Presidente turco assume risco de escalada com Israel

Por Ezzedine SAID
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O presidente turco Recep Tayyip Erdogan durante reunião com o presidente grego, em Atenas, no dia 7 de dezembro de 2017

Com suas críticas a Israel desde que os Estados Unidos reconheceram Jerusalém como a capital do Estado hebreu, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, espera tirar vantagem eleitoral, mas isso poderá prejudicar suas relações com os israelenses, segundo os analistas.

Erdogan se tornou o porta-voz da oposição dos países muçulmanos à medida anunciada em 6 de dezembro pelo presidente americano, Donald Trump, a quem criticou duramente, antes de dirigir sua ira para Israel, qualificando o Estado de "terrorista" e assassino de crianças palestinas.

O primeiro-ministro israelense respondeu que "não tem que receber lição de moral de um dirigente que bombardeia povoados curdos na Turquia, prende jornalistas, ajuda o Irã a evitar sanções internacionais e ajuda terroristas, especialmente em Gaza".

Erdogan prometeu que a cúpula de líderes do mundo muçulmano que acontece na quarta-feira em Istambul será um "marco" contra a decisão de Washington, apesar dos pesos-pesados da região, como Arábia Saudita e Egito, terem se limitado a meras condenações e sem anunciar nenhuma medida concreta.

"Esta posição (de Erdogan) está em concordância com o sentimento dominante de seus próprios eleitores na Turquia", assegura Marc Pierini, pesquisador do Carnegie Europe e ex-embaixador da União Europeia (UE) na Turquia.

Erdogan, originário dos meios islâmico-conservadores, normalmente critica Israel e não esconde o seu apoio ao movimento islamita palestino Hamas, inimigo deste país. Isso lhe permitiu ganhar popularidade no mundo árabe e muçulmano.

Mas essas críticas são feitas quando Turquia e Israel realizam um processo de normalização de suas relações, iniciado no ano passado após a quase ruptura diplomática em 2010, depois de um violento bombardeio israelense contra a embarcação de uma ONG turca que se dirigia para Gaza.

- 'Não se gostam' -

"Levando em conta a reação israelense, a normalização turco-israelense efetivamente corre um sério risco. Um risco assumido pelas duas partes", opina Pierini.

Segundo Aaron Stein, do Altantic Council, Erdogan já pensa nas eleições de novembro de 2019, nas quais aspirará a um novo mandato presidencial com poderes reforçados, graças a um referendo que ganhou em abril.

"Erdogan já está em campanha para 2019, para conseguir a Presidência reforçada que concebeu para si mesmo", disse.

Ao se colocar em primeiro plano no caso sobre Jerusalém, Erdogan "se apresenta como defensor dos muçulmanos oprimidos em todo o mundo", acrescenta.

"As duas partes (Israel e Turquia) não se gostam, mas isso não impede que tenham relações comerciais normais. Isso durará devido aos cálculos políticos de Erdogan e aos problemas políticos e jurídicos de Netanyahu" em seu próprio país, resume o especialista.

Sinan Ülgen, presidente do Center for Economics and Foreign Policy (Edam), com sede em Istambul, considera que a retórica de Erdogan sobre Jerusalém reflete uma mudança de foco no que diz respeito à política exterior, desde a chegada ao poder em 2002 de seu partido islâmico-conservador, o AKP.

"Tradicionalmente, a Turquia era capaz de exercer uma diplomacia independente de considerações de política interior. Mas isso mudou de forma radical, até tal ponto que a maioria das decisões de política exterior estão motivadas por cálculos de índole doméstica", explica.

"Sob este prisma, devem compreender os esforços turcos de fazer campanha contra a decisão americana sobre Jerusalém", apesar do risco de provocar uma nova crise diplomática com Israel.

"Mais uma vez, as considerações de política interior tendem a prevalecer sobre uma diplomacia prudente", constata Ülgen.