Primeira mulher eleita prefeita de Los Angeles protestou contra guerra e foi vigiada pelo FBI

LOS ANGELES, EUA (FOLHAPRESS) - Ex-ativista comunitária que virou deputada no Congresso americano, a democrata Karen Bass voltou às raízes para ser eleita a primeira mulher prefeita de Los Angeles, segunda maior cidade dos EUA.

Formada enfermeira e auxiliar médica, Bass tem entre seus principais desafios altas taxas de criminalidade e aumento dos moradores de rua, para os quais ela pretende expandir a força policial e a construção de moradias.

Numa disputa acirrada e com recorde de votação, projeções com quase 80% da apuração indicaram a vitória de Bass, com 53% dos votos contra o bilionário Rick Caruso, empresário dono de shopping centers e ex-republicano que se registrou como democrata no começo do ano (os dois concorreram pelo mesmo partido, algo permitido nos EUA).

O empreiteiro de 63 anos gastou mais de US$ 100 milhões (R$ 543 milhões) da própria fortuna na campanha, 11 vezes mais que sua rival de 69 anos.

"Às pessoas de Los Angeles minha mensagem é esta: nós vamos resolver a falta de moradia. Nós vamos prevenir e reagir ao crime com urgência", disse Bass na quarta-feira (16). Ela afirma que quer tornar Los Angeles acessível às famílias trabalhadoras.

"Recebi uma ligação amável de Rick Caruso e espero que ele continue sua participação cívica na cidade que ambos amamos. Tenho grande respeito por seu compromisso em servir ao povo de Los Angeles."

Bass é a segunda pessoa negra a liderar a prefeitura. O pioneiro foi Tom Bradley (1917-1998), um ex-policial que hoje dá nome ao terminal internacional do aeroporto da cidade. Segundo prefeito negro de uma grande cidade dos EUA, o democrata ficou no posto por duas décadas, até 1993, quando sua popularidade sofreu um baque devido a protestos violentos um ano antes.

Antes de chegar ao Congresso em 2011, Bass construiu sua carreira na Califórnia. Ela fez história em 2008 ao ser eleita a primeira mulher negra porta-voz da Assembleia de um estado no país, na capital californiana de Sacramento, ao norte.

Mas suas raízes políticas nasceram no sul de Los Angeles, onde ela cresceu ouvindo protestos pelos direitos civis no rádio com seu pai e frequentou manifestações contra a Guerra do Vietnã, chegando a ser vigiada pelo FBI.

Em 1990, alugou uma sala e uma van para criar uma ONG e ajudar crianças carentes, no auge da epidemia de crack que destruiu diversas comunidades na região. Na época, era vista com frequência na prefeitura exigindo mais fundos para os bairros mais pobres.

Em Washington, Bass foi a principal autora de um projeto de lei para combater a força excessiva e o preconceito racial na polícia, chamado "George Floyd Justice in Policing Act", mas a proposta não passou no Senado e acabou arquivada em 2021.

Também na capital, foi sondada para ser vice do então candidato presidencial Joe Biden. No entanto, suas chances foram prejudicadas em meio a críticas ligadas a suas 14 viagens a Cuba desde os anos 1970, além de elogios ao ditador Fidel Castro (1926-2016) e à Igreja da cientologia.

"Karen ficou mais prática, mais realista com o que pode ser feito de fato. Tem sido uma mudança muito, muito grande e a distanciou bastante em relação a ser alguém da ultraesquerda", disse seu irmão mais velho, Keith Bass, numa entrevista ao Los Angeles Times.

Na vida pessoal, Bass se divorciou nos anos 1980 e ajudou a cuidar dos quatro filhos do ex-marido, de origem latina. Ela perdeu a única filha biológica num acidente de carro, em 2006.

Um dos desafios da nova prefeita será a segurança pública. Ela decepcionou os mais progressistas ao dizer que a frase "defund the police" (corte o dinheiro da polícia), popular nos protestos contra violência policial, era "provavelmente um dos piores slogans de todos os tempos".

Bass pretende aumentar o policiamento nas ruas, incluindo fiscalização para retirada de barracas de sem-teto. A população de desabrigados, que nos últimos anos passaram a levar suas tendas e trailers para além do centro ocupando calçadas de áreas nobres e comerciais, foi central na campanha pela prefeitura. Com 3,9 milhões de habitantes, mais de 40 mil não têm moradia na cidade (no condado de Los Angeles, com 10 milhões de residentes, o número sobe para 69 mil, 17% a mais que 2019).

Ativistas alegam que o número é muito maior e alertam para um aumento com o fim em janeiro das proteções contra despejos e aumentos de aluguel criadas no auge da pandemia.

Cerca de US$ 1 bilhão (R$ 5,3 bilhões) foi direcionado à causa no orçamento de US$ 11,2 bilhões (R$ 59,8 bilhões) da cidade para 2021 e 2022. Estimativas apontam que seriam necessárias 800 mil novas moradias nos próximos oito anos para resolver o problema. A média de aluguel na cidade é US$ 2,3 mil (R$ 12,3 mil) para um apartamento de um quarto.

Bass espera usar suas fontes em Washington para ajudar os moradores de Los Angeles, enquanto o Conselho local (equivalente à Câmara Municipal) afunda em drama político e casos de corrupção. Um mês antes das eleições, um áudio vazado de uma reunião entre membros latinos do conselho levou à renúncia da presidente, Nury Martinez, que proferiu frases racistas contra o filho negro adotivo de dois anos de um vereador.