Preso pelo assassinato de PM por 'jeito de pilotar', motoboy negro é absolvido

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O motoboy Caique Augusto Araújo Gomes e sua mãe Adriana Ozorio de Araújo, no momento em que ele foi solto. Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal
O motoboy Caique Augusto Araújo Gomes e sua mãe Adriana Ozorio de Araújo, no momento em que ele foi solto. Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal
  • Jovem foi 'reconhecido' por testemunha por conta de vídeo na internet

  • Defesa mostrou que ele estava a 10 km do local do crime

  • Ele ficou detido um ano

O motoboy Caique Augusto Araújo Gomes, de 22 anos, foi absolvido pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ-SP) e ganhou liberdade nesta quinta-feira (2). Ele foi condenado indevidamente a 22 anos e 6 meses de prisão pelo assassinato do policial militar Demontie Pereira Leite, 35, no Capão Redondo, periferia da zona sul de São Paulo. Ele estava preso desde dezembro de 2020.

O jovem negro teve a absolvição em segunda instância emitida nesta terça-feira (30), depois da condenação ter se baseado, na primeira instância, somente no depoimento de uma pessoa que não testemunhou o crime. A testemunha deu um depoimento com base em um vídeo das redes sociais no qual Gomes pilota uma moto, afirmando que reconheceu o veículo que o jovem tinha um “jeito de pilotar” parecido com o do assassino. As informações são do portal UOL.

Na nova decisão, os desembargadores chegaram ao entendimento que não havia provas suficientes contra o motoboy. "[A prova] é de extrema fragilidade", aponta um trecho da decisão do TJ-SP. Preso erroneamente há quase um ano, Gomes perdeu o primeiro ano de vida da única filha.

"Nem mesmo os policiais militares que tiveram acesso ao vídeo gravado pelas câmeras de segurança, logo após o crime, foram capazes de identificar a motocicleta utilizada no crime e seus ocupantes, já que, reitera-se, as imagens não mostravam a placa do veículo e nem os rostos dos dois ocupantes que estavam de capacetes", afirmou a juíza Flávia Gomes.

O policial foi morto no dia 11 de outubro do ano passado, depois de uma tentativa de roubo em uma rua próxima à residência de Gomes. O agente foi abordado por duas pessoas em uma moto Honda preta, reagiu e foi atingido por dois tiros. Ele morreu no local e os assaltantes fugiram, levando a arma do policial.

Depois do depoimento da testemunha, Gomes foi preso em sua casa no dia 16 de dezembro. A condenação veio em junho deste ano: 22 anos e 6 meses de reclusão, em regime inicial fechado. Ele ficou desde então na Penitenciária de Assis, no interior de São Paulo.

"É no mínimo desumano manter alguém preso por tantos meses com base em uma denúncia anônima tão frágil, e por um crime tão grave e cruel. Como pode ser possível reconhecer alguém usando capacetes, imagens de circuitos de segurança desfocada, com qualidade péssima e em vídeos circulando por redes sociais?", declarou o advogado do motoboy, Francisco Manso. "A Justiça foi feita e mais um inocente deixará a prisão".

A defesa de Gomes mostrou também que no momento do crime ele estava em um baile funk na favela de Paraisópolis, a cerca de 10 km do local do assassinato. Como prova, foi apresentada a geolocalização do celular do motoboy, apreendido pela polícia no ato da sua prisão.

A juíza entendeu, no entanto, que o argumento não era válido, pois na casa onde Gomes vivia com a família havia outros celulares, e qualquer um poderia ser usado por ele. Esse entendimento foi considerado frágil pelo Ministério Público, que disse que a geolocalização é uma "perícia imprescindível para comprovar a localização do acusado no momento do crime".

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