Primeiras raízes da Cannabis surgiram no noroeste da China, mostra estudo

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SUIÇA — Uma pesquisa divulgada nesta sexta-feira na revista Science Advances sugere que as primeiras raízes da Cannabis sativa surgiram no noroeste da China, no início do período neolítico (entre 7.000 e 2.500 A.C.). Pesquisadores da Universidade de Lausanne, na Suíça, responsáveis pelo estudo, afirmam que a descoberta pode oferecer novas aplicações da planta tanto na medicina quanto na agricultura.

A Cannabis sativa é uma planta herbácea da família das canabiáceas utilizada nas versões maconha e cânhamo. Apesar de ser fonte de fibras e de drogas medicinais e recreativas, a história da domesticação da planta não é bem compreendida, devido às restrições legais de uso, destaca a pesquisa.

De acordo com Luca Fumagalli, especialista italiano em genética populacional e biologia evolutiva que participou diretamente do estudo, a descoberta da origem da Cannabis foi possível graças ao sequenciamento de 110 genomas inteiros, que podem ser categorizados em quatro grupos genéticos. Em conjunto, eles cobrem todo o espectro de plantas selvagens de cultivo, linhagens terrestres, cultivares históricos e híbridos modernos do cânhamo e da maconha.

— Sabendo quais genes foram selecionados especificamente durante o processo de domesticação, é possível desenvolver variedades com propriedades específicas para humanos e para a agricultura — explica Fumagalli.

Os cultivares são espécies de plantas que foram melhoradas devido à alteração ou introdução pelo homem de uma característica que antes não possuíam.

Apesar de não ter substâncias psicoativas e, portanto, não ser considerado uma droga, o cultivo de cânhamo é controlado por lei, e sua legalização varia de país para país. Atualmente, Estados Unidos e China estão entre os maiores produtores da planta. Quando legalizada, ela pode ser usada na produção de fibras, grãos ou produtos medicinais.

Já a maconha é utilizada principalmente para fins medicinais e de recreação. Uruguai, Canadá e México são exemplos de países que aprovaram o uso da erva. No Brasil, o uso de produtos oriundos da Cannabis é proibido.

— O cânhamo é uma variedade de Cannabis que apresenta teores de tetra-hidrocanabinol abaixo de 0,3%. Já a maconha pode ser definida como a espécie que apresenta níveis bastante elevados de substância psicoativa — explica Renato Filev, neurocientista da Universidade Federal de São Paulo (USP) e especialista em Cannabis, que não participou da pesquisa.

Cannabis há doze mil anos

Os pesquisadores reconheceram relações genéticas entre 104 agrupamentos de Cannabis, dos 110 investigados. Os resultados dão apoio a um cenário evolutivo que demonstra a variabilidade na composição dos canabinóides entre as plantas, através das perdas de funções medicinais e agrícolas por conta da seleção artificial pelos primeiros agricultores. A partir disso, os pesquisadores categorizam a Cannabis sativa em quatro grupos distintos.

O primeiro deles é a Cannabis basal, que é a planta ancestral da Cannabis sativa, encontrada na China. De acordo com o estudo, a primeira datação da espécie é de 12 mil anos atrás e, a partir dela, foi que surgiram as variedades de substâncias como o cânhamo, as chamadas drogas domesticadas e a maconha. No entanto, por ter sido submetida a menos seleções artificiais ao longo da história, é possível que o tipo Basal já esteja extinto.

O seu descendente mais semelhante é a droga domesticada — com "crescimento espontâneo" —, encontradas no sul da China, Índia e Paquistão. Ela é uma planta para uso medicinal que, por não ter sofrido grandes modificações na agricultura, produz tetra-hidrocanabinol (TCH) inferior à maconha comercial.

Outras duas ramificações são os cânhamos, cultivados para a produção de fibras e já distribuídos em todo o mundo, e a maconha, que é usada na produção de THC elevado e já possui distribuição mais abrangente pelo mundo.

— A pesquisa mostra que a Cannabis basal é uma raiz comum que se perdeu ao longo do tempo e não existe mais. Hoje temos como variedades a maconha, cânhamo e as drogas ambientadas, que foram domesticadas em alguns países da Ásia. O que mais diferencia a droga domesticada do cânhamo e da maconha é que ela não sofreu uma seleção genética apropriada para a produção de uma matéria-prima específica, seja fibra, semente, resinas — explica Filev.

Os estudiosos da Universidade de Lausanne identificaram genes do cânhamo que podem ter sido modificados durante o cultivo, incluindo os relacionados com a formação de ramos, o tempo de floração e a biossíntese de lignina (molécula associada à celulose).

Na maconha, foi encontrado um gene envolvido na biossíntese de canabinóides e associado à grande capacidade de mutação genética. Tais características tornam as duas variedades mais modernas e com potencial para ganharem novas formas de uso.

— como a diversidade genética se distribui dentro das espécies, é possível desenvolver programas de melhoramento com populações específicas para o aprimoramento do uso de cada uma — conclui Fumagalli.

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