Presidente uruguaio vota e diz se orgulhar de tolerância do país

SYLVIA COLOMBO
MONTEVIDÉU, URUGUAI, 03.03.2005 - O presidente do Uruguai, Tabaré Vazquez, durante entrevista coletiva concedida a jornalistas estrangeiros no Palácio de Governo, em Montevidéu, capital do país. (Foto de Sérgio Lima/Folhapress)

MONTEVIDÉU, URUGUAI (FOLHAPRESS) - Um dos primeiros dirigentes a votar no segundo turno do Uruguai neste domingo (24) foi o sempre pontual Tabaré Vázquez, da Frente Ampla, atual presidente do país.

Ao sair de sua casa, às 7h30, encontrou apoiadores com uma faixa que dizia "gracias, Tabaré", o que fez com que seus olhos se enchessem de lágrimas.

Vázquez, 79, termina seu segundo mandato à frente do país --entre os dois termos, José "Pepe" Mujica dirigiu o país-- em meio ao tratamento de um câncer de pulmão e após a morte de sua mulher. "Foram cinco anos difíceis", admitiu.

Como sempre, votou no bairro de La Teja, na sede do Club Progreso, equipe de futebol tradicional de Montevidéu.

Formado por imigrantes e filhos de imigrantes republicanos fugidos da Guerra Civil Espanhola (1936-1939), o clube já teve Vázquez como presidente no passado.

Na saída, Vázquez, que faz parte da ala socialista da Frente Ampla --diferente da de Mujica, a dos ex-tupamaros--, disse confiar numa vitória de Daniel Martínez, embora haja uma distância de 5 a 7 pontos de vantagem em favor de Luis Lacalle Pou, de acordo com as pesquisas de intenção de voto.

Porém, afirmou que não seria um problema caso o partido deixe o poder após 15 anos, em uma eventual derrota para o candidato do Partido Nacional, de centro-direita. O atual presidente disse que "não deve haver drama" e que trabalhará junto em uma transição.

"Olhando para a região e vendo o Uruguai, me orgulho de como este governo vai deixar o país. Ontem recebi uma ligação de Julio María Sanguinetti [ex-presidente do Partido Colorado], em que disse que se orgulhava do nosso país, em um momento em que a América Latina está tão convulsionada", disse Vázquez. 

"E que, no meio disso, estejamos atravessando uma campanha eleitoral e uma eventual mudança de governo com tanta paz e tolerância. Nós, uruguaios, temos de ter orgulho do país que somos e que construímos."

A atual vice-presidente, Lucía Topolansky, mulher do ex-presidente Mujica, fez declarações no mesmo tom, dizendo que "o Uruguai é um país sui generis no continente, e este é o nosso principal valor". "Não podemos perdê-lo." 

Topolansky foi ao local onde vota no mesmo Fusca azul utilizado por seu marido. Ao votar, Mujica foi discreto e disse apenas que estava "emocionado, com uma emoção que vai além desta eleição".

"Tem a ver com recordações e uma nostalgia, com a memória de todos os tropeços e dificuldades que tivemos para chegar a isso."

Já o favorito para vencer o pleito, Luis Lacalle Pou, chegou a seu posto de votação, em Canelones, acompanhado de muitos militantes.

Disse ser o "candidato de cinco partidos, portanto tenho uma responsabilidade enorme com a conciliação". Além disso, fez muitas selfies com apoiadores, esquivou-se de repórteres e percorreu outros pontos de votação da região, seu reduto eleitoral.

Esta é a segunda tentativa de Lacalle Pou de chegar à Presidência. Ele perdeu no segundo turno para Tabaré Vázquez, em 2014.

As imagens de grupos de apoiadores da Frente Ampla e do partido Nacional confraternizando, em batucadas e cantando juntos o hino do país viralizaram nos últimos dias nas redes sociais. Mas elas foram bastante comuns ao longo da última semana. Algumas até com coreografias ensaiadas.

"Por que não celebrar nossa democracia antes de tudo? Teríamos medo se aparecesse com força uma alternativa política que provocasse divisão, não é o caso nesse momento", diz Luiz Valverde, 32.

"Mudanças são boas, são democráticas", completou o jovem publicitário, que usava a camiseta de campanha de Lacalle Pou, branca, com os dizeres, em azul celeste "está bueno cambiar" (está bom mudar).

Na mesma manifestação, Felisa Giménez, 63, admitiu que prefere ver o candidato da Frente Ampla vitorioso.

"Mas se isso não for possível, tudo bem. Estaremos vigilantes. Medo mesmo eu tenho de um ex-general, como Manini Ríos [que integra a base de apoio de Lacalle Pou], com muito poder nesse governo", disse ela.

"Isso sim seria um mudança para um mau caminho, a que os uruguaios não querem voltar a trilhar porque lembra nossa ditadura. De resto, nós conhecemos os 'blancos', não vai ser muito diferente e é bom porque eles vão saber como endireitar a nossa economia."