Primeira reitora negra de um centro de ensino superior estadual do Rio toma posse nesta quinta-feira

Gilberto Porcidonio
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Nesta quinta-feira, dia 25, acontecerá um ato histórico no Palácio Guanabara: o governador Cláudio Castro empossará a primeira reitora negra de um polo de ensino superior estadual do Rio. A professora Luanda Moraes, de 43 anos, estará solenemente à frente da Fundação Centro Universitário Estadual da Zona Oeste (Uezo), que reúne, em seus dez cursos, dois mil alunos, sendo 31% em condição de vulnerabilidade social. Sob a simbologia de estar sendo empossada no mês da mulher e também do Dia Internacional contra a Discriminação Racial — comemorado no último domingo — Luanda sente a responsabilidade de, até 2025, fazer aquilo que mais anseia com o polo de ensino estadual: efetivá-lo como uma universidade.

— Mudar o nosso status junto ao conselho estadual de educação será de um significado enorme, pois existe uma luta muito grande de nossa parte de nos tornarmos uma universidade estadual e consolidada na Zona Oeste. Ainda nos faltam atributos como as questões trabalhistas e também a falta de um campus próprio — diz Luanda sobre o centro de ensino ocupar o Instituto de Educação Sarah Kubitschek (Iesk), em Campo Grande, desde a sua fundação em 2005, quando ainda era vinculada à Faetec.

Para a professora, o seu comando na Uezo que será compartilhado com o vice-reitor Dario Nepomuceno, também negro, irá além da simples simbologia:

— No Brasil, infelizmente, o que é visto como periférico é sempre o que recebe a menor valorização, os menores investimentos... Eu tenho percebido que, quando alguém vê uma mulher negra, também periférica, à frente de uma universidade da Zona Oeste, é uma grande flecha de esperança. As pessoas vêm muito esperançosas até mim. Eu sei perfeitamente, pela minha história de vida particular e acadêmica, o quanto é difícil alcançar os lugares que não foram previstos para nós. Quando isso acontece, a chama de esperança acende.

E, como com os grandes cargos também vêm grandes responsabilidades, a gestão pretende dar um olhar especial para os estudantes de baixa renda durante esta pandemia. Para isso, a reitora pretende ampliar o acesso à Educação a Distância (EaD) por meio da distribuição de tablets.

— Nos primeiros meses da pandemia no ano passado, quando eu era a vice-reitoria e, o Dario, o chefe de gabinete da reitoria, nós promovemos programas de inclusão digital para os alunos já contemplados pela lei da ação afirmativa. Assim, eles puderam ter uma bolsa de auxilio emergencial para o retorno das aulas.

Criada em Rocha Miranda, Zona Norte do Rio, Luanda sempre estudou em escola pública e passou a se interessar, de fato, na ciência enquanto estudava para o vestibular. Assim, cursou engenharia química na Universidade Federal Rural (UFRRJ). Em 2009, ingressou na Uezo como professora contratada e, em 2012, após concurso, se tornou professora adjunta. Em 2017, Luanda se tornou vice-reitora do centro universitário e atua orientando alunos de graduação e pós-graduação em pesquisas sobre energia renovável em parceria com Inmetro:

— A minha família foi de poucos recursos financeiros, porém, a premissa era sempre a educação. Os meus bisavós foram professores na Bahia e essa influência sempre esteve presente. Quando entrei em uma banda, meu pai me matriculou numa escolinha de música mesmo sem ter dinheiro. A calça jeans era a mesma e, lanches fast food, ninguém conhecia, mas a educação sempre foi prioridade lá em casa. Isso é algo que eu agradeço demais e é por conta disso que eu conseguir trilhar essa carreira.

Apesar da batalha vitoriosa, a reitora também não permite que a sua trajetória seja utilizada pelo discurso puramente meritocrata. Em seu grupo de pesquisa, por exemplo, ela era a única pessoa negra.

— Isso não é por acaso, é uma marca do racismo estrutural. Não podemos naturalizar isso. O fato de hoje eu estar como reitora da Uezo não pode ser colocado como “um esforço meu” no sentido de insinuar que quem não conseguiu é porque não se esforçou. Se os meus colegas de Rocha Miranda não conseguiram, isso se deve a uma estrutura da sociedade racista que os exclui, e isso é muito sério – reforça Luanda.