Primeira mulher a assumir Academia Brasileira de Cinema, Renata Almeida Magalhães fala dos planos e da morte de sua filha com Cacá Diegues

Era o ano de 1981, e todos os dias em que Renata Magalhães e as outras três mulheres da equipe chegavam para trabalhar no set de filmagem majoritariamente masculino do longa "Menino do Rio", um dos homens repetia em tom desconfiadamente machista: "Vocês ainda vão fazer alguma coisa errada...". Aos 19 anos, Renata fazia seu début no cinema, como assistente de direção e, de cara, percebeu que precisaria provar que dava conta do recado.

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- Tive que mostrar que não era frágil. No primeiro dia de filmagem, eu já estava no caminhão tomando uma cana com o pessoal da técnica. Virei melhor amiga do eletricista, do maquinista... E a pessoa mais desbocada do mundo (risos) - conta ela, que se tornou uma das produtoras mais atuantes do audiovisual brasileiro, com filmes como "Quilombo", "Um trem para as estrelas", "Dias melhores virão", "Tieta do Agreste", "Orfeu", "5x Favela", "Grande circo místico", entre muitos outros, no currículo.

Na época, lembra Renata, havia uma compreensão de que a mulher podia realizar trabalhos meticulosos, como figurino ou continuidade, mas jamais aguentaria o tranco da força física de horas e horas no set.

Corta para 2022 e, além de elas terem dominado a produção de cinema e ocupado todas as posições nessa engrenagem, Renata se tornou a primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Cinema desde sua criação, em 2002.

Também roteirista e diretora, ela assumiu o posto no último dia 1 e já chegou mostrando a que veio. Tanto que a próxima edição do Prêmio Brasileiro de Cinema, no dia 10 de agosto, na Cidade das Artes, vai homenagear 78 produtoras. O evento terá direção de Batman Zavareze e será apresentado por Camila Pitanga e Silvero Pessoa, com transmissão ao vivo pelo Canal Brasil e Globoplay.

Entraves políticos

Principal atribuição da academia (junto com a indicação do filme brasileiro escolhido para representar o Brasil no Oscar e no Prêmio Goya), o evento volta a acontecer no Rio após duas edições paulistas. É que, enquanto a prefeitura daquela cidade ofereceu total apoio para a realização, o ex-prefeito Marcelo Crivella sequer recebia a academia. Quando Eduardo Paes assumiu, garantiu que, enquanto for o prefeito, o Rio sediará o prêmio.

Outras conjunturas políticas desfavoráveis já tinham atingido a Academia. Em 2016, quando o governo ainda apitava na escolha do filme que iria para o Oscar, o Ministério da Cultura não indicou o favorito “Aquarius”. A atitude foi vista como retaliação do governo Temer ao protesto do elenco, que exibiu, no Festival de Cannes, cartazes dizendo que o Brasil estava sofrendo um golpe.

Desde a edição de 2021, no entanto, o governo federal não tem qualquer ingerência na escolha, feita por profissionais do audiovisual indicados pela academia. A Academy of Motion Picture, Arts and Sciences (AMPAS), instituição responsável pelo Oscar, inclusive, reconheceu a Academia como única entidade responsável pela seleção.

'Acham que a Academia de Cinema é a ABL, cheia de protocolos'

A conquista da independência contou pontos a favor para que Renata topasse assumir o cargo. Agora, ela ambiciona envolver mais gente. Não se conforma com o fato de cineastas como Walter Salles e Andrucha Waddington não serem associados. Até sonhou com isso - e ligou para Waltinho.

- Acho que a gente não chega nos cineastas. Parece que as pessoas acham que é a Academia Brasileira de Letras, que há um protocolo. Quero facilitar a associação e me comunicar melhor - afirma.

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Deseja também promover encontros, cineclubes e debates como o que a Academia promoverá no próximo Festival de Gramado, com uma mesa com realizadoras mulheres. Renata quer que a Academia seja um lugar de reflexão sobre o cinema que o Brasil fez, faz e fará.

