Primeira-dama do Haiti foi baleada múltiplas vezes em ataque que matou presidente, diz imprensa de Miami

·4 minuto de leitura

A primeira-dama do Haiti, Martine Moïse, foi baleada na coxa e nos braços durante o ataque que matou o presidente Jovenel Moïse na madrugada de quarta-feira, na residência oficial em Porto Príncipe. De acordo com o canal de televisão Local 10, de Miami, ela também teve ferimentos graves no abdome e na mão.

Na quarta, a confusão sobre o estado de saúde da primeira-dama era grande, após o governo dizer apenas que ela havia sido baleada e levada para um hospital local. Alguns jornais chegaram a afirmar que ela não teria resistido aos ferimentos, mas o embaixador haitiano nos Estados Unidos, Bocchit Edmond, esclareceu não só que ela havia sobrevivido, mas que seria transferida para receber tratamento nos EUA.

Martine Moïse desembarcou no Aeroporto Executivo de Fort Lauderdale, a cerca de 45 km de Miami, por volta das 15h30 de quarta (16h30, horário de Brasília), após ser transportada em uma ambulância aérea. De lá, foi levada em uma ambulância particular para o hospital Jackson Memorial, em Miami. Seu estado, segundo a imprensa da Flórida, continua crítico, mas estável.

Por volta de 1h da manhã de quarta (2h, horário do Brasil), um grupo de homens armados invadiu a residência oficial, supostamente se passando por funcionários da agência antidrogas dos Estados Unidos, a DEA. Eles atiram no presidente, agravando uma crise política que se prolonga há meses no país caribenho e deixando um vácuo de poder no país.

Menos de 24 horas depois, durante a noite de quarta, as autoridades haitianas anunciaram a morte de quatro e a prisão de dois "supostos assassinos". Em um tuíte, o vice-ministro das Comunicações, Frantz Exantus, dise que os "supostos assassinos" foram interceptados pela Polícia Nacional em Pelerin 5, o bairro da residência oficial, pouco depois das 18h (19h, horário de Brasília).

Mais tarde, um porta-voz da Polícia Nacional haitiana disse que as forças de segurança mataram"quatro mercenários" e capturaram dois, acrescentando que os criminosos fizeram três policiais de reféns, que teriam sido posteriormente libertados. Também hoje à noite, o chefe da Polícia Nacional do país, Léon Charles, informou que agentes ainda estavam em confronto com os responsáveis pelo assassinato de Moïse.

— A polícia ainda está em combate com os assassinos — disse León em uma entrevista transmitida na televisão. — Eles serão mortos ou capturados.

Mais cedo, o jornal Diário Libre, da República Dominicana, noticiou que autoridades do país — que divide a mesma ilha com o Haiti — investigavam se os assassinos tinham fugido para o seu território. Segundo a tese das autoridades dominicanas, os assassinos podem ter agido em cumplicidade com um importante delegado que trabalhava na segurança presidencial, informou o Diário Libre.

A morte de Moïse, de 53 anos, cria um vácuo de poder no país mais pobre das Américas: Claude Joseph, nomeado como premier interino em abril, nunca foi ratificado e, no início da semana, o presidente havia nomeado Ariel Henry para sucedê-lo — seu sétimo primeiro-ministro em quatro anos. O médico, no entanto, seria empossado apenas no fim desta semana.

Pela Constituição haitiana de 1987, caso o presidente fique impossibilitado de exercer suas funções, cabe ao presidente da Suprema Corte governar o país. O cargo, contudo, está vazio desde que seu antigo ocupante, René Sylvestre, morreu de Covid-19 no fim de junho.

Apesar da incerteza sobre a ordem sucessória, Joseph disse que assumiu as rédeas e declarou estado de sítio de duas semanas após uma reunião extraordinária do seu ministério. Ele pediu calma à população após o ato "desumano e bárbaro", afirmando que a polícia e o Exército já têm o controle da situação — segundo a Reuters, foi possível ouvir tiros por toda a capital após o ataque.

O Conselho de Segurança da ONU, que debaterá a crise haitiana em uma reunião a portas fechadas nesta quinta, emitiu um comunicado condenando o assassinato de Moïse. Os 15 países-membros pediram que todas as partes "se abstenham de quaisquer atos de violência", em meio a preocupações de que o episódio agrave a violência no país que, segundo a ONU, atingiu "níveis sem precedentes" recentemente.

Um relatório do Unicef (Fundo da ONU para a Infância) publicado há duas semanas estima que existam hoje 95 gangues armadas que controlam grandes territórios da capital, ou cerca de um terço de Porto Príncipe. Opositores do governo acusavam Moïse de se aproveitar das gangues para permanecer no poder.

O país tem um histórico de turbulência e violência política, além de intervenções estrangeiras — os EUA ocuparam o país de 1915 a 1943. Depois de quase 30 anos da ditadura da dinastia Duvalier, entre 1957 e 1986, o país elegeu o ex-padre católico Jean-Bertrand Aristide, deposto dois anos depois em um golpe militar. Reeleito em 1994 e 2001, Aristide acabou fugindo do país em 2004, em meio a confrontos entre seus apoiadores e ex-militares do Exército que havia sido desmantelado após o fim da ditadura, junto com a força paramilitar dos Duvalier, conhecida como Tonton Macoute.

A fuga deu início à intervenção dos capacetes azuis da ONU, sob comando de forças brasileiras. A força de paz permaneceu no país até 2017, sem conseguir legar uma situação estável, cenário que foi agravado pelo terremoto de 2010, quando mais de 100 mil pessoas morreram.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos