um golpe por conveniência -

Dina enfatizou que ocupa a presidência por mandato constitucional e atribuiu a versão de que deu um golpe no ex-presidente Castillo a uma "narrativa de grupos radicais de pessoas baseada no narcotráfico, garimpo ilegal e contrabando", que, segundo ela, também estariam por trás dos protestos violentos.

"A única verdade, senhores do mundo e do Peru, é que houve um golpe de Estado em 7 de dezembro, um golpe fracassado", afirmou Dina. "A forma como Pedro Castillo saiu é uma forma de se vitimizar para dizer que houve um golpe de Estado - quando ele foi o autor do seu próprio golpe de Estado - e para não sair por pressão dos 57 processos fiscais que enfrenta por atos de corrupção", criticou.

"Era conveniente para Castillo dar um autogolpe de Estado, para se vitimizar e mobilizar todo esse aparato paramilitar e não responder ao Ministério Público pelos atos de corrupção pelos quais está sendo denunciado. Aqui não há nenhuma vítima, senhor Castillo, aqui há um país que sangra até a morte como resultado da sua irresponsabilidade", denunciou a presidente.

- 'Com a verdade' perante a OEA -

Dina, que participará remotamente amanhã de uma sessão perante a Organização de Estados Americanos (OEA), disse que sua intenção é "informar a verdade". "O governo peruano, muito menos Dina Boluarte, tem algo a esconder. Sempre falei a verdade, encarando meus irmãos e irmãs. São 50 pessoas mortas nesses atos de protesto, dói em mim, como mulher, mãe e filha", declarou.

Segundo autoridades dos transportes, 85 piquetes bloqueavam hoje estradas em 9 das 25 regiões peruanas que pedem a renúncia da presidente. Na região de Ica, a polícia usava gás lacrimogêneo para desbloquear trechos de rodovia que permaneciam fechados por dezenas de moradores.

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