- Precisamos pensar nosso cinema. Entender que só a gente pode fazer os filmes que fazemos. A academia é o lugar dos nossos pares, é onde a gente se reconhece - afirma. - Todo mundo quer ganhar o Oscar, mas não podemos alimentar a ideia errada de que nós, cineastas brasileiros, concorremos uns com os outros. Todo cinema local é um ato de resistência contra Hollywood. Porque há uma concorrência desleal do mercado. Quando um filme brasileiro entra, concorre com um blockbuster hollywoodiano que já chega aqui pago. Países que entendem isso, protegem o cinema local.

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Mas Renata defende que discussões como a cota de tela, o Fundo Setorial e Ancine já têm seus próprios fóruns. À academia, portanto, ela pretende reservar o lugar da mágica. A mesma que a encantou na escola quando, numa aula de cinema, ouviu a educadora Mariaval Monteiro explicar para que servia uma lente zoom. Lembra de ficar maravilhada ao imaginar que o recurso poderia trazer mais para perto o gato que ela avistava no telhado da escola.

Renata largou a faculdade de Direito para fazer cinema. Voltou ao curso na era Collor, quando o meio enfrentou uma de suas maiores crises. Depois da tempestade, retornou ao set em "Tieta", dirigido por seu marido, Cacá Diegues. Os dois, aliás, estão casados há 41 anos. Se conheceram quando Cacá, traumatizado com um assalto, decidiu vender seu apartamento na Gávea. Quem apareceu para comprar? Renata, que nunca mais saiu dali.

'Uma força estranha move a gente a continuar a fazendo cinema'

Hoje, mesmo diante do fechamento de tantas salas na pandemia, ela é otimista em relação ao futuro. Acredita que as pessoas voltarão ao cinema quando enjoarem de assistir film pela TV. Diz que tem muita gente boa filmando e destaca o bom desempenho de longas como "Marighella" e "Medida provisória".

- Tem a resistência e resiliência, mas, às vezes, acho que é uma força estranha que faz a gente continuar a fazer cinema. Sou otimista porque temos talento. Com um pouquinho, fazemos coisas incríveis - afirma. - Estamos em um momento de mudança, uma nova dramaturgia está surgindo com os streamings e demais plataformas. Séries, salas de roteiro... Tudo isso está ocupando o mercado, mas temos que falar sobre cinema independente, que significa fazer o filme que se quer. É ótimo contar com o streaming, mas os produtores brasileiros não podem estar condenados a virarem prestadores de serviço.

Cacá Diegues: O planeta Flora

Ela mesma está prestes a lançar um filme que deseja muito. Produzido por Renata e dirigido por Tomás Portella, "Aumenta que é rock and roll" conta a história da Rádio Fluminense. O longa também é o último em que Flora, filha de Renata, atuou como atriz. Ela morreu em 2019, aos 34 anos, por conta de um tumor no cérebro. Rodou 40 dias depois de operar a cabeça pela segunda vez. Levou um ano até que Renata conseguisse assistir ao filme.

- Foi lindo vê-la ali, eterna - conta Renata.

'Quando você resiste à perda de uma filha jovem para de ter medo de qualquer coisa'

É impressionante a energia e o bom humor que Renata carrega após ter sofrido uma perda tão dilacerante. A produtora diz que busca se inspirar na filha.

- Ela tinha uma alegria de viver que acredito ser o segredo. Entre o diagnóstico e ter ido para o universo, viveu plenamente por três anos. Morou sozinha, trabalhou, namorou, viajou. Nunca esteve numa cama de hospital ou cadeira de roda. Internou segunda e morreu sábado, mas até o domingo anterior, estava em casa com os amigos tocando violão. Ela me ensinou a buscar a alegria. Viver é uma honra e um acaso, somos muito maiores do que esse planeta.

Mas há dias que são mais difíceis. Levantar da cama e pensar “vamos nessa” é, para Renata, uma decisão diária.

— Penso nela todo dia, o dia inteiro. Para mim, ela está presente. E vou nessa agora por ela também, tenho esse compromisso. Quando você resiste à perda de uma filha jovem sem cair na cama e nunca mais levantar, também para de ter medo de qualquer coisa, porque sabe que vai segurar. É assim que eu acordo diariamente.

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