Herdeiros da Revolução Cubana disputam sucessão minuciosamente preparada

Yeny García.

Havana, 17 abr (EFE).- Depois de quase 60 anos, os personagens históricos da Revolução Cubana deixam pela primeira vez o poder para dar lugar a uma geração que não participou da luta, algo que se espera que seja institucionalizado e com o vice-presidente Miguel Díaz-Canel, de 57 anos, como favorito para suceder Raúl Castro.

A apenas dois dias da sessão para constituir a nova Assembleia Nacional (Parlamento) que designará o próximo líder da ilha, poucos têm dúvidas de que o eleito será Miguel Díaz-Canel, número dois do governo desde 2013.

Canel começou sua carreira política na sua cidade natal, Santa Clara, onde chegou a ser primeiro-secretário do Partido Comunista de Cuba (PCC) nos tempos difíceis da crise de 1990, gestão pela qual ainda é lembrado e elogiado.

Este engenheiro eletrônico começou a se destacar após ser designado ministro da Educação Superior (2009-2012) e, em 2013, elevado à categoria de "número dois" do governo de Raúl Castro, tornando-se o primeiro cubano nascido após a vitória da Revolução a ocupar o cargo.

Membro das bases do PCC e com uma trajetória de ascensão sólida e discreta, sua "proximidade do povo" e "capacidade de estar onde faz falta" são as principais qualidades que seus compatriotas levam em conta para afirmar que Canel será o "candidato ideal" à Presidência de Cuba.

Apesar da discrição pública de Canel, em meados de 2017 o grupo opositor cubano Estado de Sats publicou um vídeo filmado em um encontro com funcionários do PCC no qual o dirigente se mostrava muito mais duro ao criticar os Estados Unidos e denunciar a atividade "subversiva" de entidades estrangeiras e veículos de imprensa alternativos cubanos.

Caso Canel torne-se o próximo presidente da ilha, a previsão é de um período de continuísmo das políticas de Raúl Castro, que nos seus 12 anos de mandato (os dois primeiros de forma interina devido à doença de seu irmão Fidel) empreendeu um processo de "atualização" econômica e institucional no sistema socialista cubano.

O próprio Raúl Castro anunciou há anos a necessidade de se preparar para a substituição geracional na liderança do país e durante o seu mandato surgiram outros dirigentes mais jovens que os "históricos" que ocuparam postos de destaque no governo e no PCC.

Entre eles está o atual chanceler, Bruno Rodríguez (60 anos), face mais visível da ilha para o mundo e um político com uma carreira em ascensão na Juventude Comunista (UJC), no PCC e no Ministério das Relações Exteriores, pasta que lidera desde 2009.

Visto como um diplomata sério, leal e confiável, Rodríguez marcou vários pontos com o reatamento dos laços diplomáticos com os EUA e a assinatura, em 2017, de um acordo bilateral com a União Europeia, que pôs fim à "posição comum" que limitava seriamente a relação entre Cuba e o bloco comunitário.

Outras figuras da substituição geracional nas estruturas do poder foram dirigentes do PCC, como o primeiro secretário de Santiago de Cuba, Lázaro Expósito (63 anos); o de Camagüey, Jorge Luis Tapia (55 anos), e a de Havana, Mercedes López Acea, muito populares por suas gestões em suas respectivas províncias.

A morte de Fidel (1926-2016) e a saída de Raúl Castro da Presidência aos 86 anos marcam o fim uma era na ilha comunista, que desde 1959 sempre teve um governante com esse sobrenome, algo que por enquanto não se repetirá, como disse à imprensa, no início do ano passado, Mariela Castro, de 55 anos, filha do atual presidente.

No Centro Nacional de Educação Sexual (Cenesex), Mariela, membro da família Castro com maior projeção pública, impulsionou mudanças a favor do coletivo LGTBI e ganhou reconhecimento, embora em várias ocasiões tenha negado categoricamente que pretenda ocupar o cargo que agora seu pai deixa livre. EFE