Preta Gil sobre união de mulheres em seu bloco no Rio: ‘Eu me sinto o ‘abre-alas’ em muitas lutas’

Marcelle Carvalho

Preta Gil é do entretenimento e não do esporte, mas seu fôlego parece de atleta. A cantora já começa, amanhã, sua maratona carnavalesca com apresentação do bloco que leva seu nome no Imperator (veja no quadro abaixo), na Zona Norte. No domingo, ela abre a temporada dos megablocos do Rio, desfilando no Centro.

— No Imperator, é o grito de carnaval, o esquenta. A gente tem coisas novas no repertório e gosta de testar com o público. Sem contar que tenho fãs mais velhos, que não têm mais disposição para ir ao bloco na rua. A apresentação no Imperator é uma forma de eles não se sentirem fora da festa — frisa Preta, de 45 anos.

Este ano, na 11ª edição do Bloco da Preta, a artista inova. Com o tema “Mulheres que inspiram”, ela terá ao seu lado, no trio, representantes de quatro blocos femininos da cidade.

— Terei comigo Bloconcé, Mulheres de Chico, Samba que elas querem e Mulheres rodadas. Sempre sonhei com isso. A gente se juntou e regravou “Ó abre alas”, de Chiquinha Gonzaga, com uma nova letra (veja trecho ao lado), que fala exatamente sobre o que estamos vivendo: tirando a empatia e a sororidade do papel e colocando-as em prática. Estarmos juntas representa muito para mim — enfatiza Preta, que, pela primeira vez, vai sair de cima do trio: — Vou para o chão, com as meninas, durante o cortejo, no início do bloco. É uma coisa que nunca fiz. Estarmos juntas é mostrar para as outras mulheres que não existe outra maneira de evoluir na nossa sociedade senão estivermos unidas. É a empatia e sororidade concretizadas no cortejo de abre-alas.

As homenagens estarão representadas até no figurino da artista, que também levará seu bloco para Salvador, para um camarote na Marquês de Sapucaí, para Caraguatatuba (litoral de São Paulo) e para a capital paulista.

— É um balaio de mulheres que me inspiram: minha ancestralidade, minha mãe Oxum, Elza Soares, Zezé Motta, Alcione... Tem um pouco dessas mulheres em cada fio da minha roupa.

A própria Preta é uma figura que se orgulha de, em meio à alegria, defender tantas causas.

— Eu me sinto o “abre-alas’’ em muitas dessas lutas, como a das gordinhas, mulheres massacradas pela sociedade e que hoje podem expor seus corpos livres. O julgamento vai existir sempre, mas o importante é não temê-lo. Fui chamada de louca quando fiz aquela capa do meu disco nua, há 18 anos. Se fizesse hoje, seria empoderada. Isso é o retrato forte de uma sociedade que evolui, mesmo a trancos e barrancos. No meu caso, foi às custas de muito choro, de muita luta e crítica. E em relação aos blocos, fico feliz de inspirar outras cantoras a terem o seu. É bonito de ver.