Preso encontrado morto após tentar fugir vestido de mulher já ameaçou criança

ANA LUIZA ALBUQUERQUE E DIEGO GARCIA

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) -  Ainda faltavam 15 anos para que o presidiário Clauvino da Silva, 42, encontrado morto em sua cela na manhã desta terça-feira (6), enforcado com um lençol, pudesse progredir de regime. 

No sábado (3), Clauvino tentou fugir do Complexo de Gericinó, no Rio, utilizando uma máscara de látex, peruca e roupas da filha. Não deu certo: foi detido por agentes penitenciários e transferido de Bangu 3 para Bangu 1.

Foi o fim de uma vida marcada por passagens pela polícia. A ficha criminal de Clauvino, ao qual a reportagem a teve acesso, possui mais de 10 páginas. Ele foi condenado a mais de 70 anos de prisão por crimes como tráfico de drogas, latrocínio e roubo qualificado.

Em uma dessas ocasiões, em 2001, invadiu a residência de um caseiro e sua família, em Angra dos Reis, e com emprego de grave ameaça e com a ajuda de um comparsa roubou itens de valor. O Ministério Público ressaltou em denúncia que os criminosos impuseram "enorme terror" às vítimas.

Segundo elas narraram, a todo o momento Clauvino e o comparsa diziam que estuprariam a mulher e a filha do casal, de cinco anos, que dormia. Clauvino teria encostado a arma na cabeça da criança e desferido coronhadas contra o caseiro. A invasão durou cerca de cinco horas.

"Os denunciados a todo tempo usaram de violência e ameaças de morte, tendo imposto enorme terror às vítimas, bem como tendo permanecido na casa por cerca de seis horas, impondo o seu terror, e ainda fazendo o uso de drogas", escreveu o promotor de Justiça Henrique Paiva Araújo, em petição do Ministério Público de novembro de 2010.

Foram roubados máquinas fotográficas, forno de microondas, joias, roupas de mergulho, sapatos, aparelhos de vídeo e som, garrafas de whisky e vodka, jogos de jantar, copos, blusas de frio, talões de cheques e R$ 60 em espécie.

 O caseiro tinha uma arma de fogo na casa, que foi entregue aos criminosos durante o assalto. Ele contou que levou várias coronhadas do bandido mais baixo --o apelido de Clauvino era "Baixinho".

Clauvino confessou o crime em interrogatório. Em 2013, uma das vítimas ainda o reconheceu como um dos autores do assalto. No ano seguinte, foi condenado a 5 anos, sete meses e seis dias de prisão. 

PROBLEMAS COM O COMANDO VERMELHO

Em Bangu 3, Clauvino ficava na galeria B7, destinada às lideranças do CV (Comando Vermelho), onde circulava livremente. Já em Bangu 1, há apenas celas individuais, de onde os presos saem somente para o banho de sol. A transferência foi uma forma de castigá-lo por tentar fugir.

Com décadas de experiência nas prisões do Rio, um agente penitenciário com quem a reportagem conversou sob condição de anonimato diz acreditar que uma das hipóteses para a morte de Clauvino seria a existência de problemas com o CV. 

Se estivesse marcado pela facção, sua família estaria ameaçada e ele poderia ser submetido a uma morte dolorosa quando voltasse para Bangu 3.

Segundo esta teoria, desesperado, Clauvino tentou escapar da prisão de forma muito arriscada. Quando o plano deu errado, só viu como saída o suicídio.

Um antigo advogado do presidiário ficou surpreso quando a reportagem contou que Clauvino pode ter se matado. Afirmou que seu cliente gostava muito de viver e que era muito animado.

O advogado, que não quis se identificar, disse que Clauvino era muito ligado à família e que não conseguiu oportunidade de trabalho, tendo permanecido no crime.

Em nota, a Seap (Secretaria de Estado de Administração Penitenciária) informou que será instaurada uma sindicância para apurar os fatos. A Polícia Civil também está investigando o caso. 

A reportagem tentou contato com o governo do Estado, mas não obteve resposta. O Ministério Público disse que o Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Execução Penal está acompanhando o desenrolar dos acontecimentos e aguarda apuração administrativa a cargo da Seap e do inquérito policial a ser instaurado pela Polícia Civil.

A reportagem procurou a filha de Clauvino, Ana Gabriele Leandro da Silva, 19, que não quis falar sobre o pai. Ela responderá por facilitação de fuga por supostamente tê-lo ajudado a tentar escapar da prisão.

FUGA PELO ESGOTO

Clauvino já havia fugido do presídio em fevereiro de 2013, quando um grupo de cerca de 30 presidiários conseguiu escapar pelo esgoto. Ele cumpria pena desde 2001.

Foi encontrado um mês depois e preso após uma tentativa de invasão do morro da Fortaleza, em Angra. Ele e mais três pessoas, todas envolvidas com tráfico de drogas, assaltos e homicídios, foram detidos com 237 g de maconha e 453 g de cocaína. 

No ato da prisão, os presos tinham em mãos três pistolas e dois revólveres, acompanhadas de nove carregadores, com 62 tiros, e outras 66 munições.

Preso em flagrante, um de seus comparsas, também foragido, confirmou que eles estavam reunidos para matar o irmão de uma vítima, Kevin, assassinado dias antes no morro da Fortaleza. Também disse que a investida para tirar a vida dessa segunda pessoa ocasionou luta corporal e troca de tiros.

"Os denunciados associaram-se em bando armado para o fim de cometer crimes hediondos, como o homicídio de Kevin e seu irmão, o que gerou tentativa de homicídio", escreveu em denúncia a promotoria de Angra dos Reis.

Nesse processo, o último, Clauvino foi condenado a 12 anos de prisão por tráfico de drogas e associação para o tráfico.