Primeiro acordo entre Rússia e Ucrânia desde início da guerra libera três portos para exportar grãos

Após meses de bloqueio que elevaram os preços dos grãos e motivaram alertas de uma crise alimentar global, a Ucrânia e a Rússia assinaram em Istambul seu primeiro acordo desde o início da guerra nesta sexta-feira, com o objetivo de permitir a exportação de grãos ucranianos pelo Mar Negro.

Os dois países em guerra não firmaram um acordo direto entre si, mas sim compromissos idênticos com a ONU e a mediadora Turquia, com duração de 120 dias.

Com o acordo, ficam liberadas exportações pelos portos ucranianos de Odessa, Chornomorsk e Pivdenny, com os navios que dali partem podendo navegar em segurança por corredores no Mar Negro. Juntos, os três portos responderam por pouco mais da metade das exportações de grãos do país na safra 2020-1, segundo dados do site UkrAgroConsult.

Rússia e Ucrânia estão entre os maiores exportadores de alimentos globais. A interrupção dos embarques de grãos provocou um aumento acentuado dos preços de cereais ao redor do mundo, gerando a ameaça de uma crise alimentar, sobretudo em países do Norte da África e do Oriente Médio. O acordo reduz esse perigo, e os preços globais do trigo caíram 2% nesta sexta-feira imediatamente após o anúncio de que o documento seria assinado.

Um equipe conjunta de funcionários turcos, ucranianos e da ONU monitorará o carregamento de grãos em navios nos portos ucranianos, antes de que comecem a navegar por uma rota pré-planejada pelo Mar Negro, que continua repleto de minas deixadas por forças ucranianas e russas.

Os mares não serão desminados: segundo um funcionário da ONU, isto demoraria de três a quatro meses, o que é considerado tempo demais. Em vez disso, navios-guias ucranianos liderarão os navios comerciais usando um mapa de canais seguros fornecido pelo lado ucraniano. Os navios cruzarão o Mar Negro em direção ao Estreito de Bósforo, na Turquia, enquanto são monitorados de perto por um centro de coordenação conjunto em Istambul, formado por representantes de ONU, Ucrânia, Rússia e Turquia.

Já os navios que entrarem na Ucrânia serão inspecionados pelo mesmo centro de coordenação conjunta, de modo a garantir que não estejam carregando armas ou itens que possam ser usados ​​militarmente.

Os lados russo e ucraniano concordaram em não conduzir ataques contra qualquer um dos navios comerciais ou portos envolvidos na iniciativa de transportar os grãos, enquanto monitores da ONU e da Turquia estarão presentes nos portos ucranianos para demarcar as áreas protegidas pelo acordo.

Citando uma fonte não identificada, a agência russa Tass disse, que, em uma primeira fase, o acordo permitirá a navegação de cerca de 80 navios ucranianos. A quantidade total que poderá ser exportada é estimada é entre 20 e 25 milhões de toneladas de grãos. Um funcionário da ONU deu uma previsão mais contida, e citou até 5 milhões de toneladas por mês.

Além de escoar grãos armazenados, a Ucrânia precisa também liberar espaço em seus silos em Odessa, para abrir espaço para a próxima colheita, que começou neste mês. Segundo a Associação de Agricultores e Proprietários de Terras da Ucrânia, Ivan Tomych, 90% da cevada já foi colhida no Sul do país, e a colheita de trigo e de colza também está quase concluída.

Em paralelo ao acordo, a Rússia assinou um memorando de entendimento com a ONU relacionado ao fornecimento de produtos agrícolas russos aos mercados mundiais. Segundo o Ministério da Defesa russo, o documento visa "facilitar o fornecimento de produtos agrícolas e fertilizantes russos" a esses mercados.

O memorando determina que a ONU vai trabalhar para para eliminar as restrições antirrussas que impedem a exportação de produtos agrícolas e fertilizantes do país. As atuais sanções americanas e europeias à Rússia não impactam diretamente o setor agrícola do país, por causa do papel fundamental deste na alimentação global. Mesmo assim, muitos bancos e comerciantes na Europa e nos EUA evitam financiar e comprar produtos russos, com medo de sofrerem punições ou das regras mudarem.

Negociados durante semanas, os documentos foram assinados em Istambul, sem que as delegações russas e ucranianas se cumprimentassem diretamente. Lá estiveram o ministro da Defesa russo, Sergei Shoigu, o ministro da Infraestrutura ucraniano, Oleksandr Kubrakov, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, e o ministro da Defesa da Turquia, Hulusi Akar.

Erdogan, que consegue uma importante vitória diplomática com a assinatura do acordo, deu as boas-vindas aos representantes dos dois países:

— Estamos orgulhosos de ser fundamentais em uma iniciativa que terá um papel importante na solução da crise global de alimentos, que está na agenda há muito tempo — disse ele.

Após agradecer a Erdogan, descrito como "fundamental" ao longo do processo, Guterres afirmou que o acordo "ajudará a evitar uma catástrofe de escassez de alimentos para milhões de pessoas em todo o mundo".

— Hoje há um farol no Mar Negro. Um farol de esperança, um farol de possibilidade, um farol de alívio em um mundo que precisa mais do que nunca.

O ministro da Defesa russo prometeu que o país não irá tirar vantagem do fato de os portos ucranianos estarem sem minas:

— Não vamos aproveitar o fato de que esses portos [ucranianos] estão limpos de minas e abertos. Assumimos esse compromisso — disse Shoigu.

O assessor presidencial ucraniano Mykhailo Podoliak ressaltou que o acordo não foi assinado diretamente entre Kiev e Moscou, e sim separadamente entre cada um dos países, a ONU e a Turquia.

"Não haverá escolta dos transporte por navios russos e nem a presença de representantes da Rússia em nossos portos. Em caso de provocações, daremos uma resposta militar imediata", ele afirmou em rede social.

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