Prevendo quarentena, paulistanos lotam cafés, bares e restaurantes

ROBERTO DE OLIVEIRA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Era hora do adeus! No último fim de semana do verão, paulistanos bateram pernas por lojas, bares, cafés, sorveterias e restaurantes sob um céu azul, sem sinal de chuvas ao entardecer, os termômetros acima dos 30ºC.

Na despedida da estação mais festejada do ano, as pessoas aproveitavam os momentos de convívio social como quem intui que a rotina vá mudar em tempos de pandemia.

"As pessoas ainda não estão vendo uma multidão circulando pelas ruas de máscaras, como aconteceu lá fora. Isso, então, as tranquiliza. É um pouco aquela sensação de aproveitar os últimos minutos", disse a analista de marketing Cássia Chassot, 30, moradora de Pinheiros, zona oeste da capital, ao trafegar na tarde de sábado (14) pela rua lotada que leva o nome do bairro.

Um dos principais corredores gastronômicos de São Paulo, a rua dos Pinheiros tinha seus restaurantes, bares, lanchonetes e cafés abarrotados de gente neste fim de semana.

"Você vê idosos, jovens, casais com crianças. Em muitos locais, há longas filas de espera. Aparentemente, inexiste qualquer preocupação", continua Chassot. Ela conta que está trabalhando em casa três dias por semana e que a tendência é "full home office" a partir desta segunda (16).

Mesmo com o sol forte, a preferência era pelas áreas externas dos estabelecimentos. "Vamos ficar do lado de fora. Em outras épocas, certamente o ar-condicionado seria a preferência", diz a relações-públicas Béatrice Zozzoli, 32, munida de máscara e álcool em gel, guardados na bolsa.

Sua amiga, Roseana Marinho, 32, publicitária de Maceió (AL), conta que ficou mais assustada com o que viu no aeroporto da capital alagoana do que com o que encontrou em São Paulo.

"Este fim de semana é uma espécie de pré-quarentena. As pessoas querem aproveitar ao máximo. Tive certo receio de viajar. Só peguei avião porque já estava com os ingressos comprados para o show dos Backstreet Boys", disse, momentos antes de saber que o evento foi adiado. Com ingressos esgotados, o espetáculo estava programado para domingo (15), no Allianz Parque, zona oeste.

Nos Jardins, a rua Oscar Freire seguia ignorando o coronavírus -ou quase. Há 17 anos vendendo de guarda-chuva a capinha de celular, de frutas a orquídeas, Adriano da Silva Santos, 25, de Mauá (Grande SP), resolveu explorar o mercado da pandemia: oferecia álcool em gel (R$ 5 o frasco de 60 ml; R$ 30 o de 500 ml) e máscara (R$ 2 a unidade ou R$ 10 o pacote com dez), na esquina da Oscar Freire com a Bela Cintra.

"Estou achando tudo muito animado por aqui", empolgou-se a designer de interiores Josy Melo, 40, de Curitiba (PR). "Fomos a restaurantes, bares, cafés, tudo segue concorrido. Meu único receio é ir para Congonhas. Se fosse para o aeroporto de Guarulhos, nem iria. Alugaria um carro para voltar para casa, porque a minha impressão é que, a partir de segunda-feira, a coisa vai piorar", disse.

Vez ou outra, passava alguém de máscara em direção à estação Oscar Freire do metrô.

"Tem muito turista estrangeiro circulando nessa região. Graças a Deus, o movimento está normal, sobretudo hoje [sábado, dia 14]", festejava o artesão José Carlos Pardo, 68, habitué da Oscar Freire.

"É uma baita contradição: o verão está indo embora e só agora a gente está vivendo o clima do verão", disse ele, apontando para a movimentação de transeuntes pela rua.

Filas se formavam em sorveterias como a Ben & Jerry's. O Chez Oscar, misto de café, bistrô e casa noturna, era disputado tanto na área externa quanto na interna. Pertinho dali, na rua Haddock Lobo, bares e restaurantes também estavam movimentados, dentro do esperado para um fim de semana quente.

"O La Macca está tomando as precauções possíveis para a segurança de seus clientes e funcionários", explicou Silvio Frugoli, sócio-proprietário do restaurante italiano. "Nossos colaboradores são orientados a lavar as mãos e os antebraços e a utilizar o álcool em gel, também à disposição dos nosso clientes."

Clientes, por sinal, continuavam a formar as tradicionais filas de consumidores ávidos para provar os pratos do premiado A Casa do Porco, o melhor restaurante brasileiro segundo a lista dos 50 melhores da América Latina, do "50 Best". Já tinha gente ali antes das 10h de sábado (14). Por volta das 12h, eram mais de 50 pessoas à espera de um lugar, o que poderia demorar até três horas.

De passagem por São Paulo, a engenheira-agrônoma Beatriz Barcelos, 24, não arredava os pés dali. "Estou tomando as precauções: uso álcool em gel, lavo as mãos sempre e não quero desperdiçar o meu fim de semana em São Paulo. Há tempos quero conhecer esse restaurante. Não vou desistir", disse ela, que, nesta segunda (16), tem voo de volta marcado para Fortaleza (CE).

Símbolo do pioneirismo de transformação do corredor gastronômico da rua Major Sertório, na República (centro), o Bar da Dona Onça também exibia fila de espera de 30 pessoas, às 12h45 de sábado.

No almoço, cerca de 200 pessoas passaram por lá. "Oferecemos álcool em gel a todos os clientes. Orientamos garçons e colaboradores a lavar bem as mãos a todo o momento", disse a gerente, Cleide Pereira, 30.

A área externa era a mais disputada. "Agora, ninguém mais quer saber de ar-condicionado. Só querem a varanda", disse em tom de brincadeira o estilista Walério Araújo, dono de um lugar cativo do lado de fora do Dona Onça. Em tempos de coronavírus, diz ele: "Estou evitando, sobretudo, as baladas".

Rodrigo Araújo (sem relação de parentesco com o estilista acima), 28, motorista da Uber que circula dia e noite pelo centro, Itaim e Jardins, abre os vidros do carro e afirma que o brasileiro é um povo despreocupado. "Acha que nunca vai acontecer com ele. A gente ainda não caiu na real."