Pressão internacional aumenta sobre a junta militar de Mianmar

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Policiais diante de manifestantes em Yangon em 22 de fevereiro de 2021

Os militares que deram o golpe de Estado em Mianmar estão sob uma crescente pressão internacional, com uma condenação do G7 nesta terça-feira (23), após as sanções anunciadas na véspera por Estados Unidos e União Europeia (UE), e as maiores manifestações de protesto desde o golpe de 1º de fevereiro.

As autoridades birmanesas intensificaram nas últimas três semanas a repressão ao movimento pró-democracia.

Até o momento três manifestantes morreram, assim como um homem que patrulhava as ruas para evitar detenções em massa em um bairro de Yangon.

"Usar munição letal contra pessoas desarmadas é inaceitável. Qualquer um que responda a protestos pacíficos com violência deve prestar contas", afirmaram nesta terça-feira os ministros das Relações Exteriores do G7, grupo que inclui Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Reino Unido e Estados Unidos, assim como um representante da diplomacia da União Europeia.

"Condenamos a intimidação e opressão daqueles que se opõem ao golpe. Manifestamos nossa preocupação com a repressão da liberdade de expressão, incluindo o corte da internet e mudanças draconianas na lei que reprime a liberdade de expressão", acrescenta o comunicado do G7.

Algumas horas antes, o governo dos Estados Unidos anunciou sanções contra outros dois líderes da junta militar birmanesa que derrubou o governo civil de Aung San Suu Kyi: o general Maung Maung Kyaw, que comanda a Força Aérea, e o tenente-general Moe Myint Tun.

Washington já havia adotado há 10 dias uma série de medidas similares contra vários membros da junta que está no poder, incluindo seu chefe, o general Min Aung Hlaing.

"Não hesitaremos em tomar novas medidas contra aqueles que cometem violência e anulam a vontade do povo", afirmou o chefe da diplomacia americana, Antony Blinken.

O anúncio de Washington aconteceu horas depois de a UE decidir impor sanções contra os ativos econômicos e financeiros dos militares responsáveis pelo golpe.

"Está suspensa toda a ajuda financeira direta (...) para os programas de reforma do governo", afirmou o chefe da diplomacia europeia Josep Borrell.

"As sanções sempre podem afetar os habitantes locais, o que devemos evitar. Mas sanções específicas são necessárias já que precisamos de uma grande pressão contra o golpe de Estado", declarou a enviada da ONU em Mianmar, Christine Schraner Burgener, à rede France 24.

Ela fará um relatório sobre a situação na sexta-feira durante uma reunião especial da Assembleia Geral da ONU dedicada à Mianmar, informou o serviço de comunicação nesta terça-feira.

- Manifestações -

As sanções foram anunciadas depois que o Exército birmanês utilizou balas de borracha, gás lacrimogêneo, jatos de água e, às vezes, munição letal contra os manifestantes.

Também mobilizou mais agentes nas ruas de Yangon, a principal cidade do país e sua capital econômica.

O objetivo era evitar a concentração dos manifestantes e a instalação de barricadas nos cruzamentos e avenidas que levam às embaixadas.

Desde o golpe de Estado, mais de 696 pessoas foram detidas, acusadas ou condenadas, segundo uma ONG que ajuda os presos políticos. Quase todas permanecem presas.

Os cortes de internet noturnos, ordenados pela junta, provocam os temores de que as autoridades aproveitem o momento para organizar detenções em massa de ativistas pró-democracia.

Até o momento, as medidas adotadas pela junta não desencorajaram os manifestantes. Muitos deles são funcionários públicos, empregados de bancos, profissionais da saúde ou trabalhadores de obras públicas que pararam de trabalhar em solidariedade aos protestos.

Nesta terça-feira, as manifestações prosseguiram em todo o país, inclusive na capital econômica Yangon, onde a mobilização foi menor que nos dias anteriores.

O Centro de Justiça de Naipyidó para assistência jurídica informou que colaborou para a libertação de cerca de 20 manifestantes nesta terça-feira.

"Os militares sempre ganharam utilizando a força e não gosto disso", afirmou Chan Mya, uma manifestante, que garantiu: "continuaremos protestando".

Em Mandalay, segunda maior cidade do país, uma multidão compareceu ao funeral de Thet Naing Win, um homem de 37 anos que morreu no sábado quando as forças de segurança abriram fogo contra manifestantes.

No domingo, a junta ameaçou usar força letal para acabar com a "anarquia", advertindo os manifestantes que eles corriam o risco de morrer.

Neste contexto de grande tensão, as autoridades da Malásia decidiram nesta terça-feira expulsar para Mianmar cerca de 1.000 migrantes, apesar de uma ordem que pediu para interromperem esta decisão.

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