Para presidente, sul-africanos ainda 'não são livres'

Por Antoine DEMAISON
Presidente sul-africano Cyril Ramaphosa discursa em 27 de abril de 2019

Vinte e cinco anos atrás, a África do Sul organizava suas primeiras eleições democráticas, encerrando o apartheid. Um quarto de século depois, no entanto, a população "não está livre" por causa da pobreza que assola o país, lamentou o presidente Cyril Ramaphosa.

"Estamos aqui para celebrar o dia em que conquistamos nossa liberdade", disse Cyril Ramaphosa durante um discurso por ocasião do Dia da Liberdade.

Em 27 de abril de 1994, os negros sul-africanos, representando três quartos da população, foram às urnas para votar pela primeira vez, às vezes enfrentando filas de vários quilômetros.

Estas eleições levaram ao poder Nelson Mandela, o herói da luta contra o apartheid e o primeiro presidente negro sul-africano eleito democraticamente, terminando assim três séculos de dominação branca e o regime racista do apartheid em vigor desde 1948.

"Lembramos aquele momento em que marcamos o boletim de voto pela primeira vez em nossas vidas", testemunhou Cyril Ramaphosa em Makhanda (sul, antiga Grahamstown), epicentro de uma batalha vencida por Makhanda, guerreiro da etnia xhosa, contra os britânicos em 1819.

No entanto, Ramaphosa ressaltou que "não podemos ser uma nação livre, enquanto tantas pessoas viverem na pobreza (...), não tendo o suficiente para comer, sem telhado digno do nome, sem acesso a serviços de saúde de qualidade".

Entre 2011 e 2015, 3 milhões de sul-africanos caíram na pobreza, segundo o Banco Mundial. O desemprego continua a atormentar a principal potência industrial do continente e atualmente afeta 27% de sua força de trabalho, ante 20% em 1994.

"Não podemos ser uma nação livre enquanto os fundos para os pobres forem desperdiçados, perdidos ou roubados", acrescentou o chefe de Estado e presidente do Congresso Nacional Africano (ANC), no poder desde 1994.

Cyril Ramaphosa, no poder desde 2018, fez do combate à corrupção uma de suas prioridades após suceder Jacob Zuma, mergulhado em escândalos.

A África do Sul é "um país ainda profundamente desigual (...), as disparidades são fortes entre ricos e pobres (...), entre quem tem emprego e quem está desempregado", denunciou o chefe de Estado, em plena campanha eleitoral.

Desde 1994, a desigualdade aumentou na África do Sul, tornando-a uma das sociedades mais desiguais do mundo, de acordo com o Banco Mundial.

Apesar do surgimento de uma classe média, 20% dos agregados familiares negros vivem em extrema pobreza, em comparação com 2,9% dos agregados familiares brancos, de acordo com o Instituto Sul-Africano de Relações Raciais (IRR).

"Combatemos o apartheid juntos e triunfamos. Juntos, devemos enfrentar os desafios atuais", disse o presidente Ramaphosa, cerca de dez dias antes das eleições legislativas e regionais, pedindo "esforços para garantir que todos os sul-africanos desfrutem dos benefícios econômicos e sociais inerentes à liberdade".

Um discurso que encontrou um forte eco entre a população de Makhanda.

"Não há nada como a liberdade", disse um morador de Makhanda, de 31 anos, Vuyiswa. "Estamos desempregados, sem moradia, sem água", afirmou à AFP.

"As mulheres mais velhas têm que fazer suas necessidades em baldes e descartar o conteúdo durante a noite, isso não é seguro", denunciou. "Ainda estamos no apartheid".

"Em 8 de maio, milhões de sul-africanos voltarão a exercer seu direito de voto duramente conquistados", concluiu Cyril Ramaphosa. "Como aqueles que foram às urnas pela primeira vez em 1994, eles terão em suas mãos o destino de nossa nação", acrescentou.

Segundo as pesquisas, o ANC deve manter a maioria dos assentos no parlamento.