Primeiro repórter a fazer matéria sobre 'Escola Base', Valmir Salaro reflete sobre erros em novo doc

A voz e o rosto de Valmir Salaro fazem parte da história do telejornalismo brasileiro. Há 30 anos na TV Globo, o paulistano participou de dezenas de coberturas emblemáticas, como “A máfia dos fiscais”, que revelou um esquema de corrupção da prefeitura de São Paulo, em 2000, e a entrevista com o casal Nardoni, antes de serem condenados pelo assassinato da menina Isabela, em 2008. Mas ele não se envaidece com as glórias, fica mesmo angustiado com um erro, cometido em 1994: o caso da Escola Base, que agora é tema do documentário “Escola Base – Um repórter enfrenta o passado”, dirigido por Eliane Scardovelli e Caio Cavechini, que estreia nesta quinta-feira no Globoplay.

Na produção, Valmir tenta fazer uma espécie de expurgo de toda sua culpa por ter sido o primeiro repórter a fazer uma matéria sobre a escola em São Paulo cujos donos e o motorista de uma van foram acusados por duas mães de abusarem sexualmente de crianças em torno de 4 anos. A investigação provou-se, meses depois, completamente equivocada, mas a cobertura jornalística e o julgamento da opinião pública já haviam condenado os inocentes. Valmir sempre carregou nas costas o arrependimento de ter acreditado tão rápido e cegamente no delegado, nas mães e, principalmente, num laudo do Instituto Médico Legal que corroborava a narrativa de abuso.

—A gente comete pequenos, grandes e monstruosos erros. Nesse caso, houve um erro muito, muito grande. De uma certa forma, ajudei a mudar o destino destas pessoas — diz Valmir, sobre os sócios, Icushiro Shimada, Maria Aparecida Shimada e Paula Milhim Alvarenga, e o marido de Paula, o motorista da van, Maurício Monteiro de Alvarenga.

Em cerca de 1h40, Valmir reflete não só sobre seus próprios erros (“na época, a gente até entrevistou as crianças, coisas que a gente não faria mais”, diz), como o de toda a investigação.

—Admito isso: devia ter esperado mais alguns dias, mas aquele laudo (do IML) era uma informação oficial. Os peritos em nenhum momento questionaram o que tinha acontecido. O delegado, com base nessa informação, fez toda aquela investigação escandalosa, midiática. Ele também não teve cautela. Eu divulguei a história sem uma cautela maior ainda e devia ter desconfiado de tudo e de todos.

'Aproximar o jornalista das pessoas'

A ideia de reviver a história veio do produtor Alan Graça Ferreira, que trabalha há dez no “Fantástico” e dividiu inúmeras pautas com Valmir. Entre uma matéria e outra, criou-se uma intimidade em que veterano repórter expôs suas feridas relacionadas à Escola Base. Quem diria, espantou-se Alan, que aquele jornalista tão competente e bem-sucedido carregava um drama dentro de si?

O produtor veio, então, com a ideia de que eles fizessem um documentário em que Valmir encontrasse as pessoas nele envolvidas, principalmente as mais machucadas. Todo mundo, na visão de Alan, sairia ganhando: o jornalista e o jornalismo. O Globoplay concordou em 2019 e, em 2021, eles começaram a tocar o projeto.

— A ideia é também aproximar o jornalista das pessoas. Achei que tínhamos ali uma história que seria boa para o Valmir, mas também para o jornalismo, ainda mais num momento de tantos ataques.

Valmir Salaro, que nunca se furtou a falar da Escola Base para estudantes, ate concorda que o projeto o ajudou a lidar com o passado, mas sabe tem certeza de que o caso nunca vai desaparecer, ainda mais agora:

—Estou com a alma um pouco mais leve, mas ela ainda tem uma cicatriz muito grande. Porque é uma história que nunca vai morrer. Eu vou, mas a Escola Base vai continuar e vai se perpetuar agora com o documentário.