Prevent Senior e família esconderam morte de médico negacionista por covid

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Médico pediatra Anthony Wong morreu no dia 15 de janeiro de 2021 (Foto: Divulgação/ Caepp USP)
Médico pediatra Anthony Wong morreu no dia 15 de janeiro de 2021 (Foto: Divulgação/ Caepp USP)
  • Prontuário médico do pediatra Anthony Wong mostra que morte foi em decorrência da covid-19

  • No obituário, Prevent Senior omitiu que falecimento de Wong tenha sido consequência da covid

  • Médico ganhou notoriedade entre bolsonaristas pelo discurso negacionista

O médico pediatra Anthony Wong morreu no dia 15 de janeiro de 2021, após dois meses internado em um hospital da operadora de saúde Prevent Senior. Na ocasião, a família divulgou uma nota dizendo que Wong havia falecido em decorrência de uma parada cardiorrespiratória. No entanto, segundo a revista Piauí, que teve acesso ao prontuário médico, revelou que Wong teve covid-19, o que gerou uma série de consequências para a saúde do pediatra, levado à morte.

Anthony Wong era um pediatra conhecido entre a elite paulistana, mas ganhou notoriedade entre os apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) com um discurso negacionista, diminuindo a relevância da covid-19 e se posicionando contra a vacina.

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O prontuário médico de Wong tinha mais de 2 mil páginas e descreve todo o tratamento recebido pelo pediatra até a morte. Ele foi internado em 17 de novembro no hospital Sancta Maggiore, no Itaim Bibi, em São Paulo. O hospital pertence à Prevent Senior. Segundo a Piauí, ao dar entrada no hospital, Wong relatou que tinha sintomas de covid-19 há 8 dias.

Wong fez um exame PCR no hospital, confirmando o diagnóstico e uma reinfecção por covid, a primeira em abril de 2020. Ele afirmou aos médicos que estava usando hidroxicloroquina, remédio comprovadamente ineficaz contra a doença.

Segundo a Piauí, a médica responsável pelo paciente era Nise Yamaguchi, defensora do chamado “tratamento precoce”, que não existe, já que não há medicamentos capazes de prevenir contra a covid-19.

Anthony Wong foi medicado com o chamado “kit covid”, composto, além da cloroquina, por medicamento também ineficazes contra a covid-19, como azitromicina e ivermectina. O prontuário também descreve que o pediatra passou mais de 20 sessões se ozonioterapia retal.

Nenhum dos medicamentos ineficazes pôde reverter a situação e, no dia 21, Wong teve de ser intubado. O médico desenvolveu insuficiência renal e teve de passar por uma traqueostomia, quando é inserido um tubo na traqueia para permitir que o paciente respire.

Nos últimos dias de vida, Wong teve ainda uma pneumonia bacteriana. A infecção se espalhou e ele teve um choque séptico, levando a falência de órgãos e a uma parada cardiorrespiratória.

De acordo com a revista, no atestado de óbito, não há qualquer menção à covid-19 – mesmo que as complicações pelas quais Anthony Wong passou tenham sido consequência da infecção pela doença.

A Piauí ainda aponta que o enterro do pediatra, em 16 de janeiro, no Cemitério do Morumbi, foi realizado em cerimônia íntima, mas, sem a menção à covid-19 no obituário, não passou pelo protocolo correto para enterros de vítimas do vírus.

De acordo com o prontuário, 123 funcionários do hospital Sancta Maggiore atenderam Wong durante o período de internação. Todos eles mantiveram o tratamento em sigilo. À revista, a Prevent Senior afirmou que não comentaria casos específicos de pacientes sem autorização da família.

A viúva do pediatra, Carla, afirmou que a família não teria poder de alterar nenhuma informação no atestado de óbito e disse que via “com incredulidade a invasão do prontuário”. Ela ainda pediu respeito ao nome de Anthony Wong.

Prevent Senior na CPI

Nesta quarta-feira (22), a CPI da Covid no Senado vai ouvir o diretor-executivo da operadora de saúde Prevent Senior, Pedro Benedito Batista Júnior. O principal tema investigado pela comissão é a suspeita de que médicos ligados à Prevent Senior tenham sido pressionados para prescreverem medicamentos do “kit covid”.

Batista Júnior vai à CPI munido de um habeas corpus, concedido pelo Supremo Tribunal Federal, que dá a ele o direito de permanecer em silêncio.

Outra polêmica da Prevent Senior

O plano de saúde Prevent Senior realizou um estudo para testar o uso de hidroxicloroquina, associada à azitromicina, para tratar a covid-19. Em um dossiê, recebido pela CPI da Covid e divulgado pela GloboNews, há indícios que a empresa escondeu mortes de pacientes que receberam o tratamento.

Segundo a GloboNews, a Prevent Senior divulgou que duas pessoas morreram durante o uso da medicação. Na planilha, constam nove mortes.

O estudo recebeu o apoio do presidente Jair Bolsonaro, que chegou a fazer publicações nas redes sociais para exaltar o uso do medicamento, que não tem eficácia contra a covid-19. Defensores da cloroquina também usaram a pesquisa como argumento.

À GloboNews, um médico da Prevent Senior afirmou que o estudo foi manipulado para tentar provar que a cloroquina era eficaz contra a covid. O resultado, segundo o médico, já estava pronto mesmo antes do fim do estudo.

A pesquisa começou a ser feita em 25 de março de 2020. Em mensagens divulgadas pela emissora, o diretor da empresa, Fernando Oikawa, orienta os médicos a não informar as famílias sobre a medicação. “Iremos iniciar o protocolo de HIDROXICLOROQUINA + AZITROMICINA. Por favor, NÃO INFORMAR O PACIENTE ou FAMILIAR, (sic) sobre a medicação e nem sobre o programa”

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