Primeiro país depois dos EUA a atingir 20 milhões de casos, Índia vive cenário de pânico

Thayz Guimarães
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NOVA DÉLHI - Epicentro global da pandemia de Covid-19, a Índia se tornou, nesta terça-feira, o segundo país a ultrapassar a marca de 20 milhões de diagnósticos, algo até então restrito aos Estados Unidos. Cinco milhões desses casos foram registrados em pouco mais de duas semanas, tamanha a dimensão da crise sanitária no país de 1,3 bilhão de habitantes.

À medida que a pandemia avança, se acumulam pedidos desesperados de pessoas em busca de cilindros de oxigênio, remédios e leitos hospitalares. O cenário é de escassez generalizada, colapso sanitário e pânico entre a população: há falta de vagas até em necrotérios, e sessões de cremação coletivas são improvisadas em parques e estacionamentos. Entrevistados pelo O GLOBO contam como está sendo o dia a dia na capital, Nova Délhi.

— A Covid-19 está chegando cada vez mais perto dos indianos. Os números estão se transformando em nomes e esses nomes em pessoas que a gente conhece — disse o consultor de moda Varun Anad, que atua como intermediário entre clientes internacionais e fabricantes indianos. — O sistema de saúde está em colapso. É muito triste e perturbador.

No último mês, enquanto a variante B.1.617 se espalhava por todos os 28 estados do país, a média móvel de novos casos aumentava mais de cinco vezes e a de mortes, mais de oito. Apesar disso, o primeiro-ministro Narendra Modi autorizou a realização de dois festivais e inúmeros comícios políticos superlotados, sem nenhuma medida de proteção — tendo ele próprio participado de vários desses eventos, de olho nas eleiçoes legislativas.

A Índia registrou na última semana uma média de 378 mil novos casos por dia — o que corresponde a mais da metade de todos os casos diários do planeta — e mais de 3,5 mil mortes por dia — equivalentes a um terço da média global diária, segundo dados do Our World in Data. No sábado, o país do Sul Asiático também se tornou o primeiro do mundo a bater a marc a de 4 mil novos casos em 24 horas.

O designer de interiores Sanidhya Sharma, 27, mora com os pais e o irmão, todos recentemente diagnosticados com coronavírus. A mãe, de 50 anos, é a única que ainda não se recuperou dos sintomas. Ela sente febre e dor no corpo, mas prefere manter o isolamento em casa e recorrer a "tratamentos alternativos" — um coquetel de medicamentos que no Brasil ficou conhecido como "kit Covid" e medicina ayurveda — do que ir a um hospital.

— Nós estamos com muito medo porque todos os hospitais estão em péssimas condições atualmente, sem oxigênio e sem medicação — disse Sanidhya. — Há muitos relatos também de roubo de órgãos e venda de medicamentos em mercados ilegais. As pessoas estão morrendo e o governo não faz nada.

Diante da pressão, o governo central suspendeu as exportações de doses e prometeu acelerar sua campanha de vacinação. Desde sábado, todas as pessoas com mais de 18 anos estão elegíveis a tomar a primeira dose — até então, apenas pessoas acima de 45 anos poderiam ser vacinadas. Mas antes mesmo de a campanha ser estendida, centros de inoculação em todo o país já afirmavam que estavam ficando sem a vacina.

Na última semana, a ala para pacientes com Covid-19 de dois hospitais indianos também pegou fogo, enquanto um outro hospital de Nova Délhi ficou sem oxigênio por oito horas. Doze pessoas morreram, incluindo um médico. No fim de semana, um caminhão com 40 mil doses da Covaxin, a vacina desenvolvida pelo país, foi encontrado abandonado numa estrada sem motivo aparente.

Essa situação crítica levou os EUA, que também impõem medidas protecionistas às doses produzidas em seu território, a enviaram suprimentos no valor de mais R$ 100 milhões (R$ 534 milhões) para a Índia, incluindo mil cilindros de oxigênio, 15 milhões de máscaras N95 e um milhão de testes de diagnóstico rápido.

Um avião com 28 toneladas de equipamentos médicos fretados pela França também foi entregue à Nova Délhi no domingo, com oito geradores de oxigênio de grande porte e 28 respiradores. Um dia antes, a Alemanha já havia enviado 120 respiradores, enquanto o Reino Unido prometeu outras mil unidades para a Índia, sua ex-colônia.

O advogado Pankaj Kumar, de 27 anos, perdeu parentes, amigos e colegas de trabalho para o coronavírus nos últimos meses, mas não culpa somente o governo por isso:

— Cada moeda tem duas faces — disse. — O governo não cumpriu seu dever muito bem, mas as pessoas também negligenciaram suas obrigações. O governo não pode ser responsável por tudo, nós também temos algumas responsabilidades, mas muitos não querem cumprir o seu dever. O que está acontecendo agora é resultado desse descuido.

Lar do Instituto Sérum, o maior produtor de vacinas do mundo, a Índia aplicou as duas doses da vacina em 2,1% de sua população até o momento. A proporção sobe para 9,3% quando considerada ao menos uma dose, mas ainda é muito distante das taxas de países como Israel (60%) e EUA (44%), líderes na vacinação contra Covid, segundo dados do New York Times, e mesmo do Brasil (15,26%), segundo o Ministério da Saúde.

Aos 48 anos, Varun Anad e a esposa, Ritika, tomaram a primeira dose da vacina há alguns dias. Foi a primeira vez que saíram de casa em semanas.

— Com o número de casos de Covid aumentando enormemente, a maioria de nós está com medo até de sair de casa — afirmou. — Atuo na linha de produção de uma fábrica de roupas e, infelizmente, nesse ramo não podemos trabalhar de casa, mas desta vez até os proprietários estão com medo. Muitos funcionários também começaram a voltar para suas cidades e vilas.

Um dos donos da fábrica onde Varun trabalha está internado em uma unidade de tratamento intensivo (UTI) em estado grave, outro ficou acamado por mais de um mês antes de conseguir se recuperar, e um terceiro acaba de receber o diagnóstico positivo — ele e todos os seus familiares.

Especialistas em saúde dizem que a Índia se tornou complacente durante o inverno, quando novos casos aconteciam a cerca de 10 mil por dia e pareciam estar sob controle, levantando as restrições que permitiam a retomada de grandes reuniões. Outros dizem que a variante B.1.617, aparentemente mais contagiosa, estaria por trás do agravamento.

No final de janeiro, durante o Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, Modi chegou a afirmar, por vídeo, que os temores mundiais sobre o impacto de uma "tsunami" de casos de Covid-19 em seu país eram infundados. Poucos dias depois, declarou que havia vencido o coronavírus, quando os novos casos caíram para mínimos históricos.

Na terça, a Índia registrou 357.229 casos de Covid-19, com 3.449 mortes. Ao todo, o mais registra 20,3 milhões de casos, com 222.408 mortes. Especialistas, no entanto, afirmam que os números reais podem ser entre cinco e dez vezes maiores.