Pressionado por bares e restaurantes, governo de SP deve flexibilizar quarentena nesta quarta

Ana Letícia Leão
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Abrasel/Divulgação

SÃO PAULO - O relaxamento da quarentena em São Paulo, previsto para ser anunciado nesta quarta-feira (3), é justificado oficialmente pelo governo paulista por uma queda nas taxas de ocupação de UTI de pacientes com Covid-19. No entanto, o recuo é de apenas 3% em seis dias. A decisão do governo foi tomada em meio a pressão de donos de bares e restaurantes para uma retomada organizada das atividades. A pressão é admitida publicamente pelos próprios donos dos estabelecimentos, que na terça realizaram um protesto no Masp para pedir a volta das atividades.

Na segunda, o governador João Doria já havia anunciado que o estado deverá suspender a fase vermelha durante os fins de semana, alegando que a taxa de ocupação de UTIs na Grande SP passou de 71% em 25 de janeiro - quando foi dito que só serviços essenciais poderiam funcionar após as 20h e aos fins de semana - a 68% segundo a última atualização. A reclassificação foi, inclusive, antecipada. Antes, estava prevista para ocorrer em 7 de fevereiro.Vacinação:Vacina Sputnik V tem eficácia de 91,6% contra Covid-19, indica estudo

De acordo com Percival Maricato, presidente do Conselho Estadual da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes de São Paulo (Abrasel-SP), houve uma reunião da entidade com secretários do governo paulista na última semana, na qual eles pediram a volta das atividades.

— Argumentaram que iriam estudar o caso, mas ainda não deram parecer. A pressão é natural, é uma categoria imensa, de dezenas de milhares de empresários. Todo mundo preocupado, perdendo emprego. Claro que vai haver pressão sempre — disse Maricato.Maricato disse esperar "sensatez" do governo ao rever as regras para o setor econômico nesta quarta-feira.

— A nossa expectativa não é de recuo (da quarentena), mas de sensatez do governo. Espero que se resolva esse problema e que possamos abrir com os protocolos e algumas restrições — diz Maricato. — Já está demonstrado que se tem coisas que não pioram a pandemia são pessoas distanciadas, álcool em gel e medição de temperatura. Bares e restaurantes estão cumprindo os protocolos. O que não tem protocolo é feirinha de madrugada, pancadão, torcida de futebol. Esse abre e fecha traz insegurança e muito prejuízo, porque a gente não consegue ter previsibilidade Leia mais:Índice de contágio pelo coronavírus no Brasil se mantém alto, aponta Imperial College

O endurecimento da quarentena em São Paulo de fato só durou um final de semana, nos dias 30 e 31 de fevereiro. Nos dias de semana, desde 25 de janeiro, o estado está na fase laranja durante o dia, entrando na regra mais rígida (fase vermelha) apenas das 20h às 6h. Aos finais de semana, o fechamento é total. A ideia é que a regra vigorasse até próximo dia 7, mas a expectativa é de antecipação.

Cardápio 'pela metade'

A indefinição de uma clara estratégia e orientação do governo em relação ao enfrentamento da pandemia por donos de bares e restaurantes é vista como "o maior problema". Leonel Paim, proprietário do restaurante Osteria Generale, com três unidades na capital, alega que o setor está "no escuro".

— A gente não consegue se programar, não pode demitir, não pode estocar, nem deixar de fazer pedidos. Quando nos programamos para o final de semana, o que já aconteceu mais de uma vez, tudo foge da programação. Às vezes você está estocado para trabalhar, e eles dizem que vai fechar. Se está fechado, eles falam para abrir. Estamos totalmente no escuro. Não existe uma consulta com o ramo — critica o empresário.Rio: Crise elimina 30% dos postos de trabalho em bares e restaurantes

Sem saber como será o funcionamento do setor nos próximos dias ou meses, Paim critica o governo e diz que terá que servir "cardápio pela metade" se for autorizado a abrir no próximo fim de semana.

— A gente não acredita nas coisas que o governo fala. A impressão que dá é que ele (o governador) quer aparecer, tanto para dizer que vai fechar, ou reabrir, ou fechar de novo. Nessa indefinição, nem conseguimos fazer nosso trabalho direito. (Se abrir sábado), com certeza vou servir o cardápio pela metade. Peço desculpas para o cliente e coloco uma tarja preta no que tiver em falta. Algo que nunca fizemos antes, é um problemão. Às vezes ele vem com a ideia do prato porque viu na internet, ou no aplicativo.

O prejuízo também é sentido na pele por Lilian Varella, proprietária do Drosophyla Bar, na Consolação, região central de São Paulo. Há 35 anos à frente do estabelecimento, que tem origem em Belo Horizonte, ela conta que a pandemia de Covid é o pior momento para seu negócio.

— Passei pelo governo Sarney, pelo Collor, que pegou todo o dinheiro que a gente tinha, pela troca de moedas. Passei por tudo isso, mas dessa vez eu não sei o que vai ser. Infelizmente, já tive que despedir nove pessoas. Agora só estou com quatro funcionários — lamenta.Desafio:Uma conversa sobre como inaugurar restaurantes em plena quarentena

Segundo Varella, a expectativa para o anúncio de uma possível flexibilização a bares e restaurantes é alta após a intensa movimentação do setor.

— Depois dessas duas manifestações que o movimento Gastronomia Viva fez, juntando bares e restaurantes, deu uma assustada (no governo), porque só iriam se pronunciar em 7 de fevereiro, mas agora já tem aceno de mudanças e possível abertura aos finais de semana. Já é um alívio, porque a gente trabalha com planejamento.

A empresária lembra que semanas atrás precisou distribuir o estoque de comida aos funcionários para evitar que as encomendas perdessem.

— Da última vez comprei comida para semana toda. Lógico que dei para os funcionários, não iria jogar fora. Mas é prejuízo. Sei que o momento que estamos exige pulso firme mesmo, não adianta a gente achar que tudo vai ser uma festa. Não tem ninguém aqui negacionista, mas um lugar que eu poderia receber 130 pessoas por noite, estão indo cerca de 30, com todos afastados. Por que não fiscalizam festas clandestinas, a rua cheia de gente, campeonato de futebol? Por que pegam a gente de cristo? — critica a empresária.