Prestes a completar 80 anos, Jards Macalé finaliza álbum e conta histórias de suas músicas no Teatro Prudential

“Canta aquela cantiguinha, Macauzinho?”, costumava pedir Vinicius de Moraes a Jards Macalé, orgulhoso de “O mais-que-perfeito”, música que compuseram juntos. Não são poucas as histórias por trás das canções de Jards Macalé, um dos artistas mais inventivos, irreverentes e genuínos da música brasileira, que completa 80 anos em março. Quem for ao Teatro Prudential, na Glória, na próxima terça-feira, às 20h, vai se deliciar com parte delas: Jards é o convidado de janeiro do “Me cante uma história”, projeto da jornalista, cantora e compositora Natália Boere, e vai falar sobre sucessos como “Vapor barato”, “78 rotações”, “Soluços”, “Revendo amigos” e “Farinha do desprezo”. Os ingressos custam R$ 80 (inteira) e estão à venda pelo Sympla.

Cultura de graça: Casa Museu Eva Klabin terá concertos de piano e visitas guiadas gratuitas

Emagrecer, sair do vermelho, mudar de emprego: especialistas mostram como alcançar metas em 2023

— A expressão “Graças a Deus” não fazia parte de “Vapor barato”; foi incluída por Gal Costa na gravação da música. Waly ficou puto! — conta Jards, citando o parceiro nesta e em tantas outras canções, o poeta Waly Salomão.

Grande amiga de Macalé, Gal, que morreu em novembro do ano passado, iria interpretar uma das 12 faixas do novo álbum do artista, que vai ser lançado em março. O disco, cujo título ainda será definido, foi dedicado a ela e conta com a participação de Maria Bethânia e a versão original de Nara Leão para “Amo tanto”, lançada em 1966. Esta última, além de ser a primeira composição de Macalé, quando ele tinha 15 anos, é a única que não é inédita.

— Mas considero que também é novidade. Quem ouviu essa música naquela época? Eu era um menino e já cantava “Meu amor, vim te dizer que sem ti não sei viver. Vem comigo que sem teu amor, melhor morrer”. Eu queria ser o Vinicius de Moraes — diverte-se Macalé ao lembrar de quando criou “Amo tanto”, acrescentando que esta faixa e “Cante” são as únicas do novo álbum que compôs sozinho.

Saída para a crise: Economia solidária vira alternativa de renda

Ele conta que, diferentemente do que costuma fazer, musicou todas as demais faixas durante a pandemia e enviou para amigos letristas, que assinam em conjunto com ele as obras, entre eles Ronaldo Bastos, Romulo Fróes, Alice Coutinho e José Carlos Capinan. Crítico ferrenho de si mesmo, Macalé define o novo trabalho como extraordinário. Questionado se acredita que o álbum tem chances de levar o Grammy Latino, o artista diz não se importar com isso e diverte-se comparando-se a um vice-campeão do programa “Big Brother Brasil”, da TV Globo, uma vez que “Síntese do lance”, de 2021, elogiado disco de inéditas feito com o amigo João Donato, e “Besta fera”, de 2019, foram indicados ao prêmio na categoria Melhor Álbum de Música Popular Brasileira.

— Estou tipo vice do “BBB”, sendo indicado para o Grammy e não levando, mas já é alguma coisa, num universo tão vasto. Já me diverti muito só de ter participado — diz.

Cantar e dançar o amor de todas as formas. “Vale tudo, como dizia Tim Maia”. É assim que Macalé sintetiza seu novo álbum, cujo nome será escolhido pelo público em uma votação que será lançada na internet. Entre possíveis títulos estão “Amor in natura”, faixa que compôs com Capinan; “Canções de amor demais”; “Coração bifurcado”; e “A arte de não morrer”.

Morador do Leme há três anos e da Zona Sul desde a infância, o cantor, compositor e instrumentista, que prefere ser chamado apenas de músico, revela que seu mais novo trabalho é dançante e tem uma mistura de vários gêneros musicais, entre eles rock e samba.

— Precisamos de amor, e foi assim que surgiu a ideia do álbum. São 12 personagens com seus casos de amor — relata.

Superação: Morador de rua, cantor e compositor sonha lançar suas músicas; veja vídeos

Após finalizar 2022 com shows em celebração aos 50 anos do disco “Jards Macalé”, o artista iniciou o novo ano se apresentando no Festival do Futuro, na posse do presidente Lula. A unha do dedo anelar direito pintada de vermelho, ao receber a equipe de reportagem do GLOBO-Zona Sul na última quarta-feira, era resquício do evento, no qual estava vestido de Zé Pelintra em homenagem aos sambistas brasileiros. Apesar de colecionar sucessos, “O sol nascerá”, de Cartola; e “Juízo final”, de Nelson Cavaquinho, foram as canções escolhidas por Macalé, que conta que só estimulou o público a cantar e depois assumiu os tamborins.

— Comecei e depois deixei com eles — enfatiza Jards Anet da Silva.

O nome artístico vem do apelido que ganhou ainda na infância jogando peladas em Ipanema.

— Sou da maior família brasileira. O Macalé é uma referência a um jogador do Botafogo que ora ia muito bem, ora ia muito mal — explica ele, que no festival também fez referências ao Rei Pelé e a Garrincha.

Além do espetáculo em homenagem às cinco décadas do disco que leva seu nome e continuará sendo apresentado ao longo de 2023, Macalé prepara um show de lançamento do novo álbum, que a princípio será distribuído nas plataformas digitais.

— Quando falam da minha carreira, digo que o que tenho é correria — brinca o músico, que admite amar estar em plena produção a menos de dois meses de completar oito décadas de vida.

Esta semana Jards Macalé fez sua primeira compra na internet — uma camisa, pela qual estava ansioso. Uma novidade para quem diz que não abre mão de hábitos tradicionais, como às 5h caminhar da Pedra do Leme até o Copacabana Palace apreciando a paisagem e ouvindo no fone uma boa música ou se atualizando das notícias. E de religiosamente ir à Fiorentina, ponto de encontro de artistas no qual recentemente encontrou Paulinho da Viola, a quem não via há tempos.

— Toda tarde vou lá admirar o sol baixar, comendo um pastel de queijo e bebendo um chopinho. É um lugar de encontros inusitados, e é muito bom filosofar cantando — relata o artista.

Entre as décadas de 1960 e 1970, ele era presença constante na churrascaria Pirajá, em Ipanema, reduto de músicos na época e onde Macalé, que vem de uma família musical, se interessou por violão ao ver um músico se apresentar. O instrumento foi o seu primeiro, o qual ganhou aos 13 anos.

— Era um violão bem velho de um bêbado que certamente queria o dinheiro para comprar cachaça, e convenci minha mãe a comprá-lo. A música é o meu tapete, sou músico e topo tudo. Já fiquei muitos anos sem lançar nada, mas nunca fiquei sem trabalhar. Esse é o meu meio de sobrevivência e vivência — reflete o artista.

Apesar de já ter feito trabalhos no cinema, Macalé dispensa o título de ator e diz que “fazer um filme”, como diretor, é um dos projetos que pretende tirar do papel.

— Sempre gostei muito de filmar, mas os trabalhos que fiz eram muito rudimentares — avalia ele, que vai ser um dos protagonistas de dois documentários feitos por sua mulher, Rejane Zilles.

Um deles é o curta “Macaleia”, que será lançado ainda neste primeiro semestre e narra a amizade entre Macalé e Hélio Oiticica.

— Eles eram parecidos no temperamento, na coisa do marginal, no experimentalismo. “Macaleia” foi uma obra que Oiticica fez em homenagem a Macalé. Oiticica assinou a cenografia do show da Gal do qual o Macalé era o diretor musical, e o filme traz imagens daquela época, entre elas as de uma festa antológica que Macalé promoveu em sua casa em Santa Teresa, com convidados ilustres como Moreira da Silva e Lygia Clark — detalha Rejane.

Outro projeto que ela quer começar a levar adiante ainda este ano é o longa “London 70”, sobre a cena cultural brasileira em Londres no início da década de 1970, quando a cidade abrigou artistas que fugiam da ditadura militar no Brasil. Caetano, Gil, Macalé, Neville d’Almeida, Julio Bressane, Helena Ignez, Rogerio Sganzerla, Ângela Rô Rô e Maria Gladys são alguns nomes de uma turma que viveu em Londres num mesmo período.

Os bastidores da gravação do lendário disco “Transa” (Caetano Veloso) serão o fio condutor do documentário, mas o roteiro vai além. Através de registros em Super 8, imagens de arquivo, depoimentos atuais, fotografias e cartas trocadas na época, o filme vai falar das impressões sobre o exílio, das saudades do Brasil e do que se buscava em termos de sonoridade para um novo e emblemático disco, que acaba de completar 50 anos.