Primeira morte por coronavírus no país: a diarista Rosana deixou um filho com atraso de desenvolvimento e epilepsia

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No dia 11 de março, por volta das 4h da manhã, a diarista Rosana Aparecida Urbano, 57 anos, saiu de casa em uma das regiões mais pobres de São Paulo e percorreu 25 quilômetros para ver a mãe, Gertrudes, internada com pneumonia no Hospital Municipal Doutor Cármino Caricchio, no Tatuapé, um dos principais distritos da Zona Leste. Ao receber a notícia de que a mãe, de 86 anos, estava intubada, Rosana passou mal. Diabética e hipertensa, acabou internada no mesmo local. Morreu às 19h15 da noite seguinte, 12 de março, após uma parada cardiorrespiratória. Rosana foi a primeira vítima do coronavírus no Brasil. Nos 148 dias decorridos desde então, a doença matou mais de 100 mil pessoas, na maior tragédia sanitária da História do país.

A chegada e as consequências do coronavírus na família de Rosana são um retrato preciso do impacto e da distribuição da pandemia no Brasil. Um estudo feito pelo site Medida SP, que cruzou os dados de mais de 3.000 mortos pela Covid-19 na Grande São Paulo com seus CEPs, constatou que 66% das vítimas viviam em bairros em que a renda média estava abaixo de R$ 3 mil. Já nas regiões com renda superior a R$ 19 mil, houve registro de 1% das mortes. Não por acaso, o bairro de Rosana corresponde ao primeiro perfil. Nascido nos anos 80 no extremo leste de São Paulo, Cidade Tiradentes concentra a maior quantidade de conjuntos habitacionais da América Latina. A primeira vítima fatal da Covid-19 no país vivia há 15 anos em um apartamento de 36 metros quadrados no quinto andar de um desses prédios. Dividia a casa com o marido, auxiliar de limpeza, e um filho de 19 anos, que tem atraso de desenvolvimento e epilepsia. Nos últimos anos, Rosana deixou o trabalho de diarista para cuidar do rapaz. Ela tinha ainda outras duas filhas.

— Ela sempre levou ele a médico, correu atrás de tratamento — diz Thaís Urbano, de 26 anos, que assumiu os cuidados do irmão. — Foi muito difícil contar para ele. Ainda chora de vez em quando, a gente conversa.

Gertrudes morreu três dias depois de Rosana. O diagnóstico de Covid também demorou a sair. Elas não foram as únicas da família abatidas pela doença. Em um prazo de 40 dias, partiram também Emerson, irmão de Rosana, e Rose, irmã. Julio, o pai de Rosana, morreu de “descuido e tristeza”, diz Thaís. Nesse período, a família continuou convivendo sem saber dos riscos.

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— Não sabemos quem pegou primeiro. E ninguém fez exame porque não se sabia muito sobre a doença no início. Quando minha avó foi enterrada, todos estavam no velório sem máscara — descreve a auxiliar administrativa Jéssica Urbano, sobrinha de Rosana.

